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domingo, 21 de agosto de 2016

Bibbidi-Bobbidi-Boo: vaias como varinhas de condão?

As vaias dirigidas pelo público ao atleta francês do salto com vara, Renaud Lavillenie, - tanto durante a prova, quanto na cerimônia de entrega de medalhas - repercutiram tanto nacional quanto internacionalmente. Certamente há considerações éticas que podem ser tecidas - embora a situação tenda a ser um tanto mais complexa do que o quadro traçado em algumas análises (especialmente as que operam em quadros de heróis e vilões bem definidos) -, mas não é o objetivo desta postagem.

As vaias são um elemento bastante comum e destacado no cenário esportivo. Torcedores, especialmente em modalidades de equipes e as disputadas um contra um, valem-se de aplausos, gritos e sonorizações de desaprovação.Curiosamente, a despeito de sua frequência e relevo, parece haver poucos estudos a analisar mais especificamente os efeitos dessas manifestações vocais negativas da plateia sobre o desempenho desportivo.

O único específico sobre a vaia que encontrei no Google Scholar foi Greer 1983 (pode haver mais e seja apenas falha minha em achar estudos sobre os efeitos da vaia nos atletas). Ele analisou alguns parâmetros de equipes de basquete - times da casa e times visitantes - logo após episódios de vaia (geralmente contra marcações da arbitragem). O time visitante tende a ter um aumento significativo da taxa de faltas nos 5 minutos seguintes aos apupos. Outros parâmetros considerados não apresentaram alterações significativas, embora a tendência tenha sido sempre de melhor desempenho da equipe da casa e um pior da visitante.

Clayman 1993 analisou a vaia em outro contexto: em reação a discursos. Como manifestação coletiva, a varia difere do aplauso em seus padrões de manifestação. O aplauso tende a surgir logo após trechos proeminentes do discurso e, de início, com os manifestantes atuando de modo independente. Já a vaia tende a ocorrer após um intervalo em que os membros avaliam a reação dos demais (verificando sinais de desaprovação - como balançar de cabeças, expressões.faciais de contrariedade, murmúrios...).

Nevill et al. 2002 estudaram não especificamente a vaia, mas o barulho das torcidas de futebol (o que inclui cânticos, xingamentos, gritos) sobre a decisão dos árbitros. A conclusão é que torcida barulhenta faz com que os juízes se tornem caseiros. Myers 2014 chega à mesma conclusão - e de modo generalizado para todos os esportes - em sua revisão sobre a influência do barulho da torcida na decisão dos árbitros esportivos. Thirer & Rampsey 1979 observaram o desempenho de equipes universitárias de basquete após manifestações negativas da torcida e obtiveram um resultado oposto ao que seria obtido por Greer 1983 para as vaias: após os episódios de comportamentos antissociais, o time da casa apresentou um número maior de faltas, enquanto o time visitante não apresentou alteração.

Epting et al. 2011 examinaram os incentivos e as zombarias da torcida sobre a performance individual de atletas. O efeito parece variar de esporte para esporte. Jogadores universitários de basquete não têm o desempenho nos lances livres afetado seja pela torcida contra seja pela torcida contra; jogadores de beisebol são afetados negativas em seus lançamentos por zombarias da torcida; já jogadores de golfe tendem a errar suas tacadas tanto por manifestações de apoio quanto por troças.

Lavillenie pode ter, assim, razão em sua reclamação de que as varias afetaram seu desempenho, mas barulhos - incluindo varias (e até para o time da casa) - estiveram e estão presentes em várias outras modalidades. Por outro lado, há variação nos ethos admitidos em cada esporte: no tênis espera-se silêncio da torcida entre o saque e a definição do ponto; no golfe, o silêncio absoluto durante preparação e execução da tacada... No futebol, o barulho é esperado o tempo todo - a menos do minuto de silêncio antes do início de algumas partidas, ou o silêncio sepulcral diante uma derrota inesperada e sentida do time da casa; basquete, beisebol, andebol, futsal, vôlei e outros são também jogados diante de torcidas barulhentas o tempo todo. Mas em nenhuma dessas há um regulamento (mesmo que não escrito) de que apenas sons de incentivo possam ser emitidos. Haveria que se fazer exceção ao atletismo? Bem, mas isso dificilmente pode ser respondido por números, quantificações de desempenho e análises estatísticas.

sábado, 13 de agosto de 2016

O que exatamente esverdeou a água da piscina no Maria Lenk?

Não sendo dia de São Patrício em Chicago, a água tornar-se verde de uma hora para outra não costuma ser uma boa notícia. Em uma edição olimpica, então...

O comitê organizador chegou a falar no mesmo dia 09.ago.2016, em que se deu a mudança de cor e turbidez da água da piscina de saltos ornamentais no complexo Maria Lenk no Rio de Janeiro, que os atletas não corriam riscos de saúde. Mas é difícil de se imaginar um conjunto de testes que, em poucas horas, permitam analisar a potabilidade/balneabilidade/inocuidade da água: testes para a presença de micro-organismos levam pelo menos um dia para incubação. Aparentemente, tudo o que verificaram foi o pH; o que não permite, por si, determinar a segurança: há bem mais riscos numa água de banho do que simplesmente sua acidez ou basicidade.

Quatro dias depois do início do incidente, o comitê organizador revela que foram despejados 80 litros de peróxido de hidrogênio: H2O2, na piscina previamente clorada. Tanto o peróxido quanto o cloro são utilizados para o tratamento de piscinas para evitar a proliferação de micro-organismos, especialmente bactérias e algas. Mas não devem ser usados em conjunto: o peróxido de hidrogênio, na verdade, é usado para desclorar a água (p.e. para permitir o despejo em rios e lagos).

Normalmente, a água de piscina é clorada com hipoclorito de cálcio: Ca(ClO)2 - em formulação com 60 a 80% do composto. O hipoclorito de cálcio reage com a água formando ácido hipoclórico: HOCl, e hidróxido de cálcio: Ca(OH)2. O HOCl se dissocia em próton: H+ e íon hipoclorito: OCl- (enquando o hidróxido de cálcio se dissocia em íons cálcio: Ca+2 e hidroxilas: OH-). Costuma-se usar em quantidades que correspondem a uma concentração final de 5 a 10 ppm (mg/l) de equivalente de cloro livre: OCl-, ou 0,14 a 0,28 0,1 a 0,19 mmol/l.

O peróxido reage com o íon hipoclorito, formando gás oxigênio: O2 e íons Cl-, que podem reagir com moléculas de HOCl e prótons para formar gás cloro: Cl2. Os 80 litros de H2O2 diluídos em 3.725.000 de litros da piscina equivalem a uma concentração final de 0,18 a 0,55 mmol/l (a depender da concentração no produto usado), o suficiente para reagir com praticamente todo o íon hipoclorito da água, desclorando-a por completo.

Sem peróxido e sem cloro, então, a alga pôde proliferar, certo? Bem... Certamente não havia os principais inibidores. Mas, a despeito da fotossíntese precisar apenas de luz e CO2, para o florescimento de algas é preciso a presença de íons fosfato e fontes de nitrogênio, p.e. Ou seja, era preciso que a água da piscina tivesse fontes de matéria orgânica. Sim, nadadores são fontes de matéria orgânica com seus suores, restos de células que descamam da pele, pelos que caem, saliva e até urina. O vento poderia trazer também uma carga de poeira rica em fosfato e nitrogênio, pássaros poderiam contribuir com suas fezes. Mas... qualquer pessoa que tenha - um tanto irresponsavelmente, diante das epidemias de dengue e outras arboviroses - deixado um vidro transparente com água terá notado que leva vários dias ou semanas (ou até mais tempo) até que comecem a aparecer algas; mesmo em aquários, quando desligamos o filtro, leva alguns dias para a parede começar a esverdear. Se a mudança de cor deve-se somente à proliferação de algas, bem, havia *muita* matéria orgânica na água da piscina. Em uma estimativa no olhômetro bem grosseira, a turbidez da água parece algo na casa dos 20 NTU - o que, em termos de bioturbidez causada por floração de algas/cianobactérias, corresponde a uns 36 µg/l de clorofila, ou a cera de 3 a 4 mg/l de massa seca de alga/cianobactéria, considerando cerca de 11 mg de clorofila por grama de massa seca de cianobactéria - ou 10 a 15 kg de matéria orgânica na piscina toda: entre 900g e 1,5 kg de nitrato e 90 a 250 g de fosfatos - considerando a relação entre crescimento e captura de nitratos e fosfatos em cianobactérias. O que significa, no mínimo, um processo de filtragem muito pouco eficiente - ou uma fonte de contaminação mais intensa da água (vazamento de esgoto talvez?).

Íon cloreto produzido na reação com o peróxido (ou mesmo pela própria cloração) pode reagir com amônia presente, formando monocloramina: NH2CI, dicloramina: NHCI2, ou a tricloramina NCI3. A monocloramina é um gás incolor a temperatura e pressão ambientes, dicloramina é um gás amarelo, a tricloramina é um líquido oleoso amarelo e também irritante de mucosas (vários atletas reclamaram de ardência nos olhos) e é o responsável pelo "cheiro de piscina". As cloraminas em concentrações acima de 5 mg/l (em torno de 0,1 mmol/l) tornam a água amarelo-esverdeada. Mas, de novo, seria preciso uma fonte de matéria orgânica a fornecer amônia ou uréia. Naquela piscina, seria preciso uma concentração de 1.500 a 5.000 litros de xixi para fornecer essa quantidade de amônia para a reação química de formação de cloraminas amarelar ou esverdear a água. O que, de novo, aponta, no mínimo, para uma filtragem altamente deficiente.

Então, embora o despejo não planejado de peróxido de hidrogênio seja uma falha, não parece ser um fator suficiente para explicar a situação. Seja a mudança de cor devido à proliferação de algas ou cianobactérias ou à reação de formação de cloraminas.

Confira o que outros canais de DC falaram sobre o caso (atualizo à medida em que souber de mais):
Dragões de Garagem: O estranho caso da piscina olímpica verde.

domingo, 7 de agosto de 2016

Especulando: revisitando o efeito Dunning-Kruger

Em 1999, os pesquisadores Justin Kruger e David Dunning, da Universidade de Cornell, publicaram um trabalho seminal (com 2.872 citações até o momento em que escrevo este texto, segundo o Google Scholar) em que descrevem o fenômeno em que pessoas que se saem pior em um teste tendem a superestimar seu desempenho - enquanto os com melhores resultados tendem a subestimar (Fig. 1). Essa relação passou a ser conhecida como efeito Dunning-Kruger.

Figura 1. Efeito Dunning-Kruger. Quanto pior o desempenho real (linha tracejada), maior a superestimativa da própria habilidade (linha contínua). Fonte: Kruger & Dunning 1999.


Para os autores do achado, o efeito seria dado em boa parte por um déficit metacognitivo (isto é, habilidades mentais de perceber o próprio grau de conhecimento): quando uma pessoa não tem conhecimento suficiente sobre um tema, também não tem as ferramentas mentais para avaliar o grau de conhecimento nesse tema. (Também formulado como "ignorância a respeito da própria ignorância".)

Mas (devo salientar que psicologia *não* é minha área de formação), para mim, esse mecanismo deveria levar também - e principalmente - a uma maior *variação* da própria percepção do desempenho: a falta de ferramentas cognitivas faria com que errassem o resultado tanto para mais quanto para menos. Em uma analogia, uma pessoa com pouca habilidade em tiro ao alvo, após uma série de tiros, acertaria vários pontos espalhados em torno da mosca.

Por outro lado, a diferença entre os valores de autoavaliação dos grupos com melhor e pior desempenho é menor do que a diferença entre os desempenhos reais. E, como dito, os com melhor desempenho tendem a subestimar seu próprio resultado. Pode ser que um mecanismo que faça com que as pessoas tendam a se equiparar à média esteja agindo.

Infelizmente, no artigo original, K&D não apresentam dados de dispersão dos valores em torno dos pontos, apenas valores de medida de tendência central. (Vários outros estudos, e não apenas do grupo de Krueger e Dunning, também deixam de reportar medidas de dispersão.)

Mas Pazicni & Bauer (2014) reproduziram o estudo de K&D com estudantes de química em 9 turmas (Fig 2). A distribuição das médias de desempenho percebido parece bem homogênea entre os estudos para os diferentes quartis de desempenho real.

Figura 2. Efeito Dunning-Kruger em 9 turmas de Introdução à Química. Linhas coloridas: previsões de desempenho; linha preta: desempenho real. Fonte: Pazcini & Bauer 2014.

Essa variação homogênea das médias das estimativas para diferentes quartis de desempenho não é muito compatível com um efeito predominante da falha metacognitiva.

Vale notar também que o efeito pode variar de acordo com a área do conhecimento (Fig. 3). O que indica que não seria um mecanismo geral de metacognição.

Figura 3. Variação do efeito Dunning-Kruger de acordo com as disciplinas. Linhas coloridas: previsões; linha preta tracejada: desempenho real. Fonte: Erickson & Heit 2015.


Reproduções independentes (residentes de medicina Hodges et al. 2001, estudantes de aviação Pavel et al.2012) parecem indicar que o efeito é real. Mas há divergência em relação ao mecanismo gerador do padrão. P.e. Krueger & Mueller (2002) acham que o efeito pode resultar de um artefato estatístico; para Krajc & Ortmann (2007), há uma diferença no nível de dificuldade de inferência, sendo mais difícil para os de menor desempenho; Simons (2013) considera que o efeito DK ou "incompetente e inconsciente" ("unskilled and unaware") é em função de um otimismo irracional por parte dos menos habilitados; segundo Kim et al. (2015), os menos capazes ativamente rejeitam essa condição por autopreservação da imagem .

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Agradeço a @EliVieira pela ajuda na bibliografia.

domingo, 31 de julho de 2016

Qual anatomia é ideal para sobreviver a colisões automotivas?

Um grupo australiano composto por uma escultora, um cirurgião especialista em traumatismos por colisões e um investigador de acidentes veiculares fizeram um interessante exercício sob encomenda da Comissão de Acidentes no Transporte (TAC) do estado de Victoria, Austrália, a respeito de como haveria de ser o corpo humano selecionado pelo trânsito.

Para eles, as modificações anatômicas envolveriam uma cabeça grande resultante de um crânio espessado e tecidos absorvedores de choque que protegeriam o cérebro de danos do impacto ligado diretamente ao tórax, sem pescoço; uma caixa torácica reforçada e alguns outros detalhes menores.

A especulação é interessante para desenvolver uma consciência a respeito dos perigos do trânsito. Mas creio que não para um dos objetivos declarados do projeto, segundo o diretor-executivo da TAC, Joe Calafiore, de ser um "lembrete para desenvolver um sistema de trânsito mais seguro que vai nos proteger quando tudo der errado". Isso porque a base científica das modificações na escultura - chamada de Graham - parecem-me um tanto frágeis.

Aparentemente as modificações foram feitas em cima das estruturas mais afetadas em uma colisão de carro - cabeça e tórax - e a solução apresentada foi reforçá-las.

Mas aumentar a massa de impacto tende a não ser uma boa ideia.

Uma massa corporal maior significa uma energia cinética maior, o que implica em uma força de impacto maior - ainda que tecidos moles como o adiposo possam fornecer algum amortecimento e tecidos ósseos mais densos possam ser mais resistentes - tende a forçar mais os sistemas de segurança como cintos e air bags.

Zhu e cols. (2006) analisaram a relação entre fatalidade em colisões e o índice de massa corporal (IMC) dos motoristas. Excetuando-se as situações de velocidade muito baixas, em que uma maior massa, tem um efeito protetor, quando maior o IMC, mais mortais são os acidentes. (Fig. 1)

Figura 1. Relação entre índice de massa corporal (IMC/BMC) em motoristas homens e fatalidade em colisões automotivas. Fonte: Zhu et al. 2006.

Cabe notar que a relação IMC maior, maior fatalidade não é observado entre as mulheres (Fig. 2).

Figura 2. Efeito do IMC/BMC na fatalidade em colisões automotivas para homens (Men) e mulheres (Women). Fonte: Zhu et al. 2006.

A diferença parece se dever à diferença de distribuição de massa - nos homens, ela tende a se concentrar na região superior (Zhu et al. 2010).

Oras, aumentar a massa na região superior é exatamente o resultado da proposta da equipe que produziu Graham.

Um boi almiscarado tem, entre espessura de chifre e do crânio, cerca de 13 cm de proteção do cérebro contra o impacto gerado em suas disputas a cabeçadas contra outros machos. São animais de até 410 kg batendo-se a 60 km/h. A resistência estimada do sistema chifre+crânio é de 12.858 N (Snively & Theodor 2011). Já um motorista de uns 75 kg em uma colisão 48 km/h enfrenta uma força de 14.274 N com cinto de segurança e de 107.059 N sem cinto. O aumento de massa pela espessura cranial (e do reforço das costelas) só piora o impacto e não deve gerar a resistência necessária.

Por outro lado, um relatório técnico de 2005 do Departamento de Transporte dos EUA, levantou a mortalidade em crianças e adolescentes em colisões veiculares. Para situação de uso de cintos e cadeiras de segurança em carros de passeio, as seguintes taxas foram encontradas por faixa etária por colisão:

0-3 anos: 20,1%; 4-7 anos: 13,6%; 8-15 anos: 18,4%; 16 ou mais anos: 36.9%.

De modo geral, quanto mais jovens, maiores as chances de sobrevivência em uma colisão. A idade correlaciona-se, entre outras coisas, com o tamanho corporal.

Somando-se com a observação da mortalidade de adultos relacionada ao IMC e à distribuição da massa, o melhor para sobreviver a um acidente seria uma massa *menor*.

Um menor tamanho corporal implica também em uma menor estatura. Em termos teóricos, o papel da altura do ocupante é mais complexo - especialmente para os motoristas. De um lado, pessoas mais baixas do que a média, tendem a puxar o banco mais para a frente, ficando mais perto da barra da direção e do para-brisas: aumentando a tendência de impacto cheio com esses obstáculos. De outro, pessoas mais altas têm um menor espaço de segurança até o teto. Além disso, tendem a ter a cabeça muito acima do ponto de contato com o cinto, o que as expõe a um maior efeito chicote - em que a cabeça é rapidamente sacudida para frente e para trás em movimento de grande amplitude - o que pode causar sérias lesões na coluna cervical (risco que, teoricamente, Graham, sem pescoço, não corre).

Na literatura há alguns dados que apontam tanto para um sentido - maior risco para os mais altos - quanto para outro - maior risco para os mais baixos. Mas parece haver uma tendência a haver um maior risco para os mais altos.

Howson et al. (2012) examinaram a relação a sobrevivência em capotagem e a altura do motorista. Motoristas com mais de 72 polegadas de altura (1,83m) apresentou uma maior taxa de fatalidade - provavelmente pelo menor espaço entre o topo da cabeça e o teto do veículo aumentando a probabilidade de impacto sobre a cabeça.

Chong et al. (2007) analisaram vários atributos dos ocupantes e incidência de fraturas nas extremidades inferiores e obtiveram uma taxa aumentada de fraturas no joelho, fêmur ou bacia (KTH) para pessoas com 1,70m ou mais. Fraturas KTH, tíbia ou fíbula (LL) e pé e calcanhar (FA) aumentam também com o peso.

Por outro lado, Welsh et al. (2003), em um relatório para o Departamento de Transporte do Reino Unido, encontraram um *maior* risco de ferimentos moderados (AIS 2+) entre motoristas com até 1,60m de altura.

Pode ser que haja e que eu não tenha encontrado, mas um estudo interessante seria ver a taxa de sobrevivência/fatalidade de motoristas anões em acidentes. Sendo tudo o mais igual, capaz deles terem uma perspectiva melhor do que pessoas de altura normal.

domingo, 24 de julho de 2016

Contra o método: uma pedra no meio do caminho*

Método vem do grego methodos 'perseguição, busca, sistema' (meta 'além, após' e hodos 'via, caminho'). É uma das principais seções de um artigo científico típico, onde é descrito idealmente todos os passos seguidos para se obter os dados reportados - e que, supostamente, se outras pessoas reproduzirem, deverão obter os mesmos resultados. O método é um dos pilares da ciência, na medida em que serve de garantia da reprodutibilidade dos dados e, portanto, da correção e honestidade destes.

Em função disso, exige-se a máxima transparência em relação à descrição do método. Porém, alguns casos têm vindo à tona de graves falhas na metodologia empregada que passaram despercebidas e, agora, afetam seriamente a credibilidade de milhares e milhares de artigos e lança sombra sobre suas respectivas áreas.

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'O que faremos amanhã à noite, Cérebro?' 'O mesmo que fazemos todas as noites, Pinky; tentar consertar o método.'
Apesar do imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) - em que se busca detectar regiões do cérebro em que há uma alteração no sinal de ressonância magnética dos núcleos de hidrogênio aumento do consumo de açúcares radiomarcados durante a realizações de determinadas tarefas**** - já ter um quarto de século com intenso uso em pesquisa e diagnóstico, o principal algoritmo estatístico de detecção de padrões usado nessa técnica nunca foi devidamente validado com testes comparativos com dados reais.

Eklund e cols. (2012) resolveram, então, colocar isso à prova e obtiveram um resultado muito ruim: até 70% (a depender dos ajustes utilizados nos programas) de falsos positivos foram obtidos na análise de 1.484 dados de repouso disponíveis publicamente em um bando de dados com o uso do pacote SPM - contra a taxa esperada de falsos positivos de 5% O mesmo grupo em.Eklund, Nichols e Knutsson (2016)** expandiu a análise incluindo os principais softwares utilizados nesse tipo de análise (além do SPM, também o FSL, o AFNI e o método de permutação não-paramétrica) e também foram obtidos taxa de falsos positivos muito acima do esperado. O problema provavelmente deve-se ao fato de os dados reais não seguirem uma distribuição teórica (gaussiana) como suposto nas análises estatísticas implementada nos softwares.

O achado deve afetar cerca de 40.000 artigos que utilizam a técnica de fMRI.

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Corretor celular
Em uma revisão, Hugues e cols. (2007), estimaram que 18% a 36% das linhagens celulares utilizadas em pesquisa estavam contaminadas ou eram objeto de erro de identificação.

Em 2012, foi formado o Comitê Internacional de Autenticação de Linhagens Celulares (ICLAC) para avaliar o perfil das linhagens celulares utilizadas em pesquisa. Mais de 400 linhagens estão catalogadas como contaminadas ou erroneamente identificadas.

Christopher Korch, um dos principais pesquisadores da área, estima que apenas com duas linhagens: HEp-2 e INT 407 (contaminadas há muito tempo e atualmente constituídas essencialmente por células HeLa), 7.125 artigos estão comprometidos.

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*Obs: Apenas um trocadilho com título da principal obra do filósofo Paul Feyrabend. Não é nenhum abono a ela - não que minha recomendação ou restrição conte alguma coisa. (Claro, também uma referência ao conhecido a abusado verso do poeta Carlos Drummond de Andrade.)
**via Rafael Garcia fb
***ht Stevens Rehen fb
****O leitor Ricardo, a quem agradeço, alertou nos comentários que a explicação original estava errada - ela se referia à técnica de PET scan.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Carros com faróis acesos durante o dia: o que a ciência tem a dizer?

No dia 23 de maio deste ano, foi sancionada a lei federal 13.290/2016 que modifica o Código de Trânsito Brasileiro, tornando obrigatório por veículos automotores o uso de luz baixa nas rodovias durante o dia.

Apesar de reclamações, a medida tem razão de ser. O efeito do uso do farol para aumentar a visibilidade dos veículos - e com isso diminuir colisões e atropelamentos - é estudado mais sistematicamente desde pelo menos a década de 1980. Os resultados indicam que a medida reduz os acidentes em algo como 3% a 7%.

Um relatório de 1997 para a Comissão de Transporte da Comunidade Européia concluiu:
"DRL as a road safety measure is often difficult to understand for the road user because he or she `knows' that with sufficient attention every road user can be seen in daylight. Nevertheless, the research reviewed shows that visual perception in daytime traffic is far from perfect and it is worse in conditions of low ambient illumination. In a striking example 8% of cars in an open field in broad daylight were not visible from relevant distances without the use of DRL. On shady roads or those with backgrounds which mask objects in the foreground the visibility and contrast of cars in popular colours is greatly reduced.
[...]
The psychological research reviewed shows that DRL does not only improve the visibility of motor vehicles in daytime, but also influences the timely peripheral perception of vehicles making conflicting movements. Moreover, cars with DRL are better identified as cars and their distances are estimated more safely compared to cars without DRL."
["O farol de rodagem diurna - daytime running lamp -, como medida de segurança rodoviária, frequentemente é difícil de ser compreendida pelos usuários de estradas porque ele ou ela 'sabe' que com atenção suficiente todo usuário de estradas podem ver sob a luz do dia. No entanto, a pesquisa revisada mostra que a percepção visual no tráfego diurno é longe de perfeita e piora em condições de baixa iluminação ambiente. Em um exemplo de destaque, 8% dos carros em um campo aberto em plena luz do dia não eram visíveis de distâncias relevantes sem o uso de DRL. Em estradas sombreadas ou em fundos que mascaram objetos à frente a visibilidade e o contaste dos carros em cores populares é grandemente reduzida.
[...]
A pesquisa psicológica revisada mostra que o DRL não apenas melhora a visibilidade dos veículos automotivos durante o dia, como também influencia a percepção periférica a tempo dos veículos em movimentos conflitantes. E mais, carros com DRL são mais bem identificados como carros e suas distâncias são estimadas com mais segurança em comparação a carros sem DRL."]

Somente nas rodovias federais brasileiras, em 2014, foram 8.227 mortes, das quais, 4.787 resultantes de colisão, e 26 mil feridos graves em acidentes, 13.511 em colisões. Em 2011, 62% dos acidentes nas rodovias deram-se entre as 6h e as 18h. Então, nas rodovias federais, algo entre 90 e 200 mortes e 250 e 600 feridos graves podem ser evitados por ano.

Em farol baixo, a lâmpada consome cerca de 55W. Se os cerca de 90 milhões de veículos do Brasil fossem, com a mudança na lei, obrigados a ficar com os faróis acesos por 12 horas/dia, isso significaria algo como 4,5 milhões de litros de gasolina a mais; algo como R$ 20 milhões de reais por ano. Grosso modo, entre R$ 90 mil e R$ 210 mil por morte evitada. Deal. (A relação é ainda melhor porque não são todos os veículos que trafegam pelas rodovias brasileiras, nem ficarão com 12 horas a mais de faróis baixos acesos por dia, e não foram computadas as mortes nas rodovias estaduais. Considerando valores mais realistas de 20 milhões de veículos e 3 horas a mais de uso de farol, os custos ficam entre R$ 5.000 e R$ 12.000 por morte evitada.)*,**

Um potencial efeito negativo é que o uso de farol aceso pelos carros pode levar à diminuição da percepção de motocicletas. Outro é o impacto ambiental causado pelo aumento do consumo de combustível**. Por outro lado, reduz significativamente os casos de atropelamento de pedestres.

*Upideite(13/jul/2016): O cálculo inicial considerava apenas uma lâmpada do conjunto. Naturalmente, os valores dobram contando com as duas lâmpadas. Mas, ainda assim, é um custo muito baixo por morte evitada.

**Upideite(14/jul/2016): Com um litro de gasolina (teor energético de 34,2 MJ/l), é possível se manter as duas lâmpadas (2 x 55W) acesas por cerca de 85 mil horas (cerca de 3.600 dias - quase dez anos). Ou seja, o gasto individual é insignificante.

A produção de CO2 na queima de gasolina é de cerca de 2,5 kg/l (~20 lb/gal). No cenário de 4,5 milhões de gasolinas extras consumidas por ano, teremos 11.250 tCO2 produzidos por ano. Em comparação, o total de emissão de equivalentes de CO2  no Brasil em 2013, foi de 32,27 bilhões de toneladas.

Upideite(12/ago/2016): Nos comentários, o leitor Paulo Zanotta faz uma pergunta pertinente a respeito do efeito da latitude. De fato, em latitudes mais baixas, com maior luminosidade, o efeito das DRLs é reduzido. No entanto, ele não é zerado (a menos exatamente sobre o equador). Koomstra (1993) encontrou uma equação relacionando latitude e efeito da DRL: 13,852*tan(latitude/57,294)^1,525 a partir da regressão com dados reais em vários países (Fig. 1). Isso significa que para uma latitude de 30° (aproximadamente correspondente à latitude de Porto Alegre), a redução esperada é de 5,99%; para 20° (aproximadamente do Rio de Janeiro e São Paulo), de 2,97%; para 10° (aproximadamente de Salvador), 0,98%; 5° (aproximadamente de Natal), 0,34%. Como a maior parte do tráfego se concentra nas regiões Sudeste e Sul, o valor de 3% utilizado na análise aqui no GR parece justificado.

Figura 1. Relação entre efeito redutor da DRL em acidentes automobilísticos e latitude local. Fonte: Koomstra 1993.

domingo, 10 de julho de 2016

Melhores canais de DC na internet - resultado: facebook, twitter e outras mídias sociais

Na postagem anterior, foram apresentados os resultados na categoria de blogues da votação dos melhores canais de divulgação científica na internet; seguem agora a tabulação para as categorias de perfis/páginas de facebook, de twitter e outras mídias sociais.

Nota-se um índice muito baixo de indicações: apenas 21/40 (52,5%) para facebook, 15/40 (37,5%) para twitter, e 4/40 (10% - sendo que a metade dos votos para sítios web, não propriamente para mídias sociais). Duas possibilidades não mutuamente excludentes para esse resultado são: 1) as pessoas ainda consomem pouco informações sobre ciências nessas mídias; 2) a ordem das questões desestimulou as respostas (eram os últimos itens no questionário).

Na próxima postagem, os dados para as categorias 'vlogs' e 'podcasts'.


domingo, 3 de julho de 2016

Melhores canais de DC na internet - resultado: blogues

Segue tabulado o resultado parcial (correspondentes à categoria de blogues) da pesquisa sobre os melhores canais de DC na internet.

Foram 40 respondentes válidos. Um total de 33 canais (independentes ou em portais) foram mencionados na categoria de blogues. Dois considero mais como podcasts (embora tenham blogues de apoio).

A coluna "total" apenas soma os votos totais para o blogue, sem atribuir nenhum peso. A coluna "pond." dá um resultado ponderado com peso 3 para o voto como "o melhor", 2 para o "segundo melhor" e 1 para o "terceiro melhor".

Agradeço a participação de todos. Mais tarde publico o resultado para outras categorias.*


*Upideite(10/jul/2016): Confira aqui o resultado para facebook, twitter e outras mídias sociais.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 25 (parte 2 de 2)

Parte final de minhas anotações sobre o artigo de Lewandowsky et al. 2012.

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Lewandowsky et al. 2012. Misinformation and its correction: continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13(3): 106-31. DOI 10.1177/1529100612451018.

Reduzindo o impacto da desinformação
Até o momento, três fatores foram identificados como aumentando a eficiência das retratações.
a) Alerta pré-exposição
>Avisar destacadamente que o que virá a seguir é uma desinformação; o aviso deve apontar para os efeitos da desinformação e não apenas dizer que fatos falsos estão presentes;
>O alerta pode induzir estado de ceticismo, permitindo as pessoas a maximizarem suas habilidades em discriminar entre informações verdadeiras e desinformações;
>Aviso após a exposição é menos eficiente, mas ainda pode ter algum efeito: possivelmente por eliciar um processo de monitoramento estratégico de avaliação da validade da informação/desinformação recuperada automaticamente;
b) Repetição de retratações
>Repetições podem ajudar a diminuir, mas não eliminar o efeito da desinformação;
>Mais eficientes para casos de exposições reiteradas de desinformação;
>Sem efeito sobre exposição única a uma desinformação;
>Repetição de correção pode, no entanto, diminuir a eficácia da própria correção: 1) efeito do 'protesto excessivo' ('protest-too-much') reduz confiança na veracidade da correção, 2) repetição da desinformação na correção pode aumentar a familiaridade com o dado errôneo.
c) Preenchendo lacunas: fornecendo uma narrativa alternativa
>Oferecer uma explicação causal alternativa preenche lacuna deixada pela retratação da desinformação: p.e. "não havia cilindros de gás nem tintas a óleo, mas havia material para incêndio criminoso";
>A explicação alternativa deve ser plausível, dar conta de importantes qualidades causais dos relatos iniciais e, idealmente, por que a desinformação foi tomada como correta em primeiro lugar;
>A alternativa deve se integrar às demais informações da fonte inicial da desinformação;
>Se a alternativa for muito mais complexa do que a desinformação inicial, pode gerar o efeito de tiro pela culatra 'por excesso' ('overkill') de contra-argumentos;
>Em caso de correção de desinformações ligadas à política, a suspeita sobre o raciocínio e motivação por trás da correção e da desinformação inicial é importante na aceitação ou não da correção.

Usando desinformação para informar
A dissecção prolongada e cuidadosa dos argumentos errados pode facilitar a aquisição da informação correta.

Recomendações concisas para praticantes
.Considere que lacunas serão geradas no modelo mental das pessoas com a retratação e procure preenchê-las com explicações alternativas;
.Repita a retratação, mas cuidado com o efeito de tiro pela culatra com a exposição repetida da desinformação na retratação;
.Enfatize os fatos que quer passar em vez do mito que deseja refutar para evitar a familiarização com o mito;
.Forneça um alerta explícito antes de mencionar o mito para garantir que as pessoas se previnam e sejam menos influenciadas pela desinformação;
.Garanta que seu material seja simples e breve, use linguagem clara e gráficos quando possível,
.Considere se seu material não é uma ameaça à visão de mundo das pessoas, pois pode haver efeito de tiro pela culatra;
.Se apresentar indícios que sejam ameaças às visões de mundo das pessoas, procure apresentá-los de modo que reafirme essas visões de mundo (p.e. focando-se nas oportunidades e benefícios potenciais, em vez de nas ameaças e riscos) ou que encoraje a autoafirmação;
.Pode-se evitar o papel da visão de mundo focando-se em técnicas comportamentais como em design de arquiteturas de escolha (p.e. doação presumida x declarada) em vez de desenviesamento ostensivo.

Figura 1. Resumo gráfico das melhores estratégias para refutar uma desinformação. Tradução na Tabela 1. Fonte: Lewandoswky et al. 2012.

Tabela 1. Resumo das melhores estratégias para refutar uma desinformação.
Problema Soluções e boas práticas
Efeito da influência continuada
A despeito da retratação as pessoas continuam a confiar na desinformação
Narrativa alternativa
Explicações alternativas preenchem lacunas deixadas pela retratação da desinformação
Retratação repetida
Fortalecer retração pela repetição (sem reforçar o mito)
Efeito de tiro pela culatra por familiaridade ('Familiarity backfire effect')
Repetição do mito aumenta sua familiaridade, reforçando-o
Ênfase em fatos
Evitar repetição do mito, reforçar fatos corretos no lugar
Aviso pré-exposição
Alertar antes que o que virá é uma desinformação
Efeito de tiro pela culatra por excesso ('Overkill backfire effect')
Mitos simples são cognitivamente mais atrativos do que refutações complexas
Refutação simples e curta
Usar poucos argumentos na refutação do mito - menos é mais
Incentivar ceticismo saudável
Ceticismo a respeito da fonte de informação reduz a influência da desinformação
Efeito de tiro pela culatra por visão de mundo ('Worldview backfire effect')
Indícios que ameaçam uma visão de mundo podem reforçar crenças inicialmente mantidas
Afirme a visão de mundo
Enquadre os indícios de um modo a afirmar a visão de mundo endossando os valores da audiência
Afirme a identidade
Autoafirmação de valores pessoais aumenta a receptividade da audiência


Direções futuras
Pontos cujos papéis no efeito da desinformação ainda necessitam de mais esclarecimentos:
a) emoção;
b) diferenças individuais: raças, cultura...
c) rede social

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