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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Como é que é? - Mulheres preferem homens barbados?

Em mais um daqueles perfis de "Fatos" que publicam textos sem referências, uma postagem dizia que homens com barba são vistos como mais atraentes e másculos pelas mulheres. Mas os dados indicam que a situação não é beeeeem essa.

De fato, há estudos cujos resultados mostram que as mulheres estudadas apresentam preferência por rostos masculinos com algum grau de desenvolvimento de pelos faciais. Neave & Shields 2008, apresentaram para um grupo de 60 voluntárias, 3 fotografias de rostos masculinos (de aparência entre 18 e 25 anos e consideramos mais atraentes de uma pré-seleção de 10) manipuladas digitalmente com 5 níveis de barba: rosto raspado ('clean-shaven'), por fazer leve ('light stubble'), por fazer pesada ('dark stubble'), barba leve ('light beard'), barba cerrada ('full beard') - totalizando 15 fotografias. As avaliadoras - estudantes de graduação da Northumbria University, RU - com idades entre 18 e 44 anos (média de 21,7±5,2 anos) avaliaram as imagens em escala de 1 (menos)  a 9 (mais) nos seguintes atributos: masculinidade, atratividade, dominância, agressão, maturidade social, relacionamentos de curto prazo e relacionamentos de longo prazo, além de atribuir a idade aparente.

A idade atribuída, e os índices de masculinidade, dominância, maturidade social e agressão aumentaram de acordo com o desenvolvimento da barba na imagem. A atratividade, e os relacionamentos de curto e longo prazo apresentaram índices maiores para o nível de barba por fazer leve.

Dixson & Brooks 2013, usando metodologia similar, com fotografias reais de 10 homens de ascendência europeia (idade média de 23,5±3,57 anos) em quatro condições: rosto raspado, por fazer leve (de 5 dias), por fazer pesada (10 dias) e barba cerrada (6 semanas). Em formulário online, 177 homens (32,18±10,30 anos) e 351 mulheres (27,94±8,23 anos), todos heterossexuais, a maioria europeus (79,9% europeus; 8,4% asiáticos; 4,2 nativos americanos; 1,8% africanos, do Oriente Médio ou australasianos; 5,7% não responderam) avaliaram as fotografias. As notas foram de 0 (menos) a 5 (mais). Os parâmetros analisados foram: atratividade, cuidado com os filhos ('parenting'), saúde e masculinidade.

As mulheres consideraram mais atraentes as imagens com barba por fazer pesada - sem diferenças de avaliação entre mulheres em diferentes estágios do ciclo de ovolução - (os homens consideraram tanto a barba por fazer pesada quando a barba cerrada como mais atraentes). As mulheres (e os homens) julgaram a barba cerrada como indicando uma maior saúde e maior cuidado com os filhos. A masculinidade também foi avaliada como maior quanto maior a barba - com uma tendência mais acentuada entre mulheres na fase fértil.

Tanto Neave & Shields 2008, quanto Dixson & Brooks 2013, parecem concordar em uma maior atratividade dos rostos com uma barba intermediária (ainda que discordem quanto ao nível - se de poucos dias ou de mais dias por fazer).

Dixson et al 2012 entrevistaram 426 mulheres (idade média de 29,93±14,29 anos) de Wellington, Nova Zelândia, usando método similar ao que seria usado em Dixson & Brooks 2013. As mulheres (grávidas, pré e pós-menopausa) indicaram uma maior atratividade das imagens com rosto raspado (com barba por fazer leve e pesada com valores próximos) em relação ao rosto com barba cerrada. As mulheres na fase de alta fertilidade deram uma pontuação maior para imagem com barba por fazer pesada em comparação com mulheres pós-menopausa e que usam anticoncepcionais (mas as diferenças entre rosto raspado, por fazer leve e pesado não são significativamente diferentes entre si). O efeito mais pronunciado foi em relação ao status pilofacial dos consortes: mulheres com maridos com rosto raspado acham imagens de rosto deo homem com a cara escanhoada mais bonitas, esposas de homens com barba cerrada não veem tanta diferença assim, mas, assim como esposas de homens com barba por fazer pesada, acham homens com barab por fazer cerrada mais atraentes.

Zinnia et al. 2014 (que também contou com a participação de Dixson), por meio de formulário online, apresentaram para 1.453 mulheres hetero ou bissexuais (idade média de 26,17±7,28 anos) e 213 homens heterossexuais (28,35±10,11 anos) (a maioria de origem europeia: 70,47% dos respondentes eram europeus, 9,6% asiáticos, 6,12% latino americanos, 2,46% da Oceania, 2,28% africanos e do Oriente Médio, 1,86% nativos americanos e 7,2% não responderam) um conjunto de 36 imagens. Das 36, 24 imagens pertenciam a um tipo de tratamento: a) todas as 24 imagens de homens com cara raspada; b) todas com homens com barba cerrada; c) 6 imagens de cada nível de barba (raspado, por fazer leve, por fazer pesado, barba cerrada). Cerca de 1/3 das mulheres e 1/3 dos homens participantes foram incluídos em cada tipo de tratamento.

No grupo exposto a mais rostos com a cara rapada e no com frequência igual de cada tipo de barba, rostos com maior hirsutismo foram mais bem avaliados quanto à atratividade (por fazer leve, pesada e barba cerrada mais ou menos iguais na atraência); no grupo em que a maioria das imagens são de homens com barba cheia, rostos com níveis intermediários foram considerados mais atraentes.

Então a história parece um pouco mais - bem mais na verdade - complicada do que apenas: "rostos com barbas parecem mais atraentes (porque seria vistos como saudáveis)". Não chega a surpreender se notarmos o quanto a moda de pelos faciais masculinos variam rapidamente no tempo e no espaço (entre os indígenas sulamericanos pelos faciais tendem a ser muito raros). Fatores culturais parecem ter também um peso importante no julgamento das mulheres em relação às barbas masculinas.

O fato de homens desenvolverem barba e bigode pode também não ter a ver com seleção intersexual (mulheres preferindo ter filhos com homens de cara peluda). Uma explicação concorrente é que seria resultado de seleção *intra*ssexual: homens barbudos teriam vantagem sobre homens de cara lisa por sinalizar um maior status social e agressividade - funcionaria mais como sinal para afastar rivais do que para atrair as fêmeas (Dixson e Vasey 2012).

Updeite (18/jan/2017): Oldmeadow & Dixson 2016, analisando as respostas de 223 americanos e 309 indianos homens fornecidas por formulário online, identificaram um maior uso de barba entre homens com visão sexista ambivalente ou hostil em relação a homens com visão sexista benevolente ou não-sexista. Para os autores, a tendência de uso de barba deve estar ligada a um aumento de dimorfismo sexual e de percepção de masculinidade e dominância.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Pequeno diretório de cafés científicos

Podemos definir cafés científicos de modo bem abrangente como todas as atividades de divulgação científica presencial em que o cientista é colocado em um ambiente informal - fora da academia - em contato direto com o público não especializado. Pode ou não ser em um café (pode ser em um bar, em um teatro, na rua...), pode ou não haver mediadores, pode ou não haver uso de equipamentos audiovisuais. (Excluo formatos mais específicos de comunicação como "Dance sua Tese" - também por ser um tipo de concurso.)

Aparentemente esse tipo de comunicação tem ampliado no Brasil. Abaixo faço uma lista (nem de longe exaustiva) de iniciativas mais ou menos periódicas do tipo no país.

.Pint of Science Brasil. A primeira edição no Brasil foi realizada em 2016 em 7 cidades, em 2017 já são mais de 20 municípios. Segue o modelo britânico, com cientistas fazendo apresentações orais de 15 minutos em bares.
.Chopp comCiência. Realizado desde 2016 em Campinas, SP. Organizado pelo pessoal da NuminaLabs e vários parceiros. Frequência quinzenal.
.Dose de Ciência. Realizado desde 2016 no Rio de Janeiro, RJ.
.The Bar - Science on Tap. Realizado desde 2016 em São Paulo, SP. Organizado pelo Instituto Weizmann de Ciência. Segue o modelo israelense do evento.
.Ciência em Dose. Festival Santista de Divulgação Científica. A primeira edição foi em 2016. Como o nome indica, é realizado em Santos, SP. Iniciativa da Unifesp.
.USP Talks. Palestras realizadas desde 2016 em São Paulo, SP. Realização da USP em parceria com a Livraria Cultura. Difere da maioria dos demais cafés por ser em um teatro/auditório e na hora do almoço. Mensal.
.Ciclo de Palestras do Instituto de Física na Livraria Cultura. Realizado desde 2009 em Porto Alegre, RS. Mensal. Ingresso: 1kg de alimento não perecível. (Dica de cicero nos comentários. 16/jan/2017.)

Se souberem de outros, indique nos comentários.

Se beber, não dirija.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um canto de Natal: o menor receptor de rádio do mundo?

O Havard Gazette chamou de "menor rádio do mundo". O que provavelmente é um exagero, já que envolve todos os aparatos para lasers. A NPR, que se trata do "menor receptor de rádio" do mundo. Pode ser que não seja bem assim, já que o receptor é formado por um cristal de diamante de tamanho não especificado. A Science fala que o receptor tem o tamanho de apenas dois átomos, o que não é correto. Embora cada centro ativo do receptor - área que efetivamente atua na recepção do sinal de rádio - seja composto por um átomo de nitrogênio e um espaço vazio (centro NV) na rede cristalina do diamante - o experimento envolveu a estimulação de vários centros ao mesmo tempo.

O raio de laser verde, que dá energia aos centros fazendo com que seus elétrons fiquem em um estado excitado (de energia mais alta), tem um diâmetro de 200 μm. Como a densidade de centros era de 1,2 ppm, em 1 cm3 do diamante, havia 1,8.10^17 centros - mais de 565.000 por cm linear, 56,5 centros por μm linear: mais de 3.500.000 centros estimulados por camada atingida pelo laser (não sei qual a espessura do diamante atravessada pelo laser).

Mas os princípios envolvidos são interessantes: o laser verde estimula os elétrons do centro que respondem ao sinal de rádio emitido e liberam a energia na forma de luz vermelha, que é captada por um diodo que converte o sinal luminoso em variação de corrente elétrica - e os fones ou alto-falantes convertem o sinal elétrico em variação de pressão do ar: o som. A engenharia envolvida é espantosa. E o potencial de aplicação é promissor: receptores comerciais têm uma temperatura máxima de operação por volta de 85°C; o receptor de diamante com centros NV consegue operar a temperaturas de 350°C (e imensa pressão). A possibilidade de se permitir a comunicação com sondas em ambientes inóspitos é aventada pelos autores em entrevistas.

Bem, abaixo pode-se ouvir o sinal captado pelo receptor.


Shao, L. et al. 2006. Diamond Radio Receiver: Nitrogen-Vacancy Centers as Fluorescent Transducers of Microwave Signals. Phys. Rev. Applied 6, 064008.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Cesarianas estão aumentando a cabeça dos bebês? Não tão simples assim.

O Pirula já comentou (e claro que recomendo que assistam ao vídeo antes) a respeito do estudo e a repercussão na imprensa e nas mídias sociais do estudo de Mitteroecker et al. 2016 com um modelo matemático do efeito do aumento das operações cesarianas sofre a frequência da desproporção cefalopélvico (CPD - basicamente quando a cabeça do feto é maior do que a abertura do canal de parto da mãe).

Embora a lógica por trás seja simples: o tamanho que o canal do parto tem é limitado (os autores do estudo contestam que a limitação seja por razões biomecânicas relacionadas à locomoção, mas não apresentam uma hipótese alternativa); ao mesmo tempo, quanto maior o tamanho do bebê (e, assim, maior o tamanho de sua cabeça) maior seria a vantagem reprodutiva: bebês maiores, de modo geral, seriam mais capazes de sobreviver aos primeiros anos e, assim, com a introdução da cesariana, uma barreira seletiva seria removida ou amenizada, permitindo a propagação de genes relacionados com maiores tamanhos de bebês -, na realidade, há uma série de outros fatores que podem complicar as coisas e limitar a aplicabilidade do modelo apresentado no trabalho. P.e. condições como obesidade materna e diabetes estão correlacionadas com um maior tamanho fetal - e isso não é discutido pelos autores.

Os pesquisadores concluem que, pelo modelo, a introdução da cesariana seria o suficiente para explicar a ocorrência da CPD ("[W]e show that weak directional selection for a large neonate, a narrow pelvic canal, or both is sufficient to account for the considerable incidence of fetopelvic disproportion") já que, em apenas duas gerações (cerca de 50 anos), o relaxamento da seleção contra fetos maiores aumentaria a incidência da CPD em 10 a 20%. Mas não se dão ao trabalho de analisar se tal aumento realmente é observado na população.

Não encontrei nenhum banco de dados com informações coligidas e curadas sobre as taxas de CPD nos países em diferentes anos. Busquei então no Google Scholar trabalhos com a expressão "cephalopelvic disproportion". O levantamento está disponível aqui.

Na Fig. 1 estão dispostos os dados sobre a frequência de CPD em diferentes países ao longo do tempo. Parece haver alguma base para a suposição de que há uma tendência de aumento da desproporção.

Figura 1. Tendência temporal de CPD (desproporção cefalopélvica) em diferentes países.

Mas será que isso mostra que a conclusão Mitteroecker e cols. de que a fraca seleção a favor de neonatos grandes é o suficiente para explicar a taxa de CPD?

Na Fig. 2 é mostrada a relação entre a variação temporal da taxa de cesarianas nos países e a variação no mesmo período da CPD.

Figura 2. Relação entre variação da taxa de cesarianas (CS) e de CPD.

A variação na taxa de cesariana (portanto aumento ou relaxamento do regime seletivo contra fetos grandes) é capaz de explicar pouco mais de 30% da variância da CPD nos países ao longo do tempo. Então, embora o aumento da proporção de partos abdominais tenha alguma correlação com o aumento da frequência de fetos desproporcionalmente maiores, essa correlação não é particularmente alta: outros fatores - tais como os mencionados acima: aumento da obesidade e da diabetes - precisam ser considerados (e, no conjunto, com peso maior do que apenas a seleção para fetos maiores). (Claro que se deve levar em conta que essa correlação baseia-se em dados de apenas 10 países, havendo grande diversidade de valores das taxas de cesariana e das condições de sua prescrição por fatores como se se trata de hospitais públicos, privados ou samaritanos, de acordo com a região do país, idade, peso e estatura da parturiente, etc.)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Desmatamento na Amazônia aumentou 29% em 2016. O que isso quer dizer?

Agora, provavelmente, que estamos sob um novo regime de tendência de aumento do desmatamento da floresta Amazônica - a estimativa do Prodes para 2016 é de uma perda de 7.089 km2. Em 2013, o aumento havia sido de 28%, mas ainda estava dentro da flutuação normal da taxa de derrubada do bioma (Fig. 1). Mas agora a área desmatada está acima dessa flutuação, para alfa=0,0125 - tomei o valor de 1/4 de 5% por haver feito quatro comparações (o dado de 2016 contra os dados de 2003 a 2012 e contra os dados de 2003 a 2014 e o mesmo com o dado de 2015) (Fig. 2; teste t Student: p[2003-2012]=0,002035, p[2003-2014]=0,005131).

Figura 1. Curva de regressão exponencial para variação do desmatamento amazônico de 2003 a 2013.

Figura 2. Curvas de ajuste de regressão exponencial para variação do desmatamento amazônico de 2003 a 2016. Em laranja, curva de ajuste com base nos dados de 2003 a 2012; em roxo, base nos dados de 2003 a 2014. Fonte: Prodes.

Para o valor de 2015 o desvio ainda não é significativo a alfa=0,0125 (teste-t Student: p[2003-12]=-0,024308, p[2003-14]=0,029571).

Embora somente em 2016 o desvio tenha sido significativo, o ponto de inflexão parece ser anterior. Fazendo um ajuste polinomial dos dados de 2003 a 2016, obtemos uma equação do segundo grau de: 238,620192307692. x2 - 960.560,996840659 + 966.685.115,133791 (r2=0,9485657024593782); cujo vértice é 23/9/2012 com 5.158,45 km2/ano (Fig. 3).

Figura 3. Ajuste polinomial de segundo grau dos dados de desmatamento da Amazônia Legal. Fonte: Prodes.

É mais do que tentador associar esse ponto à entrada em vigor do Novo Código Florestal em 25/mai/2012 - não apenas pela coincidência temporal, mas também (e sobretudo) pelo mecanismo lógico da menor proteção ambiental introduzida com as modificações em relação ao Código Florestal até então vigente.

Upideite(02/dez/2016): Alternativamente ao ajuste polinomial, podemos usar uma regressão segmentada e encontrar o ponto de quebra. Transformando os valores da área desmatada em ln, obtemos o gráfico da figura 4.

Figura 4. Regressão segmentada - desmatamento em logaritmo neperiano.

O intercepto corresponde a 17/mar/2012 e a taxa de desmatamento: 4.705 km2/ano. Também em algum ponto de 2012 durante ou depois das discussões que levaram à aprovação das alterações dos mecanismos de proteção da cobertura vegetal.

Upideite(02/dez/2016): Veja também:
Maurício Tuffani/Direto da Ciência (02/dez/2016): "Brasil já perdeu 19,5% da Floresta Amazônica, área igual a meio Amazonas"

domingo, 20 de novembro de 2016

Superlua contra o baixo astral: quando algo passa a ser super?

O multiempreendedor da divulgação científica brasileira (Scienceblogs Brasil, Sciencevlogs Brasil, BláBláLogia, Chopp comCiência...), Rafael Soares, perguntou:

O interesse popular pela 'superlua' ('supermoon') é relativamente novo (no Google Trends, surge a partir de 2011 - fig 1; no Google Ngram Viewer, não há registro de 1800 a 2000) para algo antigo. Muito antigo. É apenas a denominação da Lua cheia (ou nova) durante o perigeu - algo que ocorre praticamente uma vez por quadrimestre - e, mais especificamente, em sua maior aproximação no ano (em 2011 foi em 19/mar; em 2012, 06/mai; 2013, 23/jun; 2014, 10/ago; 2015, 28/set e 2016, 14/nov). (Nem sempre a Lua cheia - ou nova - irá ocorrer quando o satélite estiver em sua máxima aproximação da Terra, mas como colocam uma tolerância de 10% para mais ou para menos a frequência aumenta bastante.) Não é um termo científico (a expressão astronômica para denominar a Lua cheia ou nova durante o perigeu seria... bem Lua cheia ou nova de perigeu), aparentemente foi tomado de empréstimo da astromancia pela imprensa popular. (O interessante é que apesar de ser um fenômeno corriqueiro, esse interesse tem permitido o engajamento do público em ações de divulgação e educação obre a astronomia, p.e. alunos da ocupação da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas tiveram uma aula durante a observação do fenômeno em novembro agora com o pessoal do Clube de Astronomia da Universidade Federal do Amazonas.)

Figura 1. Registros de busca por 'supermoon' no Google. Fonte: Google Trends.


Figura 2. Variação do tamanho aparente da Lua.
O prof. Dulcidio Braz, em seu Física na Veia, explicou o aumento do tamanho aparente (Fig. 2) e do brilho com a aproximação da Lua (com uma rápida recapitulação de por que a Lua se aproxima da Terra a cada volta).

Isso a torna 'super'? Claro que depende amplamente da subjetividade de cada um para considerar algo particularmente especial. Eu proponho que se denomine a um evento de fenômeno natural recorrente como particularmente destacado ('super') se a magnitude de algum parâmetro seu (no caso da Lua, proximidade, tamanho e brilho) for de ocorrência particularmente rara (acima ou abaixo de 3 desvios padrões em relação aos valores médios e com frequência esparsa - concedo aqui, que ocorra no máximo uma vez ao ano - embora minha inclinação seja para, no máximo, uma vez no tempo médio de vida de uma pessoa).

A 'superlua' atende ao critério de ocorrer no máximo uma vez por ano (ocorre aproximadamente uma vez a cada 14 meses). Mas o quanto difere das demais 12 ou 13 luas em perigeu no mesmo ano? Pegando os valores calculados para os perigeus de 2001 a 2100, a média das menores distâncias em um ano é de 356.848,23 km (com DP de 248,82 km); 1,58% menor do que a média das distâncias de perigeu no período é de 362.564,4(±4.517,45) km: um valor apenas 2 DP abaixo (Fig 3).

Figura 3. Distribuição das distâncias Terra-Lua em perigeu para o período de 2001 a 2100. (Em amarelo, a faixa da distância correspondente à 'superlua' de novembro de 2016.) Fonte: Astropixels

Como a distribuição é bimodal com concentração em torno dos valores extremos, na verdade é relativamente mais rara a ocorrência de perigeu com distâncias próximas à média. Se o critério fosse apenas raridade, uma 'superlua' seria uma 'superlua média' - apenas 0,06% dos perigeus entre 2001 e 2100 ocorrem entre 362.500 e 362.600 km de distância da Terra (uma vez a cada 12 a 13 anos em média). Em comparação 4,52% dos perigeus ocorrem abaixo da média das 'superluas' (uma vez a cada ano e meio). (O principal fator da variação das distâncias de apogeu e perigeu é a variação da excentricidade da órbita lunar. E o principal fator da excentricidade lunar é a maré solar: seu efeito é maior quando o sistema Terra-Lua está alinhado com Sol. Isso ocorre exatamente nas fases de Lua cheia - quando a Lua está no lado oposto ao Sol - ou nova - quando está do mesmo lado.)

E uma superlua de distância tão baixa como a deste ano? A imprensa destacou que desde 1948 a Lua não se aproximava tanto assim da Terra. No período de 2001 a 2100, 8 episódios de superlua tão extremos ou mais quanto o deste ano devem ocorrer (incluindo a de 2016), uma média de um a cada 12,5 anos (Fig. 4a,b). Mas também a menos de 2DP da média.

a)
b)
Figura 4. a) Variação do apogeu e perigeu lunar entre 2001 e 2100. b) Variação inferior do perigeu lunar. Linha horizontal pontilhada, distância do perigeu de nov/2016. Fonte: Astropixels

XKCD

Isso torna ou não a Lua super? Como argumentei lá em cima, fica a gosto do freguês.

Mas, em um sentido, a Lua é 'super' independente de se cheia, nova ou em perigeu. Afinal ela é mais possante do que uma locomotiva (nosso satélite tem uma energia cinética de 3,8.10^28 J; a maior velocidade obtida por um carro sobre trilhos - propulsionado por foguete - foi de 2.736,8 m/s, se tal velocidade pudesse ser desempenhada por uma composição como o BHP Billiton de cerca de 100.000 t, isso daria 3,7.10^14 J), capaz de saltar mais alto do que um arranha-céu (não apenas porque arranha-céus não pulam; a inclinação da órbita lunar em relação ao equador terrestre varia de 18,28° a 28,58°, com um raio médio da órbita de 384.400 km, isso corresponde a uma variação de altura de cerca de 70 mil km, mais de 84.000 vezes a altura do Burj Khalifa em Dubai, EAU) e de voar mais rápido do que uma bala (sua velocidade orbital média de 1.022 m/s é maior do que a de muitas balas - ainda que não de todas).

Veja também:
De Athenaa Trinity Cientistas Feministas (17/nov/2016): Super Lua, sim! Mas pera lá.

domingo, 13 de novembro de 2016

Blogues acadêmicos

A maior parte dos blogues de divulgação científica historicamente tem sido criada e mantida por iniciativas independentes. Alguns têm se reunido em condomínios como os ScienceBlogs* Brasil, havendo projetos ancorados em veículos tradicionais de divulgação como a National Geographic* e a Nature (que deu origem ao Scilogs*).

Uma outra fase parece se delinear com a entrada dos blogues acadêmicos - blogues de ciências mantidos por instituições acadêmicas e universidades. Ela não substitui, claro, os blogues independentes e os associados em condomínios de blogues (estes independentes ou coligados com empresas de comunicação científica). Interessante essa institucionalização tardia justo num momento em que os blogues de ciências parecem estar em crise - de um lado parece refletir o conservadorismo acadêmico, frequentemente demorando para adotar novas mídias; mas, de outro, pode ser um incentivo para a superação dessa crise. A se ver.

A lista abaixo não é completa - bem longe disso -, mas será atualizada com novas entradas futuramente. (A data de origem, quando não explicitada na página dos projetos, foi obtida pela entrada mais antiga no Internet Archive - o que pode gerar alguma incerteza. As informações sobre as estatísticas de visitação são as fornecidas nas páginas dos serviços - exceto no caso do Blogs da Unicamp.)

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Harvard Blogs
Os Harvard Blogs são compostos por cerca de 900 blogues (com 200 ativos) mantidos por alunos, ex-alunos, professores e funcionários. São mais de 700 mil visitantes por mês. O serviço está ativo desde 2003.

Newcastle University Blogs
Com 237 blogues entre ativos e inativos (chegou a ter 1.026 blogues!), certamente o Newcastle University Blogs figura entre os maiores condomínios acadêmicos. Como é aberto tanto para professores e pesquisadores quanto para alunos da universidade, provavelmente a maior parte dos blogues sejam de alunos (ou ex-alunos). Está no ar desde 2007 - embora o blogue mais antigo no diretório atualmente seja de 2012.


BLOGIPALVELUT "Helsingin yliopiston blogit ja blogipalvelut" (Serviço de blogues "Universidade de Helsinque, blogues e serviço de blogues")
Blogipalvelut da Universidade de Helsinque consiste de 289 blogues (entre ativos e inativos) mantidos pelo staff da universidade e alunos desde 2007.

Stellenbosch University’s Blog Service
Mantidos por professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação, os 11 blogues do Stellenbosch University’s Blog Service são voltados para a comunicação sobre temas acadêmicos e institucionais desde 2008.

LSE Blogs "Expert analysis & debate from LSE"
Os LSE Blogs, criados em 2010, são blogues mantidos por pesquisadores da London School of Economics and Political Science (que conta também com contribuição de alunos e convidados especiais). Têm um alcance de 70.000 visitantes semanais distribuídos em 60 blogues ativos (são mais 10 inativos mantidos em arquivo).

University of Sidney BLOGS
Mantidos, desde 2010, exclusivamente por pesquisadores da instituição, os BLOGS da Sydney Uni são compostos por 23 blogues ativos (26 arquivados).

University of Nottingham Blogs
Os University of Nottingham Blogs são compostos por 92 blogues ativos e 13 arquivados. A iniciativa começou em 2011.

Chapman University Blogs
24 blogues ativos compõe os Chapman University Blogs. Os blogues são mantidos por alunos e professores da universidade desde 2012.

Wits Blogs "A collection of Blogs written by Wits Staff"
Os Wits Blogs são compostos por apenas 2 blogues ativos dos servidores da University of the Witwatersrand - um do vice-chanceler da universidade e outro que funciona como página institucional da faculdade de direito. O serviço parece ter se iniciado em 2013.


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Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas
Os Blogs da Unicamp foram criados em 2015 e são mantidos por professores, pesquisadores e pós-graduandos da universidade. São 23 blogues ativos (e um número maior de blogues em gestação) que contam juntos com cerca de 5.000 visitantes por mês.

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*Upideite(13/nov/2016): links adidos a esta data.

domingo, 6 de novembro de 2016

A publicação científica deve ter como meta ser amplamente lida?

O texto do teólogo e filósofo americano Daniel Lattier no Intellectual Takeout "Why professors are writting cr*p that nobody reads" (asterisco por minha parte) parece ter tido uma boa acolhida entre os cientófilos nas mídias sociais sendo bastante compartilhado. O filósofo Pablo Ortellado em seu perfil no facebook, diz: "Precisamos publicar menos e não mais, como nos mandam as agências e os programas de pós-graduação. E, sobretudo, precisamos publicar coisas úteis e relevantes".

Um dos primeiros a levantar um "peralá, é isso mesmo?" que eu vi, foi o biólogo Carlos Hotta, do Apatoss... "Brontossauros em Meu Jardim", em seu perfil no facebook. "Por que vocês escrevem tantos posts no Facebook se ninguém lê?", se pergunta.

Eu acho que Lattier tem um ponto, mas que Hotta também tem. De um lado, temos que notar o "cr*p" na crítica do filósofo americano. Estudos com metodologias ruins, que em nada contribuem com as ciências estão sendo publicados em grande quantidade - a maior parte dos diagnósticos apontam para a pressão do "publish or perish"como a causa principal desse estado de coisas. Mas, nesse ponto, *ainda bem* que tais estudos são pouco lidos e menos ainda citados.

Só que, pelo que podemos saber, a taxa de leitura e, pior, o índice de citação *não* é um indicador de qualidade. (Um recente trabalho conclui que grande parte do impacto de uma publicação depende do puro acaso, ainda que não apenas dele.)

Então, ok, trabalhos que são "porcarias" devam ser desincentivados. Mas será que, se fizemos os melhores esforços para aplicar metodologia correta e realizar um trabalho bem feito, devemos nos preocupar se o artigo resultante será ou não lido por muitos outros pesquisadores para decidir pela publicação?

Aqui o ponto do Hotta. Sim, muitas publicações são pagas - ou pelos autores ou pelos assinantes -, então há, de fato, algo a ser pensado a respeito de se vale a pena ou não publicar pensando no alcance potencial. Mas há vários lugares em que se pode publicar a baixo custo ou a nenhum - em repositórios pessoais e arquivos de pré-publicações, p.e.

Porém publicar pensando apenas no "impacto" potencial que o artigo poderá ter é problemático. Um aspecto a consideramos é o chamado efeito "Bela Adormecida", em que certos artigos são ignorados por décadas até que subitamente são redescobertos e passam a ser amplamente citados. Outro é que mesmo se um artigo é pouco lido, ele pode ter um impacto maior - por exemplo, se ele tiver sido usado em uma revisão ou em uma meta-análise. E, em um campo especializado, um universo de 10 leitores pode ser bem representativo de uma fração significativa ou até a totalidade do público a ser atingido.

Na atualização do Hotta, o químico Luís Brudna, do Tabela Periódica, lembra ainda que I.A.s como o Watson poderão fazer a varredura automática dos artigos buscando alguma referência obscura pouco conhecida que poderá ser de importância vital no diagnóstico de uma doença rara igualmente obscura e pouco conhecida - ou uma versão mais rara de uma doença mais comum.

Nesse sentido, a baixa taxa de leitura é lamentável, mas não deve ser uma barreira para a publicação - do contrário seria o incentivo para tornar um artigo artificialmente "sexy", forçar a barra para torná-lo mais atrativo para uma audiência mais ampla (o equivalente ao caça-clique no mundo científico, ou o próprio caça-clique, já que a maioria dos trabalhos estão online): numa palavra "sensacionalismo". Seria, antes, um chamado para um esforço de garimpagem de artigos relevantes que estão abandonados a traças eletrônicas.

E ainda há esforços para evitar o "efeito gaveta" ou "efeito de arquivo" das publicações e o excesso de resultados positivos, por se deixar de publicar os negativos.

Então, meu grau de concordância com o artigo de Lattier depende do ponto que se enfatiza.
a) "Não publicar artigos irrelevantes": ok;
b) "Resistir ao publish or perish e não fatiar os resultados ('salami science') em vários artigos menores": ok;
c) "Pensar em artigos que possam atrair mais leitores": hmmm, acho que não é tão vital assim, pode ser um objetivo secundário;
d) "A baixa taxa de leitura mostra que a maioria da ciência produzida é irrelevante": de modo algum, há vários motivos por que artigos bons permanecem pouco conhecidos (o periódico pode ser pouco conhecido, a língua da publicação ser usada por uma fração restrita de pesquisadores, a comunidade de especialistas ser reduzida, preconceito, a comunidade ter falhado em compreender a importância do artigo, por simples casualidade o artigo não chamou a atenção...).

domingo, 30 de outubro de 2016

A reestruturação do MCTIC e alterações dos estatutos do CNPq

Raramente comento política científica diretamente aqui no GR. Não me considero capacitado o suficiente para análises mais aprofundadas.

Mas abro uma exceção para a reestruturação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Em parte porque posso me referir à análise de pessoas mais competentes: essa reestruturação levou à manifestação de contrariedade por entidades científicas: a SBPC e a ABC publicaram uma carta conjunta, apoiada pela SBF e por coordenadores de área da Capes.

As Fig. 1a e 1b sumarizam a organização do antigo MCTI, dada pelo Decreto 5.886/2006, e a nova organização do MCTIC, dada pelo Decreto 8.877/2016.

a)
b)
Figura 1. a) Antiga estrutura organizacional do MCTI (DEC 5.886/2006); b) novo organograma do MCTIC (DEC 8.877/2016).

O nome final do órgão, "Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas", é diferente do plano inicial, "Coordenação Geral de Serviços Postais e de Governança e Acompanhamento de Empresas Estatais e Entidades Vinculadas", mas o efeito é o mesmo. Entidades como o CNPq, que reportavam diretamente ao ministro, agora reportarão a um diretor de gestão, que reporta para o secretário-executivo, que reporta ao ministro.

"Art. 9o À Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas compete:
I - subsidiar a formulação de políticas, diretrizes, objetivos e metas relativos ao serviço postal e temas desenvolvidos pelas empresas estatais e pelas entidades vinculadas ao Ministério;
II - analisar pleitos tarifários do serviço postal;
III - concorrer para a articulação e a execução das políticas e dos programas das empresas estatais e das entidades vinculadas ao Ministério;
IV - realizar o acompanhamento da governança e do desempenho das empresas estatais e suas subsidiárias, bem como das entidades vinculadas ao Ministério;
V - contribuir para o aumento da transparência e para o aperfeiçoamento da gestão das empresas estatais, das suas subsidiárias e das entidades vinculadas ao Ministério;
VI - acompanhar a atuação dos representantes do Ministério nos conselhos de administração e fiscal das empresas estatais, nas suas subsidiárias e nas entidades vinculadas ao Ministério; e
VII - realizar a supervisão e o acompanhamento da governança e do desenvolvimento das empresas estatais e das suas subsidiárias, bem como das entidades vinculadas ao Ministério."

Se o objetivo foi racionalizar o processo, não parece ser uma boa escolha misturar órgãos tão díspares como o CNPq e a Anatel, Telebrás e Correios no mesmo cesto (o que reflete a mistura inusitada do ministério de CTI e Comunicações)... CNPq é uma fundação; Anatel, é uma agência reguladora (uma autarquia de regime especial); Correios, uma estatal; Telebrás, empresa mista. A única coisa em comum basicamente é o fato de serem entidades jurídicas distintas. A natureza, os objetivos, os modos de funcionamento... são muito diversos. Soa estranho - e errado - um mesmo órgão de categoria inferior definir preço de selos e políticas de fomento à pesquisa acadêmica. Já é bizarro em nível ministerial, mas se isso fosse tema para secretarias distintas do mesmo ministério... E, no caso, não apenas isso se dá numa mesma secretaria como numa mesma diretoria... (Talvez tenha ficado o nome de "Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas" porque ficaram envergonhados de denominar por "Departamento de Miscelânea".)

Outra alteração foi a antiga "Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social", que também reportava diretamente ao ministro, agora é o "Departamento de Políticas e Programas para Inclusão Social", subordinado à "Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento".

Na reportagem de Herton Escobar para o Estadão, de 27/out/2016, "Entidades científicas criticam reestruturação do MCTIC", o ministério diz que com a reformulação as entidades passarão a ter acesso a ferramentas de gestão (mas não diz quais) e que instituições sem interlocutores no ministério para questões de gerenciamento passaram a ter (também sem dizer quais instituições e quais questões). Mas, segundo a presidente da SBPC, Helena Nadar, o ministro Kassab teria se comprometido a reverter essa reestruturação ano que vem. Mas, se pretende rever, por que deixou que o decreto fosse publicado no dia 19/out se a reunião foi no dia 10/out? Se é possível reverter, qual é realmente a vantagem gerencial entrevista pelo MCTIC nessa nova configuração afastando a interlocução direta entre as entidades científicas do ministério e o próprio ministro?

O novo estatuto do CNPq dado pelo decreto 8.866/2016 é bastante parecido com o estatuto dado pelo decreto 7.899/2013. Mas parece haver algumas diferenças importantes.

Na parte de atribuição de funções dos órgãos específicos singulares da fundação:
2016 "compete coordenar as atividades de desenvolvimento científico e tecnológico relacionadas a [...] e fomentar a capacitação de recursos humanos e a implementação permanente de pesquisa científica e tecnológica."

2013 "compete coordenar as atividades de desenvolvimento científico e tecnológico relacionadas a [...] e fomentar a capacitação de recursos humanos e a implementação permanente de pesquisa científica e tecnológica, mediante ações, mecanismos e instrumentos de fomento."

No estatuto anterior havia explicitamente a menção da mecanismos e instrumentos de fomento; as diretorias das áreas tinham explicitamente a função de distribuir verbas para pequisa e formação de pessoal. Com a nova redação dada pelo novo estatuto, apenas o termo "fomentar" engloba tais poderes? Eu não sei (e por isso não sou uma boa pessoa para comentar a respeito de políticas científicas).

Praticamente desapareceu o capítulo referente às disposições financeiras. Somente o dispositivo que permite ao CNPq tomar empréstimos foi mantido, mas mudado para o capítulo de patrimônio e recursos financeiros. Não há mais obrigatoriedade de a fundação adotar o calendário civil para o exercício financeiro, nem uma obrigação explícita estatutária de apresentar o planejamento orçamentário para o MCTIC. (Não está claro para mim se tais obrigações foram extintas de todo, ou se são cobertas por outros dispositivos - mesmo que fora dos estatutos. Nem quais as consequências dessas alterações.)

Upideite(31/out/2016): Veja também:
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (31/out/2016). "Rebaixamento de órgãos da Ciência é resultado da fusão ministerial em maio"
FCHSSA. Blog do FCHSSA (31/out/2016). "Reforma do MCTIC: carta do Fórum de CHSSA ao Ministro G. Kassab"
José Antônio Aleixo da Silva & Luciana Santos. JC Notícias (01/nov/2016); "2. Um golpe na ciência e tecnologia do Nordeste"
Carta da SBQ (28/out/2016). via Ildeu Moreira fb. (atualizado em 04/nov/2016)

domingo, 23 de outubro de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 28

Minhas anotações de Bruin & Bostrom 2013 sobre como fazer levantamento a respeito do que deve ser referido na comunicação pública de ciências.

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Bruin, W.B. & Bostrom, A. 2013. Assessing what to address in science communication. PNAS 111 (S-3): 14062-14068. DOI: 10.1073/pnas.1212729110

Barreiras à comunicação efetiva
.Especialistas não são bons modelos sobre não-especialistas a respeito do que e como se comunicar: em que os não-especialistas acreditam e o que ainda necessitam saber para tomar decisões informadas.
.Tendência a apresentar informações desnecessariamente complexas e a usar jargões.

Abordagem de modelos mentais
.Modelos mentais: pessoas tendem a interpretar novas informações à luz de suas crenças prévias;
.Abordagem de modelos mentais: participação tanto de especialistas quanto de não-especialistas em 4 etapas.
1. Identificar o que as pessoas necessitam saber para tomar decisões mais informadas (modelo de decisão por especialistas - expert decision model)
.Revisão da literatura;
.Painel de especialistas;
2. Identificar o que as pessoas já sabem e como elas toma suas decisões (modelo de decisão por leigos - lay decision model)
.Entrevistas semi-estruturadas para identificar as crenças e expressões (wording) relevantes;
.Levantamento de acompanhamento (follow-up surveys) com amostras maiores a fim de examinar a prevalência das crenças dos entrevistados;
3. Elaborar (design) o conteúdo a ser comunicado
.Comparar o modelo de decisão por leigos com o modelo de decisão por especialistas;
.Referir-se a lapsos comum e erros de concepção em palavras compreensíveis;
.Testar iterativamente a comunicação para a adequação e compreensão (com membros da audiência pretendida), bem como para a precisão (com o grupo de especialistas);
4. Testar a eficiência do conteúdo comunicado
.Conduzir testes aleatorizados controlados para verificar o efeito da comunicação (vs. controle) sobre a compreensão, tomada de decisão e comportamento dos dos recipientes.

Entrevistas semi-estruturadas
Objetivos e desafios.
.Caracterizar as crenças dos entrevistados sobre o tópico em consideração, incluindo falhas de conhecimento (knowledge gaps) e erros conceituais (misconceptions) que necessitam de intervenção, bem como a respeito de modos preferidos de expressão (wording);
.Questionar sem sugerir ideias ou terminologias específicas;
.Perguntas abertas como "você pode me falar mais sobre isto?" para encorajar mais discussões sobre o tópicos que surgirem;
.Após esgotar as explicações dos entrevistados, questões de acompanhamento podem ser mais direcionadas, objetivando cobrir sistematicamente as questões relevantes (como exposição ao risco, efeitos potenciais e mitigação) ou avaliar as definições leigas de termos preferidos pelos especialistas;
.Entrevistadores devem ser ouvintes ativos utilizando métodos de aconselhamento dos assistentes sociais ou de entrevistas etnográficas dos antropólogos: manter tom encorajador, não julgador, mesmo quando o entrevistador considerar incorreto ou imoral o que é partilhado pelo entrevistado, não interferir quando o entrevistado parar para buscar palavras;
.Entrevistadores devem se conter para não tentar educar os entrevistados sobre o tópico investigado, oferecer informações sobre folhetos e contatos com organizações de extensão somente ao fim da entrevista;
.Toda pesquisa com humanos devem ser previamente aprovadas pelo Comitê Interno de Pesquisa da instituição de pesquisa.
Modos comuns de entrevistas
.Entrevistas por telefone: permite uma maior abrangência geográfica;
.Entrevistas presenciais: pistas visuais (como indicação de fadiga ou confusão);
.Entrevistas com grupo focal (focus group): formação de decisão em grupos, não permite avaliar aprofundadamente a compreensão individual do tópico - entrevistados tendem a não expressar opiniões que não são compartilhadas com o restante do grupo.
Análise.
.Transcrição e codificação;
.Dois codificadores independentes devem concordar se os conceitos-chave para a tomada de decisão foram expressos pelo entrevistados;
.Novos códigos podem ser usados para conceitos não listados como chave pelos especialistas;
.Dois ou mais avaliadores devem ser treinados para a aplicação do código com entrevistas que são representativas, mas que não fazem parte do estudo, espera-se uma concordância na aplicação dos códigos na casa dos 70% para a confiabilidade (reliability) da codificação;
.Se dois conceitos são muito similares para os avaliadores distinguirem, eles podem ser agrupados em um único termo que abranja a ambos.
Amostragem.
.Por causa do grande trabalho demandado na realização e análise das entrevistas, geralmente elas são feitas até que se atinja a saturação - novas ideias e conceitos deixem de surgir;
.Tipicamente isso ocorre com 10 a 15 entrevistas;
.Para aumentar a probabilidade de se captar as ideias mais comuns, deve se procurar pessoas dos mais variados históricos (backgrounds) e dos diferentes grupos de interesse (stakeholders);
.Como os grupos são pequenos, tendem a não ser representativos;
.Pesquisas mais amplas (surveys) são mais eficientes para captar a frequência dos conceitos na população;
.Mas a fase de entrevistas ajuda a orientar a produção de questionários para as pesquisas.

Pesquisa de opinião pública (follow-up public perception survey)
Objetivos e desafios.
.Avaliar a prevalência na população de crenças específicas detectadas na fase de entrevistas iniciais e como elas e outros fatores dirigem as decisões;
.Questões estruturadas de conhecimento são recomendadas para as grandes amostras necessárias porque são mais fáceis de avaliar as respostas corretas do que questões abertas;
.Mas elas podem levar os respondentes a escolherem as opções de acordo com as pistas fornecidas;
.Questões de verdadeiro/falso são recomendadas no lugar de questões de múltipla escolha por fornecerem menos pistas aos respondentes;
.No entanto, a exposição a afirmações falsas podem levar à falsa memória nos respondentes de que elas sejam verdadeiras;
.O fornecimento de feedback formativo após o preenchimento do questionário pode diminuir esse problema;
.Questões de verdadeiro/falso podem ser seguidas de avaliação sobre o grau de certeza dos respondentes - variando de 50% (chute) a 100% (certeza);
.O uso da opção "não sei" tende a aumentar a taxa de ausência de respostas;
.O uso de opções "possivelmente verdadeiro" e "possivelmente falso" pode ser uma solução de compromisso ao grau de certeza do tipo "estou x% certo", mas oferece menos informação;
.Além de conhecimento, habilidades (numeracia, interpretação de gráficos) e preferência de riscos em diferentes domínios, atitudes e emoções também afetam a tomada de decisão pelas pessoas;
.Diferentes formatos de questões podem ser usados para avaliar as decisões: completar espaços em branco, escolher a melhor opção de um conjunto, classificar em ordem de preferência, avaliar cada item de acordo com escala (1=muito ruim a 7=muito bom);
.As questões podem afetar as respostas dos entrevistados;
.Uso de questões de múltipla escolha permite correlações entre as diferentes respostas eliciadas, mostrando a consistência das respostas;
.Para diminuir a dependência de auto-declarações, idealmente informações de comportamentos reais dos entrevistados devem ser obtidos por meio de observações independentes e registros em arquivos;
.As questões devem ser formuladas com palavras compreensíveis aos entrevistados;
.Realizar entrevistas cognitivas piloto ajuda a detectar possíveis mal entendidos das questões.
Métodos comuns de pesquisa de opinião
.Questionário em papel ou online, pessoalmente ou por telefone;
.Tempo, dinheiro disponível, habilidades e preferências dos respondentes, sensitividade do tópico devem ser levado em consideração para a escolha do modo de aplicação;
Análise
.Análise de regressão pode permitir ver como conhecimento e atitude se relacionam com decisão;
.Erros conceituais que parecem dirigir comportamento serão prioritários para intervenção.
Amostragem
.Seleção aleatória é mais provável de produzir amostra não-enviesada, mas pode ser difícil de implementar sem uma lista completa de membros das audiências específicas;
.Amostra de conveniência diversa pode ser suficiente nos casos em que se pretende apenas estabelecer correlação entre crenças e comportamentos.
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