PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

sábado, 28 de maio de 2011

Um coração não tão simples: uma exegese científica de "Oração"

Os psicólogos ainda precisam elaborar um modelo mais bem desenvolvido a respeito da mente humana no que diz respeito a informações partilhadas pela internet - na verdade à respeito da mente humana, ponto.

É difícil extrair muita lógica no conjunto de vídeos, textos, músicas e outros tipos de informações partilhadas pela internet que fazem um grande sucesso (por isso publicitários fazem diversas tentativas para que algo que eles produzam para a internet atinjam o objetivo de se alastrar boca a boca - ou teclado a teclado ou mouse a mouse ou touch screen a touch screen ou qualquer combinação de periféricos e interfaces de entrada de dados - em processo de tentativa e erro, com mais erros do que acertos). Na verdade é difícil extrair muita lógica do conjunto do que faz ou não sucesso mesmo fora da internet - a fórmula do sucesso tem sido um objetivo tão inalcançável quanto se obter a pedra filosofal, ou mais, já que se é possível obter ouro a partir de chumbo: só é preciso um acelerador de partículas de alguns milhões de dólares.

Não será aqui no GR que se alcançará finalmente tal intento. O objetivo desta postagem é muito, mas muito mais modesto. É apenas fazer uma análise da canção "Oração" de Leo Fressato, cuja gravação por um grupo musical curitibano, a Banda Mais Bonita da Cidade, tornou-se um desses sucessos internéticos. Não entrarei no mérito de qualidade da canção. E é uma análise bem marota, na verdade. Afinal farei uma incursão científica - quando obviamente não é essa a chave interpretativa da obra.

"Essa é a última oração pra salvar seu coração"

Há alguns trabalhos a respeito de orações intercessórias. Vários apresentam resultados positivos, mas críticas foram feitas quanto à metodologia - como não apresentar um formato de teste duplo-cego, não haver uma boa definição de parâmetros de melhora ou cura de doenças. Algumas meta-análises indicam que não há efeito detectável dessa técnica na saúde dos indivíduos alvo das preces (Master et al. 2006), outras encontram um efeito pequeno mas significativo (Roberts et al 2007).

"Não é tão simples quanto [você] pensa"

De fato o coração humano é um órgão bastante intrincado, havendo uma especialidade médica - a cardiologia - dedicada apenas ao estudo de seu funcionamento e das doenças que o afetam. A história evolutiva do órgão, passando de um tubo de contração peristáltica - quando não havia nem mesmo sangue - para um sistema paralelo de quatro câmaras com contração sincronizada como encontramos em mamíferos e aves é bastante interessante (Moorman & Christoffels 2003, Bishopirc 2005) e, embora muita coisa tenha sido descoberta, a genética do desenvolvimento cardíaco está ainda no começo (Olson 2006).

"Nele cabe o que não cabe em uma despensa [...] cabe uma penteadeira"

O coração humano tem o tamanho aproximado de dois punhos cerrados. Com uma massa média de 250 a 300 g em mulheres e de 300 a 350 g em homens adultos. Obviamente não caberia uma penteadeira a não ser metaforicamente. Já no coração de uma baleia azul... em um animal de 100 t, a bomba pode chegar a 400 kg de massa, caberia facilmente uma penteadeira - embora claro, provavelmente ocasionasse um estrago se inserido dentro de uma baleia viva.

"Cabem três vidas inteiras"

Na verdade, problemas cardíacos são a principal causa de mortalidade no mundo, correspondendo a 12% das mortes anuais. Entre mamíferos, como a taxa de batimentos cardíacos por minuto se correlaciona inversamente à longevidade dos indivíduos da espécie, há uma curiosa constância do total absolutos de batimentos cardíacos durante a vida entre as diferentes espécies: entre 1,7 bilhão e 13 bilhões de batimentos (Levine 1997).

"Cabe o meu amor [...] Cabe[mos] nós dois"

O coração há muito tem sido símbolo da emoção (apesar de ser o cérebro o responsável pelo processamento das emoções) por ser um órgão claramente afetado por estados emocionais - os batimentos se aceleram em estado de excitação, nervosismo, medo e desaceleram em estado de calma - graças ao sistema nervoso autonômico (SNA), com fibras do SNA parassimpático (via nervo vago) que diminuem a taxa dos batimentos cardíacos e fibras simpáticas que aumentam a taxa de batimentos. (Van Stee 1978.)

Hormônios como epinefrina (ou adrenalina) liberado pelas glândulas suprarrenais sob influência do SNA, também afetam as taxas de batimento cardíaco.

Esse efeito é interpretado sob a síndrome da fuga ou luta: a aceleração dos batimentos cardíacos em situação de estresse garante o suprimento sanguíneo aos músculos em caso de luta ou de fuga. (Curtis & O'Keefe 2002.)

Repetição

A repetição de tema em música é amplamente explorada - seja na forma de um refrão ou da repetição contínua do tema musical com ou sem variação.

A exposição repetitiva à música altera os batimentos cardíacos dos indivíduos (Iwanaga et al 2005), será que a exposição à música repetitiva tem efeito similar? É algo que poderia ser testado. Mas não cabe nesta postagem.

Referências
Bishopric, N. (2005). Evolution of the Heart from Bacteria to Man Annals of the New York Academy of Sciences, 1047 (1), 13-29 DOI: 10.1196/annals.1341.002

Curtis BM, & O'Keefe JH Jr (2002). Autonomic tone as a cardiovascular risk factor: the dangers of chronic fight or flight. Mayo Clinic proceedings. Mayo Clinic, 77 (1), 45-54 PMID: 11794458

Iwanaga M, Kobayashi A, & Kawasaki C (2005). Heart rate variability with repetitive exposure to music. Biological psychology, 70 (1), 61-6 PMID: 16038775

Levine HJ (1997). Rest heart rate and life expectancy. Journal of the American College of Cardiology, 30 (4), 1104-6 PMID: 9316546

Masters KS, Spielmans GI, & Goodson JT (2006). Are there demonstrable effects of distant intercessory prayer? A meta-analytic review. Annals of behavioral medicine : a publication of the Society of Behavioral Medicine, 32 (1), 21-6 PMID: 16827626

Moorman AF, & Christoffels VM (2003). Cardiac chamber formation: development, genes, and evolution. Physiological reviews, 83 (4), 1223-67 PMID: 14506305

Olson EN (2006). Gene regulatory networks in the evolution and development of the heart.Science (New York, N.Y.), 313 (5795), 1922-7 PMID: 17008524

Roberts L, Ahmed I, & Hall S (2007). Intercessory prayer for the alleviation of ill health.Cochrane database of systematic reviews (Online) (1) PMID: 17253449

Van Stee, E. (1978). Autonomic Innervation of the Heart Environmental Health Perspectives, 26DOI: 10.2307/3428837

Agradecimento a Felipe Beijamini pela ajuda com uma referência.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Evolutivo, evolucionário, evolucionista

Uma sugestão aos tradutores e autores de ciência.

Como há uma certa variação na tradução do termo 'evolutionary' e há tanto polissemia quanto sobreposição dos termos 'evolutivo', 'evolucionário' e 'evolucionista', proponho que se organizem os termos do seguinte modo:

a) evolutivo - adjetivo correspondente a fenômenos e processos de evolução biológica: biologia evolutiva, processos evolutivos (= processos relacionados à evolução como causa ou consequência), biólogo evolutivo (= biólogo que estuda a evolução), teoria evolutiva (= teoria que explica a evolução dos seres vivos)...

b) evolucionário - adjetivo correspondente a algo que *cause* ou *provoque* a evolução biológica: processos evolucionários (= processos que levam à evolução), Alto Evolucionário (personagem Marvel, geneticista que altera os seres vivos), causas evolucionárias...

c) evolucionista - adjetivo referente à corrente filosófica do Evolucionismo: filósofo evolucionista (= filósofo defensor da teoria evolutiva), livro evolucionista, biólogo evolucionista (= biólogo que defende a teoria evolutiva)...


domingo, 22 de maio de 2011

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 15

Abaixo minhas anotações sobre um artigo a refletir sobre estratégias de engajamento do público em questões técnico-científicas.

------------------
Katz-Kimchi et al. 2011. Gauging public engagement with science and technology issues. Poroi 7(1). Artigo 10.

Engajamento público em ciências e tecnologia: envolvimento ativo dos cidadãos no desenvolvimento das trajetórias sócio-técnicas, especialmente na definição política e tomadas de decisões.

Ponto crítico especialmente quando uma empreitada tecnocientífica é inovadora, apresenta riscos ou incertezas e amealha as atenções dos políticos por sua importância e relevância. P.e., nanotecnologia e ciência das mudanças climáticas.

Razões para se buscar o engajamento público: obter legitimidade e confiança pública, alcançar melhores resultados na implementação de novas políticas relacionadas à empreitada, aderir ao comprometimento normativo de sociedades democráticas com o livre fluxo de informação e a abertura do processo de tomada de decisão.

Ainda é incerto *como* se obter o engajamento em termos de retórica e estratégias persuasivas.

Estratégias efetivas
1. ativar memória cultural: herança cultural compartilhada, maior componente da identidade de um grupo (nacional ou transnacional) - conhecimento do passado e seus principais produtos partilhados por cidadãos de qualquer cultura tomados como um grupo humano de um dado momento.
2. engajamento positivo: ativar aspectos positivos do engajamento - mostrar que as pessoas podem ajudar a fazer a diferença, que elas são capazes de entender os conceitos noticiados - em vez de sentimentos negativos como 'medo'.
3. interatividade e convite: as pessoas mais prováveis de se depararem com um dado discurso sobre ciência e tecnologia são aquelas que já são engajadas em algum grau com temas de C&T ou pelo menos familiarizadas com tópicos básicos de C&T; então muitas vezes há uma autosseleção do público-alvo das mensagens. É preciso levar em conta que as pessoas apresentam diferentes estilos de aprendizagem e conhecimentos prévios e, assim, diversificar os modos de se apresentar a mesma informação.
4. estética: importante quando se utiliza de comunicação visual; vivacidade das imagens, harmonia dos sons; design bem pensado e atrativo são importantes para a recepção pelo público; desenvolver o tema com time interdisciplinar de design/retórica visual/comunicação visual.
5. variedade: não usar sempre as mesmas imagens ou o mesmo tipo de imagem, variar o tom e a abordagem para manter o interesse e a atenção do público.


domingo, 8 de maio de 2011

Padecendo no paraíso

ResearchBlogging.org
O sapo-pipa (Pipa spp.), também conhecido como aru, cururu-de-pé-de-pato ou sapo-surinã, vive na região Amazônica e, apesar de se chamar sapo-surinã ou, em inglês, Surinam toad, é encontrado não apenas na ex-Guiana Holandesa, mas também na Bolívia, no Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Venezuela e até na ilha caribenha de Trinidad e Tobago.

Seu corpo achatado dá uma aparência de folha morta (figura 1).

Figura 1. Pipa pipa. Fonte: Wikimedia Commons.

Uma das características mais marcantes é o modo de reprodução. O macho não vocaliza como a maioria dos anuros para atrair a fêmea, o som produzido é um estalo resultante do repetido choque do osso hióide contra sua garganta. Macho e fêmea envolvem-se em um amplexo que pode durar até 30 horas, com a fêmea liberando algumas dezenas de ovos (em P. carvalhoi foram contados até 200 ovos - Weylgoldt 1976 apud Buchacher 1993). Os movimentos do macho faz com que os ovos acabem enterrados na pele da fêmea. É aí que as larvas eclodirão e se desenvolverão em pequenos sapinhos que emergem das bolsas formadas na pele da mãe. (Video 1, Rabb & Rabb 1960.)


Vídeo 1. Emergência dos filhotes de P. pipa da pele dorsal da mãe.

Parecem pequenos gremlins/mogwais saindo das costas maternas. Algo reminescente a uma lenda grega da Atena surgindo já adulta formada da testa de Zeus.

Referências
Buchacher, C. (1993). Field studies on the small Surinam toad, Pipa arrabali, near Manaus, Brazil Amphibia-Reptilia, 14 (1), 59-69 DOI: 10.1163/156853893X00192

Rabb, G., & Rabb, M. (1960). On the Mating and Egg-Laying Behavior of the Surinam Toad, Pipa pipa Copeia, 1960 (4) DOI: 10.2307/1439751

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails