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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Paulo Emílio Vanzolini: no refúgio do samba

Quando Deus me fez zoólogo sabia o que estava fazendo” Paulo Vanzolini***

Morreu na madrugada de hoje, aos 89/90 anos*, o doutor Paulo Vanzolini em decorrência de complicações de uma pneumonia. Mesmo sendo uspiano, infelizmente não tive nenhum convívio com Vanzolini, mesmo tendo várias aulas com o pessoal do Museu de Zoologia.

Aqui compilo links para alguns textos com homenagens, entrevistas e perfis do herpetosambista ou sambo-herpetólogo:

Agência Fapesp: Paulo Vanzolini morre aos 89 anos***
Curupira: Cobras e lagartos
Darwin e Deus: Vanzo e seus incríveis lagartos evoluídos amestrados***
Diário do Centro do Mundo: O mundo de Paulo Vanzolini era outro***
Dr. Drauzio Varella: Paulo Vanzolini - Brilhante na ciência e na música
Folha: "A Amazônia quer destruir a floresta", diz Vanzolini**
Folha: Livro reúne artigos de Paulo Vanzolini**
Folha: Teve participação direta em momentos-chave da ciência nacional***
Folha: Zoólogo, Vanzolini teve grande importância para a ciência***
Química de Produtos Naturais: Paulo Vanzolini (1924 – 2013)***
Revista Educação: O cientista-poeta**
Teoria de Tudo: O simpático mau humor de Vanzolini
The Drunkeynesian: PauloVanzolini, 1923-2013

*Obs: Algumas fontes dão mesmo como o ano de nascimento de Vanzolini como sendo 1923, e.g. The scientist as historian: Paulo Vanzolini and the origins of zoology in Brazil e a página na Academia Brasileira de Ciências. Mas a maioria dos veículos de comunicação informam que teria nascido em 1924, e.g. Folha, G1, Estadão, Veja...

Upideite (29/abr/2013): Entrevista de Paulo Vanzolini ao Brasilianas.org
  

**Upideite(29/abr/2013): adido a esta data.
***Upideite(30/abr/2013): adido a esta data.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Perdendo-se na linha fina: como o G1 atribuiu o aquecimento global a causas naturais

Divulgação científica não é tarefa fácil. Trabalho com isso há quase vinte anos e ainda não sei nem um terço dos macetes. Mas ela é fundamental sobretudo em temas que afetam diretamente a vida dos indivíduos. Louvo o trabalho dos jornalistas de ciências que têm um alcance (e uma responsabilidade) muito maior do que a maioria dos blogues (não dá nem para colocar o GR na brincadeira, apesar de contar com a ilustre audiência da fiel leitora e do fiel leitor).

Um desses temas relevantes - e mais ou menos intensamente trabalhado aqui - é a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. E muitas vezes os jornalistas têm pisado na bola ao dar espaço, além do devido, aos negacionistas climáticos. A situação piora quando cometem erros de divulgação que invertem completamente o sentido de um trabalho (erros de divulgação na mídia, infelizmente, é frequente, a nos valermos de análise do jornalismo de ciências norueguês sobre o clima).

A nos valermos do basearmos no título e dna linha fina (frases auxiliares de menor destaque que se seguem ao título complementando a informação) de uma reportagem no G1 sobre um trabalho recém-publicado do grupo PAGES (Pasto Global Changes 2k Consortium), seríamos levado a crer que o aquecimento global do último século deve-se às causas naturais (não-antropogênicas).

"Temperatura global no século 20 foi a maior em 1.400 anos, diz estudo
Cientistas analisaram as temperaturas no planeta nos últimos 2 mil anos.
Fato é atribuído a ciclo natural do Sol e a flutuação de erupções vulcânicas."

O primeiro parágrafo fica algo misterioso de entender diante disso:
"Estudo publicado neste domingo (22) na revista 'Nature Geoscience' reconstruiu em escala global as temperaturas do planeta dos últimos 2 mil anos e constatou que o século 20, período em que a influência humana se tornou mais significativa, foi o mais quente em todo o planeta em 1.400 anos."

Se a influência humana se tornou mais significativa, como o Sol e erupções vulcânicas explicam?

Mas segue o texto:
"De 1971 a 2000, a temperatura média ponderada foi maior do que em qualquer outro momento em cerca de 1.400 anos, diz o estudo.

A pesquisa da 'Nature' mostra que o fato pode ser atribuído a ciclos naturais na órbita planetária e a flutuações causadas por erupções vulcânicas e variações na atividade solar."

Ou seja, o G1 reforça o que sugere no título: o aquecimento do último século, em especial dos últimos 30 anos do século passado, seria mesmo causado por fatores naturais e não pela intervenção humana.

Porém, essa leitura é completamente equivocada frente ao que o estudo realmente diz.

A atividade solar e as erupções vulcânicas são mesmo atribuídas como causas da variação de temperatura estudada pelo grupo, mas para explicar o *resfriamento* entre os anos de 1580 e 1880: uma *menor* atividade solar e uma *maior* emissão de partículas por erupções vulcânicas.

No FAQ da página do grupo é explicado:
"The results show that some regions were likely warmer during some decades of the medieval period and Roman times than they were in 1971-2000. Does this suggest that recent warming is part of a natural cycle? 

Determining the extent to which recent temperature changes are unusual is different than ascribing them to natural or anthropogenic causes. Because temperatures have been higher during past periods of Earth’s history does not imply that humans activities are not presently influencing climate. The global warming that occurred in the 20th century reversed a long-term global cooling trend. This pre-industrial cooling trend was likely caused by natural factors that continued to operate through the 20th century, making the 20th century warming more difficult to explain without the likely impact of increased greenhouse gasses."
["Os resultados mostram que algumas regiões provavelmente foram mais quentes durante algumas décadas do período medieval e em tempos romanos do que foram em 1971-2000. Isso sugere que o aquecimento recente é parte de um ciclo natural?

Determinar em que extensão as alterações recentes de temperaturas são incomuns é diferente de atribuí-las a causas naturais ou antropogênicas. As temperaturas serem maiores durante períodos anteriores na história da Terra não implica que as atividades humanas não estão influenciando o clima hoje em dia. O aquecimento global que ocorreu no século 20 reverteu uma longa tendência de resfriamento global. EstaEssa tendência de resfriamento pré-industrial provavelmente foi causada por fatores naturais que continuaram a atualatuar através do século 20, fazendo com que o aquecimento do século 20 seja mais difícil de explicar sem o provável impacto de gases-estufa."]

O painel g da figura 4 do trabalho (Figura 1 abaixo) mostra a variação estimada das forçantes radiativas (o quanto contribuem para o aquecimento) dos diferentes fatores.

Figura 1. Reprodução parcial da figura 4 de PAGES 2k Network Consortium 2013. Note no painel g, a linha verde (forçante radiativa de gases-estufa).

O vulcanismo e o Sol tiveram valores de forçante oscilante, mas sem tendência de aumento ou diminuição. (Episódios seguidos de baixa na forçante desses fatores puderam ser identificados entre os anos de 1200 e 1800 - que devem ter contribuído para as baixas temperaturas entre 1580 e 1880*.) Somente a forçante de gases-estufa apresenta uma tendência clara de crescimento, sobretudo a partir do século 19.

O aquecimento global e mudanças climáticas já ésão um tema um tanto árido para o público. Piora com o ruído gerado pelos negacionistas. E fica impossível de se compreender corretamente com esse tipo de erro de divulgação.

Obs: Agradecimento a @oatila por ajudar na obtenção do artigo.

*Upideite(23/abr/2013): Adido a esta data.

Traduttore, traditore: silício e silicone

Há cerca de 25 anos, era um erro muito comum nas notícias sobre o Silicon Valley, a região da Baía de São Francisco que concentra empresas de alta tecnologia ser referida como Vale do Silicone. Hoje em dia muito raramente isso ocorre, especialmente no noticiário.

Buscando no acervo da Folha de São Paulo, há 5 registros para "Vale do Silicone" para os anos de 1980 (um em texto da coluna do jornalista econômico Joelmir Beting - Figura 1a); 3 dos anos de 1990 (duas que corrige o mau uso da expressão na TV - Figura 1b e c); e um nos anos 2000 (um uso jocoso do termo em coluna da jornalista Barbara Gancia em 2008). Para os períodos respectivos, "Vale do Silício" aparece 64; 70 e 80 vezes.


a) b)  
c)   
Figura 1. Folha de São Paulo, a) 20/10/1982, pág. 21; b) 16/05/1993, TV Folha pág. 5

No acervo de O Estado de São Paulo, há 5 menções para os anos de 1980, 2 para os anos de 1990 e 1 para os anos 2000. (Nenhum uso é jocoso ou como correção. A ocorrência mais recente é de 2005.) Para "Vale do Silício", há 1 menção para os anos de 1970, 20 para 1980, 139 para 1990 e 399 para 2000.

Mas a troca de 'silício' por 'silicone' ainda ocorre. Principalmente em documentários traduzidos.

Não sei se há restrições orçamentárias que impedem a contratação de um revisor técnico ou talvez o tempo entre o recebimento do material original e a entrega da versão em português seja extremamente curto. Porém, há algumas dicas que permitem ao tradutor não especializado rapidamente saber qual expressão usar.

Em inglês, 'silicon' se refere ao 'silício' (o elemento químico); 'silicone' é 'silicone' (composto polimérico à base de silício, carbono, hidrogênio e oxigênio). A diferença é de apenas uma letra, mas é fácil de se identificar. Se for um material em áudio, é preciso prestar atenção nas diferenças do modo como são pronunciados: 'silicon' é lido como algo entre '/síliquem/' e '/sílican/'; 'silicone' é pronunciado como 'silicôn'.

Nos dois casos, escrito ou falado, o contexto também costuma ajudar. No mais das vezes em que se estiver falando de chip de computador - e semicondutores em geral (como em células fotovoltaicas) -, é silício; para formas de vida alternativa, normalmente também é silício - vida baseada em silício (como alternativa a vida baseada em carbono). Para materiais semelhantes a borracha ou plástico ou a líquidos e géis, tende a ser silicone: espátula de silicone, implante mamário de silicone, silicone automotivo.

Um caso que pode confundir bem é de chips flexíveis de silício. Chips ultrafinos sanfonados são montados sobre plataformas flexíveis como borrachas, permitindo aplicação em superfícies dobráveis ou sujeitas à torção. É preciso prestar atenção se está se referindo ao material do chip ou da base flexível. Por exemplo, em: "Active electrode arrays by chip embedding in a flexible silicone carrier", 'silicone' está bem usado referindo-se ao material flexível feito de silicone.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Triunidos erraremos: como NÃO evoluiu o cérebro humano

A Folha Online fez uma resenha do novo livro do físico Leonard Mlodinow: "Subliminar", que destaca o papel do inconsciente e subconsciente nas decisões e escolhas humanas.

Não li o livro. E não contesto a tese (discutida, aliás, na entrevista da Suzana Herculano-Houzel ao Roda Viva).

Acho estranho é o infográfico que acompanha a reportagem-resenha, cujo texto reproduzo abaixo:

"Os três cérebros: Cada parte do órgão tem funções específicas.

1. Reptiliano: Região primitiva presente em vertebrados (aves, répteis, anfíbis, peixes e mamíferos). É responsável por funções de sobrevivência: atividade de órgãos ou reflexos como fugir

2. Sistema límbico. Áreas relacionadas à percepção social inconsciente, à regulação de emoções, aos relacionamentos e ao impulso sexual. Comum a todos os mamíferos.

3. Neocórtex. Massa cinzenta que diferencia os humanos de outros seres vivos. É o lugar relacionado à consciência e ao raciocínio lógico.

Fonte: Leonardo Mlodinow, físico autor de 'Subliminar'"

É basicamente a Teoria do Cérebro Triuno de Paul D. MacLean. Pela teoria, o cérebro humano reflete as relações de ancestralidades carregando estruturas formadas sequencialmente durante sua evolução, com três estágios de estabilidade relativamente longa da evolução do cérebro vertebrado refletindo-se na estruturação do cérebro humano.

A teoria de MacLean tem seus (sérios) problemas, mas o texto acima do infográfico tem mais.

Há questões quase semânticas como o uso do termo primitivo; outras mais graves envolvem erros factuais: o sistema límbico é, de fato, comum a todos os mamíferos, mas não quer dizer que *apenas* mamíferos os tenha, répteis têm também sistema límbico. De fato, Bruce e Neary (1995) concluem que o ancestral em comum dos mamíferos e répteis teria já um sistema límbico bem desenvolvido.

Tampouco o neocórtex é exclusivo de seres humanos, como é dado a entender do texto. Um neocórtex com 6 camadas de células já estaria presente nos primeiros mamíferos (Northcutt e Kaas, 1995). De fato, em humanos é uma camada bem desenvolvida e convoluta. Mas o de golfinhos também é bem desenvolvido (vide, p.e., Figura 2 de Krubitzer e Kahn, 2003).

Mesmo que dividamos o cérebro de humanos nessas três grandes estruturas, elas estava presentes já nos primeiros mamíferos (na verdade já no ancestral em comum entre répteis e mamíferos) - a diferença do cérebro humano, então, reside, não na estruturação, mas na organização e tamanho.

O infográfico credita as informações ao texto de Mlodinow. Se assim for, é um ponto fortemente negativo para o físico. Seu "O Andar do Bêbado" é muito bom e recomendo. Mas, embora não tenha lido "Subliminar", se ele se baseia na teoria do cérebro triuno, torço mesmo o nariz que não tenho.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Especulando: Regulamentação da profissão de cientista = valorização do trabalho?

A neurobióloga Suzana Herculano-Houzel havia lançado seu manifesto para o reconhecimento de "cientista" como profissão. Expôs rapidamente sua ideia em entrevista recente ao Roda Vida da TV Cultura de São Paulo (só no quarto bloco teve a oportunidade*).

 

Após o programa, um deputado entrou em contato com a cientista para discutir a proposição de uma lei de regulamentação da profissão de cientista. Herculano-Houzel está fazendo uma enquete com seus leitores para preparar sua apresentação no Congresso Nacional.

Pelos compartilhamentos no twitter, facebook e G+, vários colegas e conhecidos meus, a maioria pós-graduando ou recém pós-graduados, estão animados.

Eu não tenho barba, mas as coloco um pouco de molho. Expus mais detalhadamente minhas discordâncias (e concordâncias) com a proposta de SHH aqui mesmo no GR.

Ainda é fase inicial e não sei se e como serão ouvidas outras partes na elaboração desse projeto de lei. A impressão que tenho é que o andar da carruagem está em um ritmo acelerado - mais do que sugeriria a prudência em uma estrada esburacada que se atravessa.

A minha sugestão é que, afinal estamos lidando com cientistas, apliquemos uma metodologia científica por excelência: teste-controle com divisão aleatorizada dos sujeitos. *Antes* de se fazer qualquer lei, testemos a hipótese central da proposta de SHH: regime de contrato para pesquisa em vez de docência nas IES públicas e pós-graduação profissionalizada. Teríamos algumas instituições em que se trabalharia com o regime atual e outras com o novo regime proposto. Os candidatos passariam em um concurso comum e, posteriormente, seriam encaminhados a um ou outro sistema**. Ao fim do período do experimento, compararíamos os resultados. Não sei qual alfa deveríamos usar nos testes estatísticos de comparação: se o 5% tradicional, um maior (10%?) ou um mais rigoroso (1%?). Tendo a ser favorável a uma condição mais liberal: um alfa de 10%, no caso.

Infelizmente não seria possível trabalharmos com um teste duplo cego. Não seria nada cego, aliás, já que os sujeitos experimentais saberiam exatamente em qual sistema estariam engajados. E demandaria mais pelo menos uns 10 anos para uma condição minimamente razoável de comparação.

De todo modo, creio que seria melhor ter uma base empírica antes de sair modificando todo um sistema que, com todos os seus defeitos, não é completamente disfuncional.

*Upideite(03/abr/2013): adido a esta data.
**Upideite(03/abr/2013): haveria uma questão trabalhista a se superar - a possibilidade de se usar um mesmo concurso para dois regimes diferenciados de trabalho com posterior alocação. Uma opção menos ideal, seria a realização de dois concursos separados e acompanhamento de grupos que sejam socioeconomicamente similares.
Upideite(23/ago/2013): uma análise crítica às propostas de SHH. (via @sibelefausto)
Upideite(01/out/2013): outra crítica às propostas de SHH, da ANPG. (via Cassiana Perez FB)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

É mentira, Terta? Você pode correr, mas não pode se esconder. Será?

ResearchBlogging.orgA camuflagem é relativamente comum entre os mamíferos. Sua coloração entre ocre e acastanhado permitem que fiquem pouco visíveis sobre solo nu, rochas e entre tronco de árvores e folhas secas da serapilheira; animais brancos como ursos-polares e raposas-árticas e filhotes de várias espécies de focas confundem-se com o gelo e a neve - há espécies, como vários mustelídeos, que mudam a cor da pelagem de acordo com a estação do ano.

Bem menos comum são os casos de mimetismo entre nossos irmãos de classe.

Em 1867, Alfred Russel Wallace, escrevia: "Among the Mammalia the only case which may be true mimicry is that of the insectivorous genus Cladobates, found in the Malay countries, several species of which very closely resemble squirrels. The size is about the same, the long bushy tail is carried in the same way, and the colours are very similar. In this case the use of the resemblance must be to enable the Cladobates to approach the insects or small birds on which it feeds, under the disguise of the harmless fruit-eating squirrel." ["Entre os Mammalia, o único caso que deve ser de mimetismo verdadeiro é o do gênero de insetívoro Cladobates, encontrado em terras malaias, várias espécies do qual lembram em muito os esquilos. O tamanho é aproximadamente igual e a longa cauda peluda é carregada do mesmo modo e as cores são muito similares. Neste caso, a semelhança deve ser usada para permitir ao Cladobates aproximar-se de insetos e pequenos pássaros dos quais se alimenta, sob o disfarce de um inofensivo esquilo comedor de frutas." - O gênero Cladobates atualmente é denominado de Tupaia (tupaia vem do malaio e significa... 'esquilo'); o animal, com seu focinho longo e fino, é muito parecido com o esquilo pré-histórico Scrat da franquia de animação em computação Era do Gelo.]

Figura 1. Tupaia comum (Tupaia glis). Fonte: Wikimedia Commons.

Outra proposta de caso de mimetismo mamífero é o de Gingerich (1975): os aardwolf (ou lobo da terra) imitariam hienas rajadas (Figura 2).

a)b)
Figura 2. a) Aardwolf (Proteles cristata); b) Hiena rajada (Hyaena hyaena). Fonte: Wikimedia Commons.

E os filhotes de guepardo (de até cerca de 2 meses e meio de idade), o padrão de pelagem de ratéis adultos, propõe Eaton (1976). (Figura 3)



a) b) 
Figura 3. a) Filhote de guepardo (Acinonyx jubatus); b) Ratel adulto (Mellivora capensis). Fonte: Wikimedia Commons.

Filhotes de guepardo estão entre os grandes felinos mais intensamente predados, sofrendo ataques de leões, hienas e leopardos. Muitos organismos apresentam um padrão de contrassombra - o dorso com um tom mais escuro e o ventre com uma coloração mais clara. UmE quando iluminado de cima (o que normalmente ocorre na natureza), a região ventral é escurecida pelo sombreamento, o padrão de contrassombra contrabalança o efeito, diminuindo pistas visuais sobre sua presença (Figura 4).

Figura 4. Efeito do padrão de contrassombra iluminado por cima.

Os pelos dorsais prateados de ratéis adultos e filhotes de guepardos, no entanto, os destacam no ambiente. O ratel é um animal bastante agressivo e é capaz de afugentar potenciais predadores com suas garras e dentes - sua pelagem contrastante serve de alerta contra tais predadores. Filhotes jovens de guepardos podem se beneficiar de um mimetismo batesiano, já que a maioria de seus predadores usam principalmente pistas visuais. Mas, à medida que crescem, tornam-se maiores do que ratéis adultos, e é justamente nessa época em que sua pelagem muda, perdendo os pelos prateados no dorso e adquirindo um padrão que se destaca menos em relação ao ambiente, e também passam a ser mais ágeis, conseguindo fugir de predadores em potencial.

Porém, como notam Caro et al. (2005), embora seja uma especulação interessante, como nota não há um suporte mais direto em dados nem experimentos controlados para o caso da possível imitação de ratéis por filhotes de guepardos. (Na verdade tampouco há maior suporte experimental e observacional para os outros casos citados: de tupaias/esquilos e de lobos da terra/hienas rajadas.)

Referências
Caro, T.; Hill, G.; Lindstrom, L. & Speed, M. 2008. The colours of animals: from Wallace to the present day. II. Conspicuous coloration. In Natural Selection and Beyond: The Intellectual Legacy of Alfred Russel Wallace, eds. Smith, C.H. & Beccaloni, G. Oxford, UK: Oxford University Press, pp. 144-65.
Eaton, R. (1976). A Possible Case of Mimicry in Larger Mammals Evolution, 30 (4) DOI: 10.2307/2407827
Gingerich, P. (1975). Is the aardwolf a mimic of the hyaena? Nature, 253 (5488), 191-192 DOI: 10.1038/253191a0.
Wallace, A.R. 1867 (2012). Mimicry, and Other Protective Resemblances Among Animals. eBooks@Adelaide. Acessado em: 22/março/2013.

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