PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Minidiretório de podcasts e DC em áudio

Segue uma compilação de podcasts e programas de rádio (disponíveis via web) de DC em português. (Certamente está longe de exaustiva, por isso indiquem nos comentários os que escaparam desta primeira leva.)

Ativos
.Alo, Ciência? - via @lucianocupim (03.set.2016)
.Biomedcast (27.fev.2017)
.Ciência em Pauta. (Não sei se terá uma página própria pro podcast.)** (16.jan.2017)
.Dragões de Garagem
.Electron (Museu Ciência e Vida) - contribuição de Patrícia Santos nos comentários
.Eureka Podcast
.Fronteiras da Ciência (UFRGS)
.Observador Quântico - contribuição da autora @thainehsouza (21.out.2016)
.Ondas da Ciência (Fapemig)
.O Nicho - não conheço (21.out.2016)
.Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp) (só streaming agora com download)*
.Paideia (UFSCar)
.Papo Cético - não conheço (08.fev.2017)
.Paradoxo Concreto - não conheço (21.out.2016)
.Pesquisa Brasil (Fapesp)
.Podcast Unesp
.PODEntender - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Positrônico - não conheço (21.out.2016)
.Saúde com Ciência (UFMG) - contribuição de Patrícia Santos nos comentários
.Rádio CNPq - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Rock com Ciência
.SciCast
TransCiência - via Oxigênio (01/dez/2016)

Inativos
.Dispersando (Scienceblogs Brasil)
.Estúdio CH (Ciência Hoje)

*Upideite(03/set/2016): modificado a esta data.

Upideite(21/out/2016): Subdiretório do Mundo Cast com podcasts de ciências.

**Upideite(13/fev/2017): atualizado a esta data.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sai zika: mitos sobre o vírus zika e a microcefalia

Manterei aqui uma lista de esclarecimentos a respeito de mitos sobre o ZIKV e a microcefalia (procurarei atualizá-la à medida em que surgirem, infelizmente surgirão, mais boatos). A desinformação tende a ser um vírus muito mais letal.

Como no caso da pandemia da gripe H1N1, começam a circular textos/vídeos/áudios, muitas vezes apócrifos, sem nenhum embasamento científico que, se levados a sério, podem causar problemas bastante graves às pessoas.

Repito o apelo que já fiz antes:
-------------
NUNCA REENVIE NENHUMA MENSAGEM A SEUS CONTATOS DENTRE AS QUE PEDEM PARA SEREM REENVIADAS.

Mesmo as que parecem bem intencionadas. Em uma corrente, como no telefone sem fio, sempre há alguma coisa que se altera no meio do caminho - pode ser um espírito de porco (bem apropriado para a gripe suína e em linha com a zika), pode ser um erro involuntário. Essa alteração pode ser grave.

Procure informações sempre em fontes confiáveis. (Desconfie até das informações dadas por este blogue.) Não sou especialista na área. Se receberem os mesmos spam/correntes/hoaxes/posts/atualizações/tweets/conteúdos aqui respondidos e forem contra-argumentar, não indiquem esta postagem, usem as referências aqui citadas: OMS, MS, Fiocruz... Procurei trazer informações relevantes, mas posso inadvertidamente ter interpretado erroneamente ou ter tirado do contexto devido.)
-------------

1) Crianças e idosos com sintomas neurológicos, em especial o coma, devido ao vírus zika, (fonte: BBC)
Segundo a Fiocruz, até o momento não há nenhum registro de crianças, jovens, adultos e idosos com sintomas neurológicos decorrentes do vírus zika. Ainda que não seja algo impossível de vir a ocorrer, nenhum caso foi notificado e muito menos confirmado pelas autoridades de saúde.

Porém, há confirmação da relação entre infecção por vírus zika e ocorrência da síndrome de Guillain-Barré: fraqueza muscular devido a danos no sistema nervoso *periférico* - por um ataque autoimune (isto é, as próprias células de defesa atacam células do corpo do indivíduo).

2a) Inseticidas e repelentes naturais contra o mosquito transmissor do ZIKV (fonte: Bolsa de Mulher)
Inseticidas e repelentes ditos 'naturais' a base de óleo de citronela, cravo, andiroba e outros não têm nenhuma comprovação científica de eficácia e nem têm registro na Anvisa. Há formulações comerciais registradas com fórmulas que contêm tais compostos, porém elas apresentam sempre outro princípio ativo, cuja eficácia e eficiência foram devidamente testadas.

2b) Ingerir ou passar sobre a pele vitamina B afasta mosquitos (fonte: iG)***
Não há comprovação científica de que a ingestão ou aplicação tópica de vitamina B evite que a pessoa seja picada por mosquitos. Estudos disponíveis indicam que não tem efeito: Khan et al. 1969Maasch 1973Ives et al. 2005, entre outros.

2c) Crotalária contra de mosquito (fonte G1)8
Não há nenhum indício de que a Crotalaria spp. tenha efeito de combater o mosquito da dengue pela presença de libélulas que seriam atraídas pela planta.

Diz o documento do Instituto Agronômico de Campinas a respeito da prática:
"A divulgação dessa informação, como prática eficaz e comprovada e considerada por alguns até como de vanguarda é de fato alarmante e irresponsável porque, além da semeadura em praças e farta distribuição de vasinhos com mudas de crotalária, como ações de alguns políticos e de prefeituras do interior dos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por exemplo, foram propostos muitos projetos de lei de âmbito municipal, alguns vetados e outros, preocupantemente já aprovados, para incentivo ao cultivo de crotalárias (geralmente de C. juncea), bem como de citronela, muitos deles baseados em justificativas no mínimo, não adequadas, particularmente no quesito comprovação científica."
"Segundo o professor Andrade, 'seriam necessários milhões de libélulas para combater apenas algumas larvas do mosquito'. Informa também que, além de ser uma predadora inespecífica, ou seja, não preda preferencialmente as larvas do Aedes, é raro que as libélulas sejam constatadas em locais onde, também, é comum o mosquito da dengue. Além disso, a libélula faz a postura de seus ovos em grandes depósitos de água enquanto o mosquito precisa apenas de uma gota de água (Lange, 2001)."

2d) Espalhar potes de água e trocar a água três vezes por semana para eliminar o mosquito (fonte: Canal do Pirulla)9
O grande problema é que  medida não foi testada (por exemplo, aplicando-se em um bairro e comparando os níveis de infestação com bairros próximos). É temerária a indicação de medidas de saúde pública sem testes prévios adequados.

Sem testes, no entanto, há elementos que nos fazem suspeitar que a medida traz perigos potenciais.

As pessoas não têm disciplina suficiente para manter a troca da água do pote dia sim, dia não. E uma semana que deixem de trocar, pode ser o suficiente para que as larvas virem pupas e os adultos alados emerjam - do ovo ao adulto o ciclo pode levar cerca de 10 dias.

A população não tem disciplina nem de eliminar os focos de água parada nos quintais - uma fração da população tem, mas outra não - por isso que praticamente todo verão vemos surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos (embora não seja um problema exclusivo do cidadão comum).

"Apesar dos níveis de conhecimento satisfatório em praticamente todos os estudos, foram observados elevados níveis de infestação domiciliar pelo vetor, indicando que as campanhas educativas, embora relativamente eficientes na transmissão de informações, não têm alcançado seu principal objetivo, que é a mudança de comportamento das populações quanto ao efetivo controle dos criadouros do vetor. [...] Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue [como algo inevitável, mas passageiro, como gripe] e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades." (Claro et al. 2004.)

E mesmo que todos realmente trocassem a água a cada dois dias, onde essa água irá parar? Quase certamente no ralo. Aí selecionaremos as linhagens cujas larvas são capazes de completar o ciclo nos esgotos.

Medidas testadas e aplicadas são as campanhas de eliminação de criadouros (inclusive com fiscalização casa a casa), introdução de controle biológico (predadores, patógenos, competidores, técnicas de macho estéril...), controle químico, vacinação e combinações dessas estratégias.

3) A microcefalia causada por agrotóxicos como a 2,4 D (fonte: prefiro não linkar)
Há várias causas de microcefalia: genéticas, infecção por rubéola e abuso de álcool e drogas durante a gravidez., E vários agrotóxicos, incluindo o herbicida 2,4-D, têm efeitos teratogênicos - como entre outros, a microcefalia - comprovados em vertebrados. Porém, o surto atual corresponde a um número de casos mais de 10 vezes maior do que a média dos 5 anos anteriores: de cerca de 150 casos por ano para mais de 1.700 registrados até a primeira semana de dezembro. Não temos um registro de aumento súbito e nesse nível da utilização de agrotóxicos no país: o aumento foi de 700% ao longo dos últimos 40 anos.

4a) A epidemia de zika é invenção para cobrir contaminação de vacina contra rubéola, um plano para reduzir a população mundial (fonte: twitter, Extra**)
A introdução da vacinação para reduzir a população mundial deve ser o plano de conspiração mais ineficiente da história, já que tudo o que a população mundial tem feito desde a introdução das campanhas de vacinação é crescer e crescer muito. Só a vacina contra o sarampo sozinha deve ter salvado algo como 17 milhões de vidas desde o ano 2000.

Há casos de lotes ou linhas de vacinas com problemas - por exemplo, por inativação ineficiente do patógeno ou utilização de um componente que causa alergia -, quando detectado, a utilização destes tende a ser rapidamente suspensa (para os que não acreditam em suspensão humanitária, pode pensar que a continuação do uso pode significar mais casos de processos indenizatórios) - embora o processo de indenização tenda a não ser tão veloz.

O zika, até o momento, está associado a 19 óbitos no Brasil. Seria, novamente, um processo altamente ineficaz de redução da população. Compare-se, p.e., com as mortes por homicídio no país, 53.646 em 2013, ou as 43.800 mortes no trânsito no mesmo ano. É menor até mesmo do que o número de pessoas que morrem por ano atingidas por raio no Brasil: média anual de 111 mortes.

*Embora o vírus da rubéola (RuV) seja uma das causas de microcefalia, as vacinas contra a rubéola (dupla ou tripla viral), contendo vírus atenuados, não são aplicadas em grávidas (mesmo os dados indicando que são seguros também durante a gravidez) - o período crítico da RuV é entre 1 a 3 meses de gestação. O protocolo para relacionar um caso de microcefalia à infecção por ZIKV exclui os principais fatores causadores da má formação: rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose... e de síndrome exantemática (manchas vermelhas na pele):; dengue, chicungunha, herpes...

4b) Vacina de HPV responsável pelo surto de microcefalia (fonte twitter)5
O padrão espacial e demográfico também não dão apoio ao mito. Uma grande campanha de vacinação contra o HPV foi iniciada no primeiro semestre de 2014 e em todo o Brasil; se houvesse vínculo, o aumento dos casos deveria se dar entre o fim de 2014 e início de 2015 e não se concentrar nos estados do Nordeste.

Além disso, o público alvo foram meninas de 11 a 13 anos.

5) Mosquito transgênico causou o zika e a microcefalia (fonte: prefiro não linkar)
O ZIKV tem existência registrada há bem mais tempo do que os mosquitos transgênicos. Foi isolado pela primeira vez em 1947, a partir de macaco reso mantido em gaiola como sentinela para detecção de expansão de doenças, na floresta de Zika, em Uganda. Os primeiros surtos maiores fora da África foram detectados em 2007, em ilhas da Federação da Micronésia.

Os primeiros testes com mosquito transgênico no Brasil ocorreram em 2011, em Juazeiro-BA. O surto de microcefalia só ocorreu em 2015. Além disso os municípios com mais casos de microcefalia no Estado são: Salvador (53), Lauro de Freitas (4) e Camaçari (3) - cidades litorâneas a uns 500 km de Juazeiro.

Ou seja, os padrões de tempo e espaço são incompatíveis com a liberação de mosquitos transgênicos estar relacionada com a epidemia de zika e microcefalia.

6) A inexistência de epidemia de microcefalia nos países africanos prova que a zika não tem relação com a má formação (fonte: O Sul)***
Embora não haja registro de epidemia de microcefalia nos países africanos, a incidência da má formação é relativamente alta. Em um estudo com 3.196 recém-nascidos entre 2005 e 2007 no sudoeste da Nigéria, 340 apresentavam microcefalia, isto é, uma incidência de 10.638 casos a cada 100.000 nascimentos - compare-se com a média de 2010 a 2014 no Brasil de 5,38 casos a cada 100.000 nascimentos. Mesmo em situação de epidemia, aqui, por enquanto, a média nacional está em 60,64 casos por 100.000 nascidos vivos. Nessa região da Nigéria, durante o período do estudo, há uma incidência 175 vezes maior do que no Brasil durante a epidemia. Lá, a maior parte dos casos possivelmente tem a contribuição da infecção por citomegalovírus (CMV): virtualmente 100% dos recém-nascidos estão infectados.

Um estudo feito entre 2004 e 2005 com crianças em idade pré-escolar em Kinshasa, República Democrática do Congo, encontrou, entre as 90 crianças controle (sem infecção pelo HIV), 1 caso de microcefalia. Se isso reflete a incidência ao nascer, corresponderia a uma taxa de 1.111 casos em 100.000.

Faltam estudos para saber se alguma fração desses casos deve-se à incidência de zika. Afinal, foi com a epidemia no Brasil que se aventou a possibilidade de associação - portanto, ninguém poderia pensar em pesquisar isso antes. Desconsiderando-se que a microcefalia possa ser uma manifestação nova de infecção por zika - os vírus, ao se espalharem por novas áreas, podem sofrer mutações e, com isso, induzir novos sintomas -, há várias outras possibilidades. Pode ser que a infecção por zika por gestantes em países da África sub-saariana esteja também relacionada a casos de microcefalia fetal, mas esteja mascarado pela alta incidência geral da má formação. Como não parece haver uma flutuação na taxa de infecção por zika nesses países (repetindo que faltam informações para saber o quanto é verdade que realmente não haja essa flutuação), o nível de microcefalia não varia - permanece alto. Pode ser que, como o ZIKV circula há mais tempo por lá, boa parte da população apresente imunidade, não havendo infecção nova entre as gestantes. Pode ser que a relação entre ZIKV e a microcefalia dependa de outros fatores - como infecção pregressa por determinados sorotipos de vírus da dengue.

O motivo exato de não se ter registro de relação entre ZIKV e casos de microcefalia em países africanos ainda precisa ser esclarecido, mas desde já parece claro que não se constitui em prova de que essa relação não possa existir - ao contrário, dados da Polinésia Francesa e do Brasil indicam a associação.

7a) Carência nutricional - como falta de iodo e magnésio na dieta - como causa principal da microcefalia e fator de predisposição à microcefalia associada à zika (fonte: prefiro não linkar)***
A carência nutricional materna - sobretudo durante a gravidez - está associado a casos de microcefalia congênita. Mas não há registro de que tenha havido um surto de deficiência nutricional materna concomitante ao aumento atual dos casos de microcefalia.

A desnutrição também tende a tornar o organismo de modo geral mais vulnerável a infecções. Mas, novamente, não há registro de aumento súbito no nível de desnutrição dos brasileiros nas áreas com epidemia de zika e microcefalia.

Uma população bem nutrida certamente deve ser mais resistente a epidemias do que uma população com carências nutricionais, no entanto, dificilmente deixaria de haver uma alta do número de casos de zika e de microcefalia se, em tudo o mais sendo igual, o brasileiro tivesse acesso a uma dieta mais rica e equilibrada: epidemias de outras doenças como a dengue correlacionam-se muito mais com a população de vetores - no caso, os mosquitos - do que com o estado nutricional geral da população: o brasileiro não tende a ficar subitamente mal nutrido em época de calor e chuvas, quando os casos de dengue tendem a subir muito.

7b) Carência de vitamina D/falta de exposição ao sol como causa/agravante da zika (fonte: prefiro não linkar)8
Os padrões geográficos entre incidência de hipovitaminose D e febre zika não são compatíveis com a hipótese de relação causal entre elas. Se a falta de exposição ao sol tivesse uma influência significativa, então os estados do sul deveriam ser mais afetados do que os do NE.

Um dos textos assume que no Brasil haveria febre zika e não nos países africanos pela diferença de exposição à luz solar, mas não sabemos bem se realmente não há casos da doenças por lá pela falta de dados confiáveis - na epidemia recente, a transmissão autóctone de ZIKV foi registrada em Cabo Verde. Em anos passados, em vários países africanos houve casos reportados de febre zika, como na Nigéria, nos Camarões e na República Central Africana.

Curiosamente, na Nigéria não há registro de maior hipovitaminose D nas crianças com raquitismo, mas há registro de incidência bastante alta (83%) entre as mulheres da etnia fula. Entre as crianças sul-africanas, há insuficiência de vitamina D em 19% e em 7% delas há deficiência. A falta de exposição pode ser a causa especialmente por causa da vestimenta das mulheres de certas culturas e religiões, que devem ficar praticamente toda coberta. Há também carência da vitamina em função da dieta.

No Brasil, a hipovitaminose D é rara - ainda que possa ocorrer em nível subclínico, especialmente entre as mulheres idosas.

8) Remédios homeopáticos para prevenção e tratamento de zika (fonte: prefiro não linkar)****
Nas epidemias de dengue há vários casos de uso de formulações homeopáticas, inclusive por autoridades sanitárias locais, para o tratamento da doença - em especial como auxiliar ao tratamento convencional (não como substituto). Mas, de modo geral, falta um bom acompanhamento do resultado.

Os melhores resultados disponíveis, no entanto, indicam que *não* há eficácia na utilização de tratamentos homeopáticos contra a dengue.

Considerando-se que meta-análises mostram que a homeopatia não é melhor do que o placebo para uma ampla gama de doenças e condições: câncer, TDAH, asma, demência, indução de trabalho de parto, entre outros, seria surpreendente que funcionasse contra a dengue. Do mesmo jeito seria surpreendente que funcionasse contra a febre zika.

De todo modo, como se trata de uma epidemia recente, não há nenhum estudo para o uso de tratamento homeopático contra a infecção por ZIKV; portanto, não há nenhum dado científico a sustentar sua eficácia. (No caso da dengue, nem mesmo associações médicas homeopáticas sustentam que a homeopatia previna a doença.)

9a) O vírus zika chegou ao Brasil com os imigrantes haitianos (fonte: prefiro não linkar)5
O padrão temporal e geográfico são contrários ao mito.

Os haitianos entram pelo Brasil principalmente através do Acre, via Peru e Equador. A grande maioria dirige-se, então, para São Paulo, Minas Gerais e estados do Sul. Até 05/dez não havia registro nem epidemia de zika, nem de surto de microcefalia.

Além disso, esse fluxo migratório iniciou-se em 2010, com o grande terremoto de magnitude 7 que arrasou o país. E até o momento não há registro de surto de ZIKV no Haiti.

9b) O zika veio com os médicos cubanos (fonte: prefiro não linkar)7
Mais um caso em que o padrão temporal e geográfico não bate com a alegação.

Os primeiros médicos cubanos do Programa Mais Médicos chegaram ao fim de 2013. O estado que mais recebeu médicos do país caribenho é São Paulo - com 1.914 profissionais atuando em agosto de 2014 (apenas o 15° entre os estados com mais suspeitas de microcefalia até 15/dez/2015); seguido da Bahia: 1.067 (3° em microcefalia), Minas Gerais: 1.012 (13°), RS: 808 (20°, com apenas um caso suspeito) e PR: 704 (sem casos suspeito registrado até o momento). PE, com mais casos de microcefalia até 15/dez/2015, é apenas o nono estado com mais médicos de Cuba: 504.

Até o momento não há registro de ZIKV em Cuba.

10) A causa da microcefalia é a sífilis. Ocultam isso porque gastam mais no combate ao mosquito da dengue do que com a prevenção da sífilis. (fonte: prefiro não linkar)6
Infecção materna por Treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis, realmente é uma das causas de microcefalia. Mas não há registro de epidemia de sífilis no país (nos comentários, a leitora Sher Duarte observa que há profissionais de saúde que classificam o aumento do número de casos de sífilis desde 2007 como epidêmicoa; no entanto, o padrão de aumento não é de 10 vezes em um ano; em AC, o aumento foi de 96% nos registros entre 2013 e 2014; em PE, de 95%; no Paraná, de 63,1%; o padrão geográfico não bate com as taxas de aumentos de microcefalia)10. E o protocolo de diagnóstico de vírus zika nos casos suspeitos de microcefalia incluem testes sorológicos contra a sífilis.

De fato, a prevenção à sífilis dependeria apenas de uma mudança no comportamento sexual: uso de preservativo, principalmente. E há campanhas de incentivo ao sexo seguro, no contexto das DST (a sífilis é uma das várias DST) e aids. Mas o combate ao mosquito também envolveria basicamente uma mudança comportamental: as pessoas eliminarem locais de acúmulo de água da chuva em suas residências. E há campanhas para isso.

11) A relação entre o vírus zika e o surto de microcefalia foi confirmada pelo governo com base em um único caso de detecção do ZIKV em tecidos de um bebê. (fonte: prefiro não linkar)6
Na apresentação do "Protocolo de vigilância e resposta à ocorrência de microcefalia relacionada à infecção pelo vírus zika", o MS lista os indícios que relacionam o ZIKV com o surto de microcefalia.
"1. Constatação de que os padrões de distribuição dos casos suspeitos de microcefalia pós-infecciosa
apresentam características de dispersão e não indicam concentração espacial;
2. Constatação de que os primeiros meses de gestação das mulheres com crianças microcefálicas
correspondem ao período de maior circulação do vírus Zika na região Nordeste;
3. Constatação, após investigação epidemiológica de prontuários e entrevistas com mais de 60
gestantes, que referiram doença exantemática na gestação e cujas crianças com microcefalia,
sem histórico de doença genética na família e/ou exames de imagem sugestivo de processo
infeccioso; 
4. Constatação de alteração no padrão de ocorrência de microcefalias no SINASC (Sistema de
Informação de Nascidos Vivos), apresentando um claro excesso no número de casos em várias
partes do Nordeste;
5. Observações de especialistas em diversas áreas da medicina (infectologia, pediatria,
neuropediatria, ginecologia, genética, etc.) de que há alteração no padrão clínico individual
desses casos que apresentam características de comprometimento do Sistema Nervoso Central,
similar às infecções congênitas por arbovírus em animais, como descrito na literatura;
6. Evidência na literatura de que o vírus Zika é neurotrópico, demostrado em modelo animal e pelo
aumento na frequência de quadros neurológicos relatados na Polinésia Francesa e no Brasil após
infecção por Zika e confirmado em Pernambuco, após isolamento do vírus em paciente com
síndrome neurológica aguda;
7. Identificação de casos de microcefalia também na Polinésia Francesa após notificação do Brasil
à Organização Mundial da Saúde; 
8. Constatação da relação de infecção pelo vírus Zika com quadros graves e óbitos a partir da
identificação de casos que evoluíram para óbito em estados diferentes e ambos com
identificação do RNA viral do Zika e resultados negativos para os demais vírus conhecidos, como
dengue, chikungunya entre outros;
9. Identificação do vírus Zika em líquido amniótico de duas gestantes cujo feto apresentava
microcefalia, no interior da Paraíba;
10. Identificação de óbitos de recém-nascidos com malformações e padrão sugestivo de infecção no
estado do Rio Grande do Norte e outros Estados;
11. Identificação de recém-nascido, no estado do Ceará, com diagnóstico de microcefalia durante a
gestação e resultado positivo para o vírus Zika, tendo evoluído para óbito nos primeiros 5
minutos de vida."

Pelos dados divulgados no boletim do dia 15/dez, dos casos suspeitos de microcefalia já analisados, em 134 foi diagnosticada a zika e em 102 houve descarte da presença do vírus. Outros 2.165 casos estão sob investigação. (Na verdade, os casos de confirmação é de diagnóstico inicial de microcefalia. Os casos de microcefalia com confirmação de presença de ZIKV até 23.jan.2016 são 6.)11

12) A recomendação pelo Ministério da Saúde para que as mulheres não engravidem é para controlar as mulheres (fonte: prefiro não linkar)6
O MS *não* fez recomendação para que as mulheres não engravidem. Nas orientações às gestantes, o MS diz explicitamente:
"Não há uma recomendação do Ministério da Saúde para evitar a gravidez. As informações estão sendo divulgadas conforme o andamento das investigações. A decisão de uma gestação é individual de cada mulher e sua família."

Agora, de fato, há profissionais de saúde, inclusive ligados aos órgãos do MS, que fazem a recomendação de evitar a gravidez enquanto houver a epidemia de zika. Mas é uma recomendação, não uma imposição. A decisão final é da mulher.

*Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
**Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
***Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
****Upideite(11/dez/2015): adido a esta data.
5Upideite(19/dez/2015): adido a esta data.
6Upideite(23/dez/2015): adido a esta data.
7Upideite(27/dez/2015): adido a esta data.
8Upideite(25/jan/2016): adido a esta data.
9Upideite(31/jan/2016): adido a esta data.
10Upideite(05/fev/2016): adido a esta data.
11Upideite(05/fev/2016): corrigido a esta data.

Upideite(27/jan/2016): Veja também
Educação na Web/Material de apoio docente para Zika (material produzido pela turma de 2015 da disciplina Internet no Ensino de Ciências e Biologia, ministrada pelo Dr. Átila Iamarino e pela Profa. Dra. Sônia Lopes.
Zika: "Brigada" Anti-Boato (Canal do Pirulla)
Zika e os boatos zicados (Canal do Pirulla)

Parte 2 da lista.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Microcefalia e zika: mudança de critério *aumentou* importância do surto

Saiu o novo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde sobre os casos de microcefalia, o primeiro desde a alteração do critério, se, como desconfiaram alguns, essa mudança tivesse sido introduzida para diminuir o impacto do surto, bem, o que ela fez foi *aumentar* a diferença entre a média dos anos anteriores e o total de casos em 2015: com os valores do último boletim, o aumento da incidência sobre a média era de 8 vezes, agora é de mais de 11 vezes.*

Tabela 1. Casos suspeitos de microcefalia no Brasil.
Até 05/dez/2015. Fonte: MS.
região casos
2015
média
2010-2014
2015/média
Brasil 1.761 156,2 11,3
PE 804 8,6 93,5
PB 316 4,2 75,2
BA 180 10,6 17
RN 106 1,8 58,9
SE 96 1,6 60
AL 81 3,4 23,8
CE 40 6,6 6,1
MA 37 3 12,3
PI 36 3 12
TO 29 1,2 24,2
RJ 23 12,4 1,9
MS 9 0,8 11,3
GO 3 3 1
DF 1 2,2 0,5

Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro não parecem estar em meio a um surto local de microcefalia: com número de casos em 2015 não muito maior (no caso do DF, menor) do que a média dos anos anteriores.

No protocolo de vigilância de microcefalia e zika, do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia no Brasil, há algumas estimativas para os níveis inferior e superior da incidência de zika em várias unidades da federação. O texto reconhece que é uma estimativa bastante limitada. Plotando-se os valores contra a incidência de microcefalia em 2015, não parece haver uma relação entre os números (Fig. 1).

Figura 1. Casos reportados de microcefalia x incidências estimadas de infecção por zika na população. Fonte: MS.

*Upideite(08/dez/2015): Pode-se argumentar, não completamente desprovido de razão, que é arriscado dizer que o aumento se deva à mudança de critério - estritamente ter-se-á razão: certamente mais casos novos seriam incluídos no novo boletim com o critério antigo. Não obstante, a média entre 2010-2014 não foi alterada. Não sei se os valores incluíam ou não os casos de bebês com perímetro cefálico entre 32,1 e 33 cm. Se incluem, significa que a base é ainda menor - ou seja, o aumento é ainda maior. Se não incluem, a comparação dos valores do boletim anterior é que estavam artificialmente infladas, ainda assim os novos números são maiores.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Entrevista com uma médica geneticista - Lavinia Schüler Faccini

O Ministério da Saúde anunciou uma alteração no critério de diagnóstico de bebês com microcefalia. Até então, a medida de perímetro cefálico adotada era de 33 cm ou menos; a partir de 04/dez/2015, um novo valor foi adotado: de 32 cm ou menos.

Abaixo segue entrevista concedida gentilmente pelo facebook pela Profa. Dra. Lavinia Schüler Faccini, médica geneticista da UFRGS e presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, sobre a mudança.
------------------
GR. Basta o bebê ter 32 cm de perímetro cefálico (PC) ao nascer para ser considerado microcefálico ou há outros exames complementares (quais)? Na medição, de acordo com o modo como a fita é alinhada, não pode haver alteração do valor?
LF. O perímetro cefálico de 32 cm é baseado em evidências científicas, literatura internacional, critérios adotados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e significa que esta circunferência é inferior a dois desvios padrão em relação à média da população e, crianças nascidas de 40 semanas, ou o que chamamos a termo. O ideal seria que sempre fosse usado o gráfico de perímetro cefálico de acordo com a idade gestacional e sexo do paciente, mas sabemos que isso não acontece na prática dos berçários, então para RNs a termo foi solicitado fixar o ponto de corte em 32 cm, ou seja, um ponto de corte mais adequado (aproximado a definição internacional de microcefalia).

No caso de usar 33 cm, incluiríamos 12,5% para RNs meninos e 23% de meninas, o que é completamente normal para um RN a termo, ou seja, muitas crianças serão triadas desnecessariamente (e isso inclui radiação de uma tomografia computadorizada), além de angústia desnecessária aos pais, devido a um ponto de corte equivocado.

É claro que a medida do PC deve ser acompanhada mensalmente após o nascimento e qualquer desaceleração do PC que coloque a medida da criança com PC abaixo de -2DP também deve levantar a suspeita e notificação do caso como deve ocorrer com qualquer lactente que mantém puericultura.

GR. Nas redes sociais, houve quem considerasse a alteração do critério de inclusão de casos suspeitos de microcefalia de 33 cm de PC ao nascer para 32 cm como uma medida do governo para diminuir o total de casos e, assim, a gravidade do surto de microcefalia. Qual a real motivação que levou o Ministério da Saúde a adotar o novo critério? E como isso afeta a situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN)?
LF. Parte já está explicada acima, mas é importante salientar que qualquer mãe que tiver SUSPEITA ou CONFIRMAÇÃO de infecção por zika vai ter seu bebê examinado e cuidado, independente do perímetro cefálico.

GR. Na ficha de notificação é registrado o tamanho do perímetro cefálico dos bebês ou apenas o estado de microcefalia (isto é, aponta apenas que se trata de indivíduo microcefálico, sem especificar o tamanho)?
LF. Deve ser registrado o perímetro cefálico.

GR. Esse valor de 32 cm é critério universal ou varia de país para país e de região para região e de acordo com a época?
LF. Como falei acima o ideal é medir e comparar com as curvas de crescimento considerando a idade gestacional e o sexo do bebê. Mas se isto não for viável, o PC de 32 cm é uma boa medida para bebês nascidos A TERMO.
------------------

sábado, 5 de dezembro de 2015

Manda nudes: divulgando ciências no snapchat (humor)

O Rubens Pazza, do Rock com Ciência, no twitter pergunta se é possível fazer DC no snapchat. Bem, sempre se pode fazer uso criativo de redes sociais e aplicativos.

Mas como divulgar ciências através de nudes? Aqui algumas sugestões da equipa de um homem só do GR.

Placa da Pioneer 10 em alumínio folheado a ouro. Fonte: Nasa.
Rato-toupeira pelado. Que não é rato, nem toupeira. Mas certamente pelado.
Mamífero eussocial. Fonte: Wikimedia Commons.
Camundongo nude. Com timo pouco desenvolvido a linhagem foi desenvolvida para apresentar nenhuma
ou poucas células T de defesa, permitindo várias pesquisas sobre doenças. Fonte: Wikimedia Commons.
O Macaco Nu. Best seller de Desmond Morris sobre como os
humanos se comparam com outras espécies animais. Fonte: Amazon.
Ok, não precisa ser apenas com nudes. Use com sabedoria.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Microcefalia e zika: o Ministério da Saúde precipitou-se em declarar associação?

Resposta curta: Não.

Mas é uma dúvida pertinente. Duas pessoas bastante bem informadas levantaram dúvidasquestionamentos.



Em primeiro lugar, é bom dizer que o Ministério da Saúde *não* anunciou uma relação de causa e efeito, apenas considerou oficialmente que há sim uma relação entre o vírus zika (ZIKV) e o surto de microcefalia nos estados do Nordeste. Agora, qual a natureza exata dessa relação é algo ainda por se estabelecer.

Mas por que o MS declarou que há uma relação? Não poderia ser por puro acaso, ainda mais que é uma amostragem pequena?

Não temos uma boa estimativa do tamanho da incidência de ZIKV nos estados. Na Bahia, uma estimativaavaliação é de que seja na ordem de 275 casos em 100.000 mil. (A estimativa é muito complicada pela falta de métodos de detecção em kits; para confirmação é preciso recorrer a análises laboratoriais um tanto trabalhosas como o RT-PCR.) Se pudermos extrapolar esse valor para o país, as chances de, ao acaso, um feto com microcefalia estar infectado com o vírus zika é de 1 em 363. As chances de, por acaso, as três amostras analisadas (incluindo as duas análises feitas pela Fiocruz com amostras da Paraíba, além do caso do Ceará detectado pelo Instituto Evandro Chagas mencionado na nota do MS) apresentarem a presença do ZIKV ésão de 1:363^3 ou cerca de 1 em 48 milhões.

Se multiplicarmos a estimativa de incidência do zika por 10 - superando em muito a incidência da dengue (com sintomas em geral mais graves): de 757 casos por 100.000 hab. - ainda assim as chances de associação ao acaso seriam de 1 em 48 mil. (Em havendo confirmação de muitos casos de microcefalia sem a presença de ZIKV, isso pode mudar, no entanto.**)

Além do Brasil, na Polinésia Francesa também detectou-se um aumento do número de fetos com má formação do sistema nervoso central (não necessariamente microcefalia) após epidemia de febre zika em 2013-2014.

Certamente não é em todo caso de microcefalia que será detectado o ZIKV - a má formação já ocorria no país, mas em uma frequência cerca de 8 vezes mais baixa. Considerando-se uma estimativa uniforme de 275 casos para 100.000 habitantes sobre o número de nascimentos registrados em 2013 (segundo o DataSUS), uma relação de 1:1 entre infecção e microcefalia explica bem os casos detectados até o momento nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas e Piauí (há uma superestimativa de até cerca de 3 vezes - isto é, ainda está dentro da ordem de grandeza do valor calculado); nos demais estados a incidência pode ser bem menor (ironicamente seria o caso da Bahia, onde a incidência foi estimada) ou pode ser o caso de que não ocorra necessariamente má formação na presença do ZIKV.

Nas unidades federativas do RJ, GO, MS e DF não parece ocorrer um surto de microcefalia - os casos em 2015 são similares à média da ocorrência nos anos anteriores. Os casos da Bahia e do Ceará surgem em uma situação intermediária com um aumento de pouco mais de 3 vezes em relação à média: podem estar dentro da variação normal sem relação com o ZIKV.

Tabela 1. Casos de microcefalia no Brasil até 01/dez/2015. Fonte: Ministério da Saúde.

UF média
2010-2014
casos
2015
aumento de
microcefalia
esperado
(incidência de
275/100 mil hab.)
casos/esp.
Brasil 156,2 1.248 7,99 7.986 6,40
PE 8,6 646 75,12 389 0,60
PB 4,2 248 59,05 156 0,63
RN 1,8 79 43,89 129 1,63
SE 1,6 77 48,13 94 1,22
AL 2,8 59 21,07 144 2,45
BA 10,6 37 3,49 559 15,11
PI 3,0 36 12 128 3,55
CE 6,6 25 3,79 343 13,74
RJ 12,4 23 1,85 616 26,78
TO 1,2 12 10 66 5,53
MA 2,0 12 5 316 26,35
GO 3 2 0,67 261 130,38
MS 0,8 1 1,25 116 116,31
DF 2,2 1 0,45 122 122,46

Upideite(02/nov/2015): O Átila Iamarino escreveu sobre o zika no Rainha Vermelha.*
Upideite(02/nov/2015): Um ponto que me esqueci de abordar. Seria preciso testar também crianças normais para ver se não têm zika? Um levantamento sistemático - incluindo crianças positivas e negativas para a microcefalia - iria nos trazer mais informações, porém não é algo essencial para se estabelecer a relação. Por exemplo, digamos que em uma cidade há um aumento expressivo de incêndios e suspeitamos que isso se deva (ou esteja relacionadoa) ao aumento da venda de velas. O fato de encontrarmos uma quantidade de velas acesas aumentada também nas casas que não pegaram fogo nos esclarece muito pouco sobre a causa dos incêndios em excesso. Nosso modelo não é que necessariamente o uso de vela leve a incêndios. Do mesmo modo não necessariamente precisamos ter um modelo em que necessariamente a presença de um patógeno leve ao desenvolvimento de um quadro patológico.
(Mais informativo seriam os casos em que casas que pegaram fogo não tinham velas. Do mesmo modo como mais informativos seriam os casos de microcefalia sem o vírus zika.)

*Upideite(02/nov/2015): Manterei aqui uma lista de postagens na blogocúndia cientófila lusófona sobre o zika.
Do Nano ao Macro: O que sabemos sobre o Zika?
Rainha Vermelha: Zika vírus e suas complicações
  Zika, patentes, Rockefeller e a diferença entre saber e entender
  Porque a transmissão sexual de zika não é preocupante
Café na Bancada: Zika, dengue ou chikungunya? Prepare o seu Natal!
Dotô, é virose?: Dotô, deu zika?
   Dotô, tô grávida e com medo do zika, o que eu faço?
Nerdologia: Vírus Zika (vídeo)
Coluna Ciência: O mosquito da microcefalia
Canal do Pirulla: Zika: 'brigada' anti-boato
  Zika e boatos zicados
  Zika: Água parada pra combater mosquito???
Carlos Orsi: Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

As atualizações da lista de postagens será feita agora em uma página especial sobre o tema. (Upideite(06/fev/2016)

**Upideite(03/dez/2015): No dia 02/dez/2015, a Secretaria de Saúde de MG comunicou 5 casos de microcefalia. Em 2 casos não foi detectado o zika, os outros 3 ainda estavam sob análise. Em MG ainda não há confirmação de caso de transmissão autóctone de zika na população. No dia 03/dez/2015, o número de casos notificados desde o dia 11/nov/2015 subiu para 11. No total, desde janeiro, até o momento, são 22 casos de microcefalia em MG. Não sei qual a média de incidência de microcefalia no estado em anos anteriores. Mas esses 22 casos correspondem - usando-se o número de nascimentos de 2013 - uma incidência de 8,51 casos por 100.000 nascidos vivos; não muito diferente da média nacional de 5,38 por 100.000 nascidos vivos em anos anteriores à epidemia de ZIKV - a média nacional para este ano está em 42,97 casos por 100.000 nascimentos, em PE e PB está em torno de 450 casos por 100.000.***

Upideite(03/dez/2015): Pelo twitter Carlos Hotta questiona a aleatoriedade da amostragem:
Enviei um email ao Instituto Evandro Chagas perguntando a respeito. Publico a resposta assim que a obtiver. Se a amostra não for aleatória em relação ao casos de zika - por exemplo, tiverem examinados somente os casos de microcefalia com suspeita forte de infecção prévia de zika pela mãe/gestante -, naturalmente a probabilidade é alterada.

Se foram analisados apenas os casos em que as gestantes apresentaram exantemas durante a gravidez, tomando-se o caso de PE como indicador, em que, de 11 amostras suspeitas de pacientes (não necessariamente gestantes), 4 foram confirmados, as chances sobem para (4/11)^3 ou 1 em 21. Se for como no CE, em que de 14 amostras, 10 foram positivas, as chances serão de 1 em 3.

Por outro lado, a própria concentração de casos suspeitos entre as grávidas tornaria a ligação ainda mais provável. A um nível de incidência de 275 casos por 100.000 habitantes, entre os 1.248 casos, seriam esperados 3,4 casos - usando o nível de positividade do CE, seriam, então, apenas 4,76 ~ 5 as gestantes a relatarem manchas vermelhas durante a gravidez. Só no RJ, com 23 casos, 8 gestantes relataram exantemas ao longo da gravidez.

***Upideite(04/dez/2015): A SES-MG informa que os casos registrados no estado em 2015 estão dentro da normalidade esperada. De 2003 a 2014 foram 193 casos de microcefalia registrados em MG, uma média de 16 casos por ano.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Como é que é? - Prêmios de loteria sempre saem para cidades pequenas e desconhecidas?

SempreToda vez que um prêmio gordo é sorteado na loteria - especialmente a Mega Sena acumulada - há comentários de que sempre é sorteado algum bilhete vendido no cafundó do Judas (mesmo quando sai para a capital - seria a exceção apenas).

Fazendo um levantamento dos últimos 100 ganhadores (concursos 1530 a 1764), sem surpresas (ao menos do ponto de vista matemático, mas para os que defendem que apenas apostas feitas em cidades perdidas do interior do Brasil são premiadas - geralmente atreladas a suspeitas de fraudes - um resultado difícil de explicar), a cidade com mais bilhetes premiados é São Paulo, SP (com 15 bilhetes ganhadores), seguida de Rio de Janeiro, RJ (com 9 apostas vencedoras).

Se usarmos o tamanho populacional como proxy do número de apostadores por localidade, teremos o gráfico da Fig. 1.



Figura 1. Relação entre tamanho populacional e número de ganhadores. Cidades com mais habitantes têm um número maior de ganhadores na Mega Sena.

Uma simples correlação linear com coeficiente de determinação de 94,22% é obtida. Ou seja, o número de ganhadores por cidade parece seguir a proporcionalidade do número de habitantes - quanto maior a cidade, mais ganhadores - como esperado ao acaso, com a suposição de que a fração de apostadores seja mais ou menos constante entre as cidades.

Alguns fatores podem explicar a persistência do mito de que nunca - ou quase nunca - os prêmios saem para cidades maiores. De um lado, realmente os prêmios saem com mais frequência para cidades *menores* (ao menos menores do que as megacidades com mais de 1 milhão de habitantes). Como assim? Não acabamos de mostrar que quanto maior a cidade, maior o número de ganhadores? Sim, mas, em conjunto, há mais pessoas em cidades menores do que em cidades maiores no Brasil. Dos cerca de 205 milhões de brasileiros (cuidado! contém paywall poroso), 22% moram em uma das 17 cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Muito, mas isso significa que 78% moram em um dos 5.553 municípios com menos de 1 milhão de almas. 29,9% dos brasileiros vivem em um dos 41 municípios com mais de 500 mil habitantes; 56% em uma das 304 cidades com mais de 100 mil habitantes.

[Na verdade, na nossa amostra, há uma tendência a haver um número *maior* de ganhadores nas cidades *maiores* do que o que seria o esperado apenas pelo tamanho da população se o número de apostadores fosse proporcional ao número de habitantes.  41 das apostas são de cidades com mais de 1 milhão de habitantes; 13 em cidades entre 500 mil e 1 milhão; 15 de cidades entre 100 mil e 500 mil e 44 de cidades com menos de 100 mil habitantes.

Aparentemente, não apenas a noção comum de que tendem a ganhar as apostas feitas em pequenas cidades não se verifica, como se verifica o *oposto*. (Claro que aqui não se está analisando diretamente se a probabilidade de uma aposta unitária varia de acordo com o tamanho da população, bom que se diga. Ou seja, não deve adiantar, então, apostar em lotéricas de cidades grandes esperando que, com isso, suas chances aumentem.) Considerando-se que isso seja generalizável, isso poderia se dar por diferentes motivos (não mutuamente excludentes): em grandes cidades, pode ser mais fácil o acesso a lotéricas (do que em cidades em que a maioria da população viva na zona rural, p.e.); pode haver mais dinheiro circulando de modo a que os atuais R$ 3,50 na aposta simples da Mega Sena não signifiquem uma sacrifício muito grande nas finanças pessoais; a cultura pode ser mais conservadora, condenando apostas, em cidades interioranas pequenas...]

Mas o grosso do efeito da persistência do mito pode ser pela seleção de indícios. Só nos lembramos das vezes em que os prêmios saem em cidades de que nunca ouvimos falar. E a cada vez que um prêmio sai de lá, consideramos isso um reforço à hipótese. Ignorando as vezes em que sai para grandes cidades - considerando os casos como exceção.

Uma parte secundária deve ser pelo reforço gerado pelas vezes em que o mito é repetido - criando uma sensação de que a concordância geral implica na veracidade da afirmação. Parte das pessoas também têm uma tendência a acreditarem em teorias da conspiração: para estas talvez tentativas como esta de análise objetiva não apenas sejam infrutíferas como sirvam como reforçadores de crença (podem considerar que esforços em refutar mitos sejam provas de que há uma conspiração em curso, havendo esforços para desacreditar quem denuncia a trama).

Upideite(29/nov/2015): Aqui o gráfico (Fig. 2) contando todos os 283 ganhadores a partir do concurso 1077 (na base de dados da Caixa, o local de venda do bilhete premiado é identificado apenas por estados).
Figura 2.  Relação entre tamanho populacional e número de ganhadores. Em azul claro, média dos tamanhos populacionais das cidades com o mesmo número de ganhadores; notar a escala logarítmica do eixo x - a curva descreve uma relação linear entre as variáveis. 

Upideite(29/nov/2015): Gráfico similar (Fig. 3) é obtido quando plotamos a população das cidades contra o montante total de prêmios da sena.

Figura 3. Relação entre tamanho populacional e o montante de prêmios da sena. A relação é linear, maior a cidade, mais dinheiro recebe em prêmios - valores atualizados pelo IPCA (a escala x está em log).

Se consideramos a média dos valores da premiação, não notamos nenhuma tendência (Fig. 4).

Figura 4. Tamanho da população contra os valores médios da premiação. Escala dilog. Notar o baixo coeficiente de determinação, indicando a ausência de correlação.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Divulgação Científica nas Interwebs: dos blogs às mídias sociais

Dia 16.nov, o Rafael Soares, do Scienceblogs Brasil/Numina e eu conversamos com os alunos da disciplina Seminários de Ciência e Cultura, do curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor, a respeito da divulgação de ciências em blogues e outras mídias sociais.

Minha apresentação segue abaixo.


Sim, alguns esláides repeti da apresentação mais longa que fiz sobre a DC em biologia na internet para o CAEB.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 24

Seguem minhas anotações de dois artigos a respeito do engajamento público de ciências com metodologias voltadas especialmente para a governança de políticas públicas de temas que demandam conhecimento científico mais intensivo.

--------------
Macnaghten, P. 2013. The future of science governance: publics, policies, practices. Pp: 31-48. In: Vogt, C. et al. (orgs.) Comunicação e Percepção de Ciência e Tecnologia (C&T). De Petrus et Alii. 180 pp.

Rowe, G. & Frewer, L.J. 2005. A typology of public engagement mechanisms. Science, Technology, & Human Values 30(2): 251-90. doi: 10.1177/0162243904271724.


Tabela 1. Modelos de engajamento público na elaboração de políticas públicas. (Macnaghten 2013)
Modelo de Engajamento Público Processos de Engajamento Público
Estágio do Processo de Inovação Relação com o Resultado da Política Tópico de Discussão Posicionamento dos Sujeitos Status dos Objetivos da Política
À montante (Upstream) Inicial (early) Vago Mundos possíveis Exploratório Emergente
Intermediário Honesto (Honest broker) Meio (midstream)/fim (downstream) Forte Mundos conhecidos Reflexivo Ambivalente
Advogado da causa (Issue advocate) Meio/fim Forte Mundos conhecidos Maleável Predeterminado

Modelos de engajamento público (Macnaghten 2013)
*Modelo à montante. engajar o público em conversas exploratórias sobre uma gama de questões postas por tecnologia e conhecimento científico em um estágio relativamente inicial do processo de inovação.
*explorar os modos como a tecnologia emergente é imaginada pelos atores sociais, explorar futuros mundos possíveis, questões éticas e sociais associadas, deliberar sobre fatores que moldam a preocupação pública, esperança e possibilidades.
*frouxamente amarrado a objetivos e resultados específicos das políticas públicas; participantes são "sujeitos exploratórios" que desenvolvem novas identidades e posições através do próprio diálogo.

*Modelo do intermediário honesto. articulação entre as diferentes opções de política pública com um ramo específico das ciências já está amadurecido e dilemas ético-sociais já aparentes.
*fomentar deliberações públicas para pesar os prós e contras dos diferentes cursos de ação, articular as condições em que diferentes políticas são aceitáveis.
*relação mais próxima com o resultado de políticas públicas, menos exploratório; "sujeitos reflexivos" que contemplam as condições sobre se e como proceder com domínios controversos das ciências.

*Modelo do advogado da causa. já existe um objetivo conformado e acordado da política pública.
*deliberar sobre as condições sob as quais os objetivos podem ser realizados e sobre os diferentes modos em que podem ser alcançados por meio de um melhor entendimento das visões, crenças e necessidades do público.
*há muito menos espaço para explorar o enquadramento dos objetivos da política e discutir alternativas; "sujeitos maleáveis" que podem ceder em suas visões e posições através da provisão de informações e argumentos das instituições patrocinadoras.

Tabela 2. Tipos de engajamento público (Rowe & Frewer 2005)
Fluxo da informação
Comunicação pública
Patrocinador (sponsor) ---> Representantes do público (public representatives)
Consulta pública
Patrocinador <--- Representantes do público
Participação pública
Patrocinador <---> Representantes do público

(Rowe & Frewer 2005)
Mecanismos de engajamento (genérico) e iniciativas ou exercícios (específico) de engajamento.
Patrocinador (sponsor). Parte que comissiona a iniciativa de engajamento. Em geral governos e agências regulatórias, ocasionalmente representantes do público.
Organizador (organizer). Parte que conduz o exercício de engajamento. Pode ou não ser o patrocinador.

Tipos de engajamento público (Rowe & Frewer 2005)
Comunicação pública (public communication). Informação repassada dos patrocinadores da iniciativa para o público: flui unidirecionalmente. Não há propriamente um envolvimento do público pois seu feedback não é requerido ou não é especificamente o que se busca. Quando o público procura fornecer informação, não há um mecanismo especificado de antemão, no máximo, registra-se essa informação.
Consulta pública (public consultation). Informação passada dos membros do público para os patrocinadores da iniciativa, segundo processo iniciado pelos patrocinadores. Não há um diálogo formal entre membros individuais do público e os patrocinadores. Informação fornecida pelo público é tomada como representativa da opinião a respeito do tópico.
Participação pública (public participation). Informação trocada entre membros do público e patrocinadores. Algum grau de diálogo (que ocorre geralmente em grupos) entre membros das partes em diferentes proporções (dependendo do mecanismo em questão) até mesmo com apenas representantes do público (que recebem informações adicionais dos patrocinadores antes de responderem). No lugar de respostas simples e cruas, o diálogo e negociação muda a opinião das partes (público e patrocinadores).

Competência/eficiência (Rowe & Frewer 2005)
Comunicação pública. Maximização da transferência de informações relevantes dos patrocinadores de modo eficiente (com mínima perda de informação) para o maior número de membros da população relevante, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (público/participantes).
Consulta pública. Maximização da transferência de informações relevantes do maior número de membros da população relevante de modo eficiente (com mínima perda de informação) para os patrocinadores, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (os patrocinadores).
Participação pública. Maximização da transferência de informações relevantes do maior número de todas as fontes relevantes de modo eficiente (com mínima perda de informação) para as demais partes, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (patrocinadores e participantes) e a combinação disso em uma composição acurada.

Tabela 3. Variáveis dos mecanismos de engajamento. (Rowe & Frewer 2005)
Variável do mecanismo Níveis da variável Aspectos influenciáveis da Efetividade Tipos relevantes de engajamento
Método de seleção dos participantes Controlado/Não controlado Maximização de participantes relevantes Comunicação
Consulta
Participação
Facilitação da eliciação da informação Sim/Não Maximização de informações relevantes dos participantes Consulta
Participação
Modo de resposta Ilimitado (aberto)/Limitado (fechado) Maximização de informações relevantes dos participantes Consulta
Participação
Insumo (input) de informação Informação pré-definida (set information)/Informação flexível Maximização de informações relevantes dos patrocinadores Comunicação
Meio de transferência de informação Face a face/Não face a face Maximização de transferência e processamento de informações relevantes Comunicação
Consulta
Participação
Facilitação da agregação Combinação estruturada/Combinação não estruturadaAgregação das informações dos participantes Consulta
Participação

Tabela 4. Preocupações do público em diferentes modelos de engajamento público. (Macnaghten 2013)
Modelo de Engajamento PúblicoPreocupações do Público sobre Governança das Ciências
PropósitosConfiançaInclusãoVelocidade e direçãoÉtica, compromisso (trade-off) e equidade
À montante (Upstream)As motivações dos cientistas são boas e transparentes?As instituições financiadoras estão direcionando a pesquisa para o interesse público?As contribuições do público têm o poder de moldar a política econômica das ciências?As ciências responderão ao "bem social"? Ela respeitará a ordem natural?Valores individuais e de mercado sobrepujarão valores coletivos?
Intermediário Honesto (Honest broker)A pesquisa demonstra respeito aos valores humanos básicos?A ciência e as instituições financiadoras são independentes dos interesses?Os valores éticos e sociais informarão genuinamente a deliberação sobre a política?Pressões corporativas de curto prazo sobrepujarão considerações éticas/sociais?O impacto da ciência irá impactar de modo injusto grupos vulneráveis?
Advogado da causa (Issue advocate)Os objetivos predeterminados da política são legítimos e plausíveis?As instituições políticas merecem confiança na busca por suas intenções declaradas?Os objetivos das instituições políticas estão abertos aos desafios pela contribuição do público?Pressões corporativas dirigirão as ciências às custas de considerações éticas/sociais?O benefício social prometido pela ciência será suficiente para suplantar considerações éticas/sociais irrefletidas?

--------------

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Yo no creo en brujas... 3

...pero en zombis...

A Nature fez uma compilação de 6 "zumbis" científicos - resultados ainda sem boas explicações e difíceis de se confirmar e de se refutar:

1) Padrões não-aleatórios de flutuações de temperatura na radiação cósmica de fundo;
2) Variações periódicas de sinais nos detetores de cristais de iodeto de sódio do projeto DAMA;
3) Excesso de raios gama emitidos pelo centro da Via Láctea;
4) Tamanho 4% menor do próton quando medido pela interação com múons;
5) Raios cósmicos ultra-energéticos;
6) Inconsistências entre as medidas da constante gravitacional universal G.

Em nov/2014, a National Geographic fez uma lista de 5 parasitas "zumbis" que alteram o comportamento de seus hospedeiros:

1) Larvas de vespas parasitóide costa-riquenha Hymenoepimecis argyraphaga fazem com que a aranha Leucauge argyra produza um casulo com sua seda onde a larva se desenvolve;
2) A vespa Ampulex compressa injeta veneno na cabeça da barata permitindo-lhe guiar a vítima pela antena até o ninho, onde deposita ovos no interior da vítima - as larvas eclodem alimentando-se da barata viva;
3) O tremátodo Dicrocoelium dendriticum infecta ruminantes como vacas e carneiros, em cujas fezes são excretados os ovos. Estes são ingeridos pelo caramujo Cochlicopa lubrica, as larvas eclodem e são regurgitadas pelo caramujo envolvidas em uma bola de muco. As larvas são ingeridas pelas formigas Formica fusca. Sob influência das larvas do tremátodo, as formigas escalam as folhas das gramas, sendo ingeridas pelos ruminantes, onde completam o ciclo;
4) Larvas do tremátodo Euhaplorchis californiensis saem de caramujos marinhos Cerithidea californica e infectam o peixe Fundulus parvipinnis. Com a química cerebral alterada, particularmente os níveis de serotonina e dopamina, o peixe passa a se contorcer e a saltar, atraindo atenção de aves piscívoras onde completam seu ciclo - os ovos são liberados nas fezes, devoradas pelos caramujos.
5) Larvas nematomorfas gordiídeas parasitam artrópodos como grilos e outros insetos, quando próximos a corpos d'água, sob manipulação dos parasitas, o hospedeiro pula na água, onde morre afogado, liberando a larva, que completa seu ciclo de vida no ambiente aquático. Não se sabe como os artrópodos são infectados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Carne vermelha, processada e câncer 2

Ok, pelos melhores dados disponíveis, o consumo de carne processada aumenta o risco de câncer e provavelmente o consumo elevado de carne vermelha também.

Não há motivo para alarme, embora haja boas razões para se moderar no consumo de carne, em especial, das processadas. Considerando-se o provável perfil socioeconômico dos leitores deste blogue, a redução da ingestão seria aconselhável: não apenas por causa do câncer, mas por causa dos riscos de doenças cardiovasculares e diabetes.

Mas é bom colocar em uma perspectiva global quando se consideram políticas nacionais e não apenas orientações específicas para determinados indivíduos.

As estimativas de câncer colorretal no Brasil são de 32.600 novos casos por ano. Isso corresponde a 1,14% de chances de um indivíduo desenvolver câncer colorretal em um prazo de 70 anos. Segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar de 2008/9, o brasileiro consumia 74,6 g de carne vermelha por dia e 15,8 g diários de carne processada. Pelos dados da OECD/FAO, o consumo é praticamente idêntico: 39,3 kg/habitante-ano em 2014. 107,7 g por dia em peso de carcaça em carnes vermelhas - o que corresponde a 78,17 g em carne pra consumo.

Considerando os valores do POF para consumo de carne processada a estimativa da OECD/FAO para carne vermelha, isso corresponde a um risco 18,98% aumentado.

Se os 200 milhões de brasileiros virassem vegetarianos, o risco médio de se desenvolver durante a vida câncer colorretal seria de 0,96%. E seriam evitadas cerca de 2.800 mortes por ano em decorrência do câncer de intestino grosso e reto.

Em 2015, 10,8% dos brasileiros fumam. Por ano, 27.330 novos casos de câncer no pulmão são diagnosticados no Brasil; com ocorrência de 24.490 mortes. 90% dos casos são relacionados ao consumo de tabaco. Mais de 22.000 mortes por ano seriam evitadas se os 21,5 milhões de brasileiros tabagistas deixassem de fumar. O risco de se desenvolver câncer pulmonar ao longo da vida sem fumar é de 0,09%. Os fumantes têm uma chance de 7,98% de desenvolver câncer pulmonar em algum momento da vida. Os R$ 41 milhões anuais do Programa Nacional de Controle do Tabagismo têm evitado cerca de 7.500 mortes anuais - R$ 5.360 por morte evitada.

Não encontrei o valor dos investimentos na "Campanha Nacional de Enfrentamento do Câncer Colorretal". Mas, considerando que em 2012, o consumo per capita médio era de 101,64 g/dia em equivalente de carcaça ou 73,87 g/dia em carne, ainda não surtiu muito efeito nos hábitos alimentares cárneos do brasileiro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Carne vermelha, processada e câncer

Já que estamos falando de câncer...

A Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, anunciou as conclusões gerais do relatório sobre a carcinogenicidade do consumo de carne vermelha e carne processada (como salsichas, linguiças, bacon...).

Uma dieta com alto consumo de carne vermelha foi classificada como "provavelmente carcinogênica a humanos" baseado em "indícios epidemiológicos limitados" (isto é, apesar da associação encontrada, a influência de outros fatores não pode ser excluída) de que há associação positiva entre consumo de carne vermelha e a incidência aumentada de câncer colorretal e em "indícios fortes de mecanismo explicativo".

O alto consumo de carne processada foi classificado como "carcinogênico a humanos" baseado em "indícios epidemiológicos suficientes" de que o consumo de carne processada causa aumento de incidência de câncer colorretal.

Traduzo abaixo parte do documento com perguntas e respostas elaborado pela IARC.
Atenção: não sou oncologista, não trabalho com pesquisa do câncer. Fiz o meu melhor esforço na tradução, mas não acredite no meu trabalho: deixei o link para o texto original para que se possa fazer a conferência. Siga as recomendações das autoridades sanitárias e médicas e de seu médico/nutricionista de confiança.
------------------------------
P. O que é considerado carne vermelha?
R. Carne vermelha se refere a toda carne muscular de mamífero, incluindo carne bovina, vitela, suína, carneiro, cavalo e bode.

P. O que é considerado carne processada?
R. Carne processada se refere à carne que foi transformada pela salga, cura, fermentação, defumação e outros processos para salientar o sabor e melhorar a conservação. A maioria das carnes processadas contém carne suína ou bovina, mas carnes processadas podem conter também outras carnes vermelhas, aves, miúdos e subprodutos como sangue. Exemplos de carnes processadas incluem salsichas, presunto, embutidos, carne enlatada, carne seca, bem como preparados e molhos a base de carne.

P. Carne processada foi classificada como carcinogênica a humanos (Grupo 1). Fumo e asbesto também são classificados como carcinogênicos a humanos (Grupo 1). Isso quer dizer que o consumo de carne processada é tão carcinogênico quanto o fumo e o asbesto?
R. Não. Carne processada foi classificada na mesma categoria de fumo e asbesto como causa de câncer (IARC Grupo 1, carcinogênico a humanos), mas isso NÃO significa que eles sejam igualmente perigosos. As classificações da IARC descrevem a força dos indícios científicos sobre um agente ser causador de câncer, e não avalia o nível do risco.

P. Que tipos de câncer são ligados ou associados ao consumo de carne vermelha?
R. O indício mais forte, mas ainda limitado, de associação com o consumo de carne vermelha é para o câncer colorretal. Há também indícios de ligação com câncer pancreático e de próstata.

P. Que tipos de câncer são ligados ou associados ao consumo de carne processada?
R. O grupo de trabalho da IARC concluiu que o consumo de carne processada causa câncer colorretal. Associação com câncer de estômago foi vista, mas os indícios não são conclusivos.

P. Quantos casos de câncer por ano pode ser atribuídos ao consumo de carne processada e vermelha?
R. De acordo com as estimativas mais recentes feitas pela Global Burden of Disease Project, organização independente de pesquisa acadêmica, cerca de 34.000 mortes por câncer no mundo são atribuíveis a dietas com alta quantidade de carne processada.

O consumo de carne vermelha ainda não foi estabelecido como causa de câncer. No entanto, se se provar que as associações relatadas são causais, o Global Burden of Disease Project estimou que dietas com alta quantidade de carne vermelha seriam responsáveis por 50.000 mortes por câncer no mundo.

Esses valores contrastam com cerca de 1 milhão de mortes por câncer ao ano no mundo devido ao fumo, 600.00 mortes anuais por consumo de álcool e mais de 200.000 mortes anuais por poluição do ar.

P. É possível de quantificar o risco do consumo de carne vermelha e processada?
R. O consumo de carne processada foi associadoa acom um pequeno aumento no risco de câncer nos estudos revisados. Nesses estudos, o risco geralmente aumenta com a quantidade de carne consumida. Uma análise dos dados de 10 estudos estimou que a cada porção de 50 gramas de carne processada consumida diariamente* aumenta o risco de câncer colorretal em cerca de 18%.

O risco de câncer relatado para o consumo de carne vermelha é mais difícil de se estimar porque os indícios de que carne vermelha causa câncer não é tão forte. No entanto, se a associação entre carne vermelha e câncer colorretal se mostrar causal, os dados dos mesmos estudos sugerem que o risco de câncer colorretal pode aumentar em 17% para cada porção de 100 gramas de carne vermelha consumida diariamente*.

P. O risco é maior para crianças, idosos, mulheres ou para homens? Algumas pessoas estão sob risco maior?
R. Os dados disponíveis não permitem conclusões sobre se os riscos diferem entre grupos diferentes de pessoas.

P. E quanto as pessoas que tiveram câncer de colo? Elas deveriam parar de comer carne vermelha?
R. Os dados disponíveis não permitem conclusões sobre riscos de pessoas que já tiveram câncer.

P. Eu devo parar de comer carne?
R. É sabido que o consumo de carne traz benefícios à saúde. Várias recomendações nacionais de saúde aconselham as pessoas a ingerirem uma quantidade limitada de carne processada e vermelha, que são ligadas a riscos aumentados de mortes por doenças cardíacas, diabetes e outras doenças.**

P. Que quantidade de carne é segura de se consumir?
R. Os riscos aumentam com a quantidade de carne consumida, mas os dados disponíveis para avaliação não permitem uma conclusão a respeito de se existe um nível seguro.

P. O que faz a carne vermelha e processada aumentarem o risco de câncer?
R. A carne é composta por múltiplos componentes, como ferro hêmico. A carne também contém compostos que se formam durante o processamento ou cozimento. Por exemplo, compostos carcinogênicos que se formam durante o processamento incluem compostos N-nitrosos e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. Cozinhar carne vermelha e processada também produz aminas aromáticas heterocíclicas, bem como outros compostos incluindo hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, que é encontrado também em outros alimentos e na poluição do ar. Alguns desses compostos são sabidamente carcinogênicos ou suspeita-se que sejam, mas a despeito desse conhecimento ainda não se compreende completamente como o risco de câncer é aumentado pelas carnes vermelha e processada.

P. Qual a recomendação da OMS para a prevenção do risco de câncer associado ao consumo de carne vermelha e processada?
R. A IARC é uma organização de pesquisa que avalia os indícios disponíveis sobre as causas de câncer, mas não faz recomendações de saúde como tais. Governos nacionais e a OMS são responsáveis por desenvolver orientações nutricionais. Esta avaliação pela IARC reforça a recomendação de 2002 da OMS de que as pessoas que comem carne deveriam moderar o consumo de carne processada para reduzir o risco de câncer colorretal. Algumas outras orientações alimentares também recomendam limitar o consumo de carne vermelha ou processada, mas estas são focas principalmente em reduzir a ingestão de gordura e sódio, que são fatores de risco para doenças cardiovasculares e obesidade. Indivíduos preocupados com câncer podem considerar reduzir seu consumo de carne vermelha e processada até orientações atualizadas relacionadas especificamente ao câncer sejam desenvolvidas.

P. Devemos comer apenas aves e peixes?
R. Os riscos associados ao consumo de aves e peixes não foram avaliados.

P. Devemos nos tornar vegetarianos?
R. Dietas vegetarianas e dietas que incluem carne têm diferentes vantagens e desvantagens para a saúde. No entanto, esta avaliação não compara diretamente riscos à saúde entre pessoas vegetarianas e que comem carne. Esse tipo de comparação é difícil porque esses grupos podem ser diferentes entre si de outras maneiras além do consumo de carne.

P. Há um tipo de carne vermelha que é mais segura?
R. Alguns poucos estudos investigaram os riscos de câncer associados com diferentes tipos de carne vermelha, como bovino ou de porco, e diferentes tipos de carnes processadas, como presuntos e salsichas. No entanto, não há informação suficiente para se dizer se riscos mais atos ou mais baixos são relacionados ao consumo de qualquer tipo particular de carne vermelha ou processada.

P. O método de conservação pode influenciar no risco (e.g. salga, congelamento profundo ou irradiação)?
R. Métodos de conservação diferentes podem resultar na formação de carcinogênicos (e.g. compostos N-nitrosos), mas se e quanto isso contribui com o risco de câncer é desconhecido.

P. Quantos estudos foram avaliados?
R. O Grupo de Trabalho da IARC considerou mais de 800 diferentes estudos sobre câncer em humanos (alguns estudos forneceram dados para os dois tipos de carne; no total, mais de 700 estudos epidemiológicos forneceram dados para carne vermelha e mais de 400 estudos epidemiológicos forneceram dados para carne processada).
------------------------------

 *Obs1. A expressão "diariamente" aqui é importante. Esse risco não é o mesmo para consumo ocasional - certamente bem inferior a isso. Por outro lado, claro não quer dizer que se se deixar de comer ocasionalmente - digamos consome-se cinco dias por semana -, o risco seja evitado ou sensivelmente diminuído.
**Obs2. O documento evita dar conselhos definitivos e categóricos a respeito do consumo de carne, pois envolve decisões pessoais (quando as leis e costumes locais assim o permitem) sobre o quanto de risco e custos as pessoas estão dispostas a assumir ao manter ou modificar certos comportamentos tendo em vista as recompensas que desejam obter: nutrição, prazer, ponderações éticas, evitação de doenças, diminuição de impacto socioambiental... As informações disponíveis são probabilísticas - nível de risco - e incompletas. É um cenário bastante frequente em decisões pessoais. Temos que saber lidar com isso.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails