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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bomba de chocolate: a comunicação científica ética

O biólogo e jornalista John Bohannon, criador do "Dance your PhD" e autor de um experimento de submissão de artigo falso para vários periódicos de acesso aberto, parece ter aprontado mais uma: em um artigo no site io9 "I fooled millions into thinking chocolate helps weight loss. Here' how." ["Enganei milhões fazendo-os pensarem que chocolate ajuda a emegrecer. Eis como."] ele revela ser o o 'autor' do 'estudo' que dizia que o consumo de chocolate ajudava a emagrecer e que teve uma boa cobertura (isto é, um generoso espaço foi disponibilizado) na mídia (corporativa e nas sociais), ele teria pregado uma peça com a intenção de demonstrar como o processo de apuração jornalística é falha.

Um pseudoexperimento foi realizado. Dados reais, mas obtidos com uma metodologia falha (p.e. não indicava o número de sujeitos experimentais em cada grupo), foram usados para produzir um artigo em que se 'demonstra' que comer chocolate todos os dias ajuda a perder peso.

O artigo Bohannon et al. 2015 Chocolate with high cocoa content as a weight-loss accelerator, International Archives of Medicine 8(55): 8 pp, não está mais disponível (embora possa, por enquanto, ser lido no cachê do Google - o abstract e o pdf). A revista não colocou nenhum aviso. Segundo o blogue Retraction Watch, o IAM alega que o artigo não foi, de fato, aceito e a publicação foi em decorrência de uma falha; mas, ao contrário da nota da revista, o artigo ficou no site por muito mais do que algumas horas, ficando desde abril até a revelação da farsa por Bohannon. (A IAM foi criada pela gigante Biomed Central em 2008 e mantida até 2014. Este ano, a revista passou para a iMedPub, da Internet Medical Society.)

Na Folha saiu na seção F5 (cuidado! contém paywall poroso), destinada a fofocas e bobagens em geral. Não encontrei matéria sobre isso no site do G1, nem no do Estadão.

Em 2012 um outro artigo foi publicado em uma outra revista com nome parecido, Archive of Internal Medicine (atualmente JAMA Internal Medicine), sobre putativos efeitos emagrecedores do consumo regular de chocolate. O estudo, Golomb BA, Koperski S, White HL. Association Between More Frequent Chocolate Consumption and Lower Body Mass Index. Arch Intern Med. 2012; 172(6): 519-52, foi citado pelo artigo de Bohannon e, à época, teve também uma boa cobertura pela mídia. Na Folha saiu um ano depois na seção Saúde e Equilíbrio (cuidado! contém paywall poroso).

Como dito, a intenção de Bohannon foi mostrar a falha no processo de apuração jornalística (e dar mais uma espicaçada nas publicações 'científicas' predadoras). Não é o primeiro experimento do tipo. Em outra área, temos, por exemplo, o "Abraço Corporativo". No fim das contas, qual o real valor do 'experimento' de Bohannon? Não é novidade a existência de tais falhas: o websítio Observatório da Imprensa decidadedica-se à análise das falhasdas patologias do jornalismo contemporâneo. Nem as denúncias. Nem esse tipo de denúncia por meio do logro intencional com posterior revelação 'bombástica': "rá, pegadinha do Mallandro!". Talvez um: "olhem só, vocês continuam errando". Ok, mas parece muito pouco por conta de um detalhe - dois.

Primeiro detalhe. Como no título do artigo no io9 de Bohannon, ele enganou milhões. Gary Schwitzer, no Retraction Watch, concede que Bohannon enganou mesmo foram só um punhado de jornalistas. Coube a estes a tarefa de enganar os milhões de leitores. De todo modo o efeito foi que milhões (a bem dizer é um chute em função do alcance potencial dos meios de comunicação que sabidamente deram espaço e tempo para apresentar os resultados do 'estudo') foram logrados. Isso era sabido que ocorreria se o objetivo do experimento fosse alcançado. A publicação do desmentido raramente tem a mesma repercussão do erro inicial. Não serão os mesmos milhões que serão 'desenganados'. Com a repercussão inicial das mídias sociais e a dinâmica que conhecemos, informações erradas e já desmentidas sempre retornam para nos assombrar (não é mesmo, Gilmar?).

Segundo detalhe. A despeito do que pensa Bohannon: "I don’t think I really put anyone at risk by getting them to eat a little chocolate." ["Não acho que tenha realmente colocado alguém em risco por fazê-lo comer um pouco de chocolate."], não é uma mentira completamente sem consequências. Dentre os milhões desinformados inicialmente (e os que continuarão a ser desinformados), haverá os que terão comido chocolate na esperança de emagrecer, mesmo em situações em que isso não seria recomendado: diabete, sobrepeso, intolerância à lactose ou alergia a algum componente do produto; ou pelo simples fato de se gastar dinheiro inutilmente (já que não se está a consumir apenas pelo prazer). Uma atenuante seria a existência de um estudo verdadeiro que sustenta a relação entre a ingestão de chocolate e o emagrecimento. No entanto, uma vez que o autor não acredita na veracidade dessa relação, ou que ela é ainda sem base suficiente, não há como tirar o corpo complemente fora em relação àsvista das consequências danosas potenciais da 'brincadeira'.

Isso Brohannon não discute em seu artigo de revelação do truque - embora alguns leitores o façam nos comentários. Não sei se ele submeteu seu projeto para algum comitê de ética. Não quero aqui crucificar o autor em sua tentativa, acredito, bem intencionada de esclarecer o modus operandi problemático do jornalismo (científico) atual. Apenas pincelar alguns aspectos que ficaram de lado na discussão principal a respeito desses problemas denunciados (a NPR traz também uma discussão dos aspectos éticos da diatribe do jornalista).

Pode ser que o saldo final do brinquedo seja positivo. Mas temos que colocar na balança os aspectos negativos também.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Normas sociais nas ciências? E daí?

O jornalista especializado em ciências, saúde e viagens Chris Woolston escreveu para a seção de notícias da Nature sobre uma discussão iniciada há pouco mais de um mês.

O geneticista Yoav Gilad publicou no twitter sua reanálise dos dados publicados em um artigo da PNAS contestando as conclusões do estudo.
A isso seguiu-se toda uma discussão. Woolston crê que isso éseja uma demonstração de como as mídias sociais estão mudando o modo como a ciência é discutida. Há três anos, sobre um artigo reportando a capacidade de bactérias de usarem arsênio, a microbióloga Rosie Redfield fez boa parte da discussãocrítica em seu blogue. Para mim, então, a participação das mídias sociais no (post-publication) peer review é uma notícia um tanto velha.

O que me chamou a atenção foi a declaração de um dos co-autores do artigo para contra-argumentar Gilad. Relata Woolston: "Michael Snyder, a geneticist at Stanford University in California and co-author of the original paper, stands by his team’s study and its conclusions and says that Gilad broke the 'social norms' of science by initially posting the critique on Twitter." ["Michael Snyder, geneticista da Stanford University na Califórnia e co-autor do artigo original, defende o estudo de sua equipe e suas conclusões e diz que Gilad quebrou as 'normas sociais' da ciência ao postar inicialmente as críticas no Twitter."]

Não é novidade a identificação da existência de 'normas sociais' nas ciências. Os sociólogos das ciências, pelo menos desde Thomas Kuhn (e talvez antes), vêm denunciando a existência dela deste a década de 1960. Porém, notemos, a existência dessas normas é alvo de denúncia: não é esperado a existência de tais normas no fazer científico. O discurso é que o processo é objetivo, só os fatos contam. Ok, há questões éticas: não fazer os sujeitos experimentais sofrerem inutilmente e, no caso de humanos, sem consentimento prévio; não forjar dados, não plagiar... Há questões de validação: prioridade da descoberta para a publicação mais antiga, nome científico só válido com publicação oficial, aceitação de artigos publicados somente em revistas indexadas para fins de avaliação de produção... Mas regras sociais construídas na forma que seja um tabu abertamente reprovável a não conformidade a elas?

Não é usual o caminho da publicação de contestação pelo twitter? Não, não é. Até porque, dentro da tradição multicentenária da comunicação científica, as mídias sociais são uma novidade recentíssima. No entanto, qual é realmente o problema de tal caminho, ainda mais para se levantar a bandeira das 'normas sociais'?

Poderia se dizer que responderia após a publicação formal. Não haveria mal nisso. Contudo, ao criticar via 'normas sociais' está deixando de responder à crítica não pelo que ela realmente é - se as contestações são ou não procedentes, no caso, se a análise feita apoia ou não a conclusão -, mas simplesmente por causa da forma.

'Normas sociais' podem ser levantadas no sentido de tentar explicar a forma como determinados cientistas ou grupos de cientistas agem: compadrio, moda, formalidades, manias, rapapés... não como exatamente 'normas': regras (mais ou menos arbitrárias e não validadas cientificamente, contando apenas com o peso da tradição e da ditadura da maioria) às quais as pessoas *devem* se conformar.

Em geral, quebrar 'normas sociais', em ciências, deveria ser alvo até de admiração, não de censura.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Hiperautoria: crescei e multiplicai

O artigo "Drosophila Muller F Elements Maintain a Distinct Set of Genomic Properties Over 40 Million Years of Evolution" de Wilson Leung et al. 2015 chamou a atenção pelo tamanho do "et al.": com um total de 1.014 coautores. De acordo com a história da seção de notícias da Nature, nos blogues e nas redes sociais foram publicados vários comentários questionando a necessidade e legitimidade de tantos autores relacionados para um mesmo estudo. Como através das redes sociais fiquei sabendo da história publicada na Nature e me vi meio que instado a comentar no blogue, temos uma volta quase completa - faltando apenas um outro artigo multiautoral analisando o episódio.





Segundo o texto na Nature, um dos questionamentos é se realmente é possível acreditar que tanto de gente contribuiu de modo decisivo para a produção do artigo. A Nature lembra que, por exemplo, o artigo sobre a detecção do bóson de Higgs teve quase 3.000 autores. Mas, assim, como outras pessoas a quem chamei atenção para esse detalhe, o texto diz que é "uma tradição" na física artigos com tantos autores. Implicando que, como não o é na pesquisa biológica e biomédica, o inusitado é suspeito.

Acho "tradição" um argumento fraco para ficarmos encucados - e, ainda mais, abismados ou, pior, indignados - com artigos quiloautorados em biologia/genética, enquanto ficamos sussa com artigos quiloautorados em física.

Não considero que biólogos sejam mais suspeitos do que físicos. "Tradição" quer dizer pouca coisa nesse caso. Há tradições corretas e incorretas, aceitáveis e inaceitáveis. E, do modo como a História das Ciências costuma ser narrada, a ênfase é justamente na batalha do conhecimento científico contra o conhecimento tradicional: as "verdades" passadas de geração a geração apenas por se acreditar nelas.

Se essa quantidade de autores é, por si mesma, um indício de atribuição errônea de autoria - um trem da alegria, um bonde da felicidade para incluir quem pouco ou nada fez de verdade, apenas para agradá-los e turbinar seus currículos, não há motivos para se suspeitar de biólogos/geneticistas, mas não de físicos de alta energia.

E acredito que não seja indício por si só. O importante não é apenas o número bruto de autores listados, mas também a complexidade relativa da empreitada. Estudos multicêntricos, multidisciplinares, com técnicas variadas e complexas, com grande número de dados... tendem a exigir um maior número de pessoas diretamente envolvidas.

Tampouco acho muito correto dizer que haja uma *tradição* de hiperautoria em física. A definição operacional de hiperautoria (ou mega-autoria) pode variar (p.e. Knudson 2011 define como 6 ou mais autores; Morris & Goldstein 2007, como 20 ou mais autores). De fato, há uma tendência de haver um maior número médio de autores em trabalhos de física do que em ciências biológicas; mas usando o critério de 1.000 autores ou mais - já que foi esse valor que chamou a atenção para esse estudo de genoma de drosófilas - obtive a lista abaixo (certamente não é exaustiva, mas, suponho, algo representativa).

ano no. de autores área página web
referente
Artigo
2015 5.154 física alta energia @RobertGaristo Physical Review Letters*
2015 1.014 genômica
2012 2.932 física alta energia Nature Physics Letters B
2011 3.179 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.221 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.172 física alta energia Pubmed Physical Review Letters
2010 1.055 física alta energia Vivek Haldar European Physical Journal C
2008 3.101 física alta energia Science Watch Journal of Instrumentation
2007 2.011 física alta energia Science Watch Journal of Physics G
2006 2.517 física alta energia Science Watch Physics Reports
2004 2.459 biomedicina Science Watch Circulation Journal
2001 2.851 genômica Quora Nature

Uma "tradição" de cerca de 10 anos. Uma "tradição" com menos de 1 artigo por ano. Uma "tradição" centrada em uma subárea bem específica: "física de alta energia/partículas" (HEP). Uma tradição que envolve basicamente um projeto: os aceleradores do Cern.

Segundo Cronin (2001), a área da HEP é particularmente rica em parcerias institucionalizadas em função da escala e do montante de investimentos necessários. Com a concentração dos recursos em grandes laboratórios como o Cern e o Fermilab, é preciso uma colaboração distribuída de vários outros centros para lidar com problemas básicos. Envolvendo também o financiamento em vários níveis. Esse arranjo instrumental, operacional, administrativo e científico complexo envolve, então, facilmente centenas de especialistas e pesquisadores. (Note-se que o trabalho é de 2001, quando boa parte desses artigos na ordem de 10^3 autores ainda não havia sido publicada; mas já havia vários com 10^2 autores.)

Isso tende a ocorrer também na pesquisa biomédica/genômica. A diferença é que a comunidade biomédica - particularmente as publicações na área - criaram um sistema para inibir a hiperautoria. Até 2002, o New England Journal of Medicine,  p.e., limitava o número de autores por artigo a 12. E, mesmo tendo levantado a barreira, a revista ainda discute com os autores sempre que acha que o número é excessivo.

Para Cronin, a diferença da abertura da comunidade HEP à hiperautoria e a resistência da comunidade biomédica está na força relativa da socialização e comunicação oral e sistema de valores das áreas. P.e., na HEP, um artigo só é publicado após um intenso escrutínio interno entre os colaboradores e comitês das instituições envolvidas, o pre-print como no arXiv.org é incentivado, tudo é discutido abertamente, deixando pouca margem para fraudes sistemáticas. A pesquisa biomédica, frequentemente envolvendo patentes, tende a ser bem menos transparente, dificultando a avaliação do papel de cada um dos envolvidos na pesquisa.

Então, ao contrário das vozes desconfiadas e preocupadas com a dissolução do sentido da autoria, eu vejo com bons olhos a hiperautoria também no mundo da genética e biomedicina. Salvo a existência de indícios em contrário, menos do que significar atribuição liberal de autoria para quem pouco ou nada vez, tende mais a significar que os autores - e o investigador principal - têm confiança o suficiente para defender os papéis relativos das contribuições individuais.

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Para quem quiser brincar de análise de tendências a multiautorias e hiperautorias Robert Boukhalil, de The Winnower, disponibilizou seu programa para análise de autoria na base de dados Pubmed. Chirstopher King, do Science Watch, fez uma análise usando, claro, a base da Thomson Reuters.

Upideite(15/mai/2015): O André Carvalho, do Ceticismo, também escreveu um texto. Ele, como se percebe pelo tweet acima, tem uma opinião oposta à minha. Além disso, eu também não chamaria o artigo de meia boca. Não é um breakthrough, mas tem uma contribuição original.
*Upideite(15/mai//2015): Via @SibeleFausto.

sábado, 9 de maio de 2015

Padecendo no paraíso 5

Hippocampus barbouriFonte: Wikimedia Commons.
Os singnatídeos (cavalos marinhos, peixes cachimbos, dragões do mar...) são uma família muito peculiar de peixes ósseos que compreende cerca de 300 espécies que vivem no mar, estuários e rios. Todas as espécies conhecidas apresentam uma característica única: a gravidez paterna - os ovos são fertilizados e incubados dentro de uma estrutura no corpo do macho, com a emergência de filhotes vivos. (Wilson & Orr 2011.)

Em várias espécies, ocorre a inversão dos papéis sexuais com a competição entre as fêmeas por machos, que é o sexo que escolhe o parceiro (no caso, a parceira) sexual. Aparentemente a inversão dos papéis correlaciona-se com o padrão de acasalamento: espécies poligâmicas tendem a apresentar inversão, enquanto o padrão sem inversão tende a ocorrer em espécies monogâmicas. (Wilson et al. 2003.)

A estrutura de incubação dos ovos pelos machos parece ter se desenvolvido de modo independente duas vezes ao longo da evolução dos singnatídeos: um grupo com incubação na região abdominal (Gastrophori) e outro com incubação na região caudal (Urophori). Dentro de cada grupo, parece haver uma tendência geral de complexificação da estrutura (embora com exceções): de uma simples região no corpo à qual os ovos são aderidos, mantidos expostos; à uma bolsa para dentro da qual os ovos são transferidos e incubados (Fig. 1). (Stölting & Wilson 2007.)

Figura 1. Evolução de estrutura de incubação em machos de Syngnathidae. Fonte: Stölting & Wilson 2007.

Syngnathus acusFonte: Wikimedia Commons.
A viviparidade dos singnatídeos é conhecida desde pelo menos a Grécia Antiga. Em 350 AEC, Aristóteles descreveu provavelmente o parto de Syngnathus acus, peixe cachimbo muito comum na costa mediterrânea próxima às praias: "Quando o tempo de dar à luz chega, [o peixe cachimbo] explode em dois e a prole é liberada (...) o peixe tem uma diáfise ou sulco sob sua barriga ou abdômen e após a desova pela abertura da diáfise, as metades divididas crescem e se unem novamente. (...) Os jovens peixes juntam-se ao redor de quem lhe gerou (...) porque o peixe libera os filhotes sobre si mesmo; e se alguém toca nos jovens, eles fogem nadando." (Frias-Torres 2004.) Por muito tempo, considerou-se que eram as fêmeas quem davam à luz aos filhotes. Só em 1831, C.U. Ekström descreveria a "falsa barriga" no macho. Mas levaria ainda mais umas quatro décadas até que vários cientistas demonstrassem a transferência de ovos da fêmea para o macho. (Ahnesjö & Craig 2011.)

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