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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ReprodutivaMente: da reprodutibilidade em Psicologia e nas ciências

Não tenho muito o que falar sobre o recente estudo com um índice relativamente baixo de replicação de resultados de estudos psicológicos publicados em três importantes revistas da área. Reproduzo a conclusão dos 270 autores do artigo (felizmente a Science deixou o artigo em acesso aberto):

"After this intensive effort to reproduce a sample of published psychological findings, how many of the effects have we established are true? Zero. And how many of the effects have we established are false? Zero. Is this a limitation of the project design? No. It is the reality of doing science, even if it is not appreciated in daily practice. Humans desire certainty, and science infrequently provides it. As much as we might wish it to be otherwise, a single study almost never provides definitive resolution for or against an effect and its explanation. The original studies examined here offered tentative evidence; the replications we conducted offered additional, confirmatory evidence. In some cases, the replications increase confidence in the reliability of the original results; in other cases, the replications suggest that more investigation is needed to establish the validity of the original findings. Scientific progress is a cumulative process of uncertainty reduction that can only succeed if science itself remains the greatest skeptic of its explanatory claims.

The present results suggest that there is room to improve reproducibility in psychology. Any temptation to interpret these results as a defeat for psychology, or science more generally, must contend with the fact that this project demonstrates science behaving as it should. Hypotheses abound that the present culture in science may be negatively affecting the reproducibility of findings. An ideological response would discount the arguments, discredit the sources, and proceed merrily along. The scientific process is not ideological. Science does not always provide comfort for what we wish to be; it confronts us with what is. Moreover, as illustrated by the Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), the research community is taking action already to improve the quality and credibility of the scientific literature.

We conducted this project because we care deeply about the health of our discipline and believe in its promise for accumulating knowledge about human behavior that can advance the quality of the human condition. Reproducibility is central to that aim. Accumulating evidence is the scientific community’s method of self-correction and is the best available option for achieving that ultimate goal: truth."
["Depois desse esforço intenso para reproduzir uma amostra de achados em Psicologia publicados, quantos desses efeitos estabelecemos como verdadeiros? Zero. E quantos desses efeitos estabelecemos como falso? Zero. É uma limitação do desenho do projeto? Não. Essa é a realidade de se fazer ciência, mesmo quando isso não é apreciado na prática do dia-a-dia. Os humanos desejam certezas e as ciências raramente podem dá-las. A despeito de nossos desejos de que as coisas fossem diferentes, um único estudo quase nunca dá uma resposta definitiva a favor ou contra um efeito e sua explicação. Os estudos originais examinados aqui ofereceram indícios provisórios: as réplicas que conduzimos ofereceram indícios adicionais confirmatórios. Em alguns casos, as réplicas aumentaram a segurança da confiabilidade dos resultados originais; em outros casos, as réplicas sugeriram que mais investigações são necessárias para estabelecer a validade dos achados originais. O progresso científico é um processo cumulativo de redução da incerteza que só pode ser bem sucedido se as próprias ciências permanecerem céticas a respeito de suas alegações explicativas.

Os resultados presentes sugerem que há espaço para a melhoria da reprodutibilidade na Psicologia. Qualquer tentação de interpretar estes resultados como uma derrota da Psicologia ou das ciências em geral devem ser contestada com o fato que este projeto mostra as ciências funcionando como deveria. Há uma abundância de hipóteses que a presente cultura nas ciências possa estar afetando negativamente a reprodutibilidade dos achados. Uma resposta ideológica irá desconsiderar os argumentos, desacreditar as fontes e simplesmente seguir adiante. O processo científico não é ideológico. As ciências nem sempre traz conforto para o que gostaríamos que fosse; elas podem nos confrontar com o que de fato é. Além disso, como ilustrado pelas Orientações da Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), a comunidade de pesquisa está tomando ações para melhorar a qualidade e a credibilidade da literatura científica.

Conduzimos este projeto porque nos importamosentos profundamente com a saúde de nossa disciplina e acreditamos em sua promessa de acumular conhecimento sobre o comportamento humano que pode aumentar a qualidade da condição humana. A reprodutibilidade é central nesse objetivo. A acumulação de indícios é o método de auto-correção da comunidade científica e é a melhor opção disponível para atingir sua meta definitiva: a verdade."]

Podemos relativizar a questão da 'verdade' e 'conhecimento cumulativo', mas é isso. Nenhum estudo isolado tem a palavra final sobre um dado tema. É preciso considerar o conjunto de indícios disponíveis. O processo científico se consolida nisso, com replicações (e revisões sistemáticas, e meta-análises).

O fato de conseguirem obter um resultado, dentro da margem de erro, igual ao original em 47 dos 100 estudos mostra como o processo científico, mesmo em sua fase inicial: da publicação de estudos originais, já atua como um filtro poderoso. (Não consigo pensar em outros processos de geração de conhecimento com essa taxa de confirmação independente.) Que isso possa ser ainda melhor, pra mim, é só motivo de otimismo.

Upideite(30/ago/2015): Uma análise bayesiana que procura evitar um binarismo (falha/sucesso) na análise. (via @andrelesouza RT)

Upideite(01/set/2015): Carlos Orsi "Crise na psicologia mostra ciência em ação"

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Zoológico = prisão animal?

Na postagem anterior abordei uma queixa (que considero injusta) (de parte) dos defensores dos direitos animais em relação à experimentação animal. Aproveito o embalo para comentar sobre outra queixa, também injusta, deles, a de que zoológicos são cativeiros cruéis de animais e que deveriam ser desativados.

"Pela Extinção do Zoológico, liberdade para os animais inocentes presos sem cometer crime!" bradam alguns ativistas.

É verdade que os animais não cometeram nenhum crime - por definição são incapazes de fazê-lo (ainda que alguns espécimes sejam capturados após ataque a seres humanos e suas propriedades). Mas zoológicos modernos não são meros gabinetes de curiosidades. Desde a década de 1990, os principais zoos do mundo passaram e continuam a passar por uma reformulação em seu papel, assumindo uma importância cada vez maior na conservação biológica.

Os zoos são também centros fundamentais de educação ambiental e de pesquisa biológica/veterinária.

"Zoological parks are evolving institutions in respect to the conservation of biological diversity. From past functions in recreation as menageries and in education as living museums, they are coming to discharge these functions, plus other meaningful ones in research and conservation, as internationally oriented conservation centers. Education is the primary function in conservation, but zoos have begun to make significant contributions as genetic refuges and reservoirs, especially for large vertebrate species threatened with extinction. In developing this capacity zoos have fostered investigations into several facets of small population biology. These have extended to simulation modelling to help predict the outcome of various combinations of ecological, genetic, and demographic factors on the viability of populations in captivity and in the wild. Because resources of zoos are limited in respect to their enlarged functions in conservation and research, they are encouraging development of criteria to help prioritize actions for conservation of biodiversity. North American, European, and Australian zoos are meanwhile assisting the development of technical capacities among zoo counterparts, government agencies, and protected areas in both developing and developed countries of the world to further the conservation of biodiversity. Similar involvement by other biological institutions and by biological professional associations can make important contributions to policies of nations and actions of people that determine the prospects for survival of much of the biota.Rabb 1994*

["Parques zoológicos são instituições em evolução no que diz respeito à conservação da diversidade biológica. De funções pretéritas de recreação como mostruário de feras e na educação como museus vivos, eles estão cumprindo essas funções, além de outras igualmente significativas em pesquisa e conservação, como centros de conservação orientados internacionalmente. Educação é a função primária na conservação, mas os zoos começaram a ter contribuições significativas como refúgios genéticos e reservas, especialmente para grandes espécies vertebradas ameaçadas de extinção. Ao desenvolver essas capacidades, os zoos alimentaram pesquisas em várias facetas da biologia de pequenas populações. Isso se estendeu à modelagem de simulações para ajudar a prever o resultado de várias combinações de fatores ecológicos, genéticos e demográficos na viabilidade de populações em cativeiro e na natureza. Como os recursos dos zoos são limitados face à ampliação de suas funções na conservação e pesquisa, eles incentivam o desenvolvimento de critérios para ajudar na definição de ações prioritárias para a conservação da biodiversidade. Zoos norte-americanos, europeus e australianos, enquanto isso, estão auxiliando no desenvolvimento de capacidades técnicas entre suas contrapartes zoológicas, agências governamentais e áreas de proteção, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, para melhor conservação da biodiversidade. Envolvimento similar por parte de outras instituições biológicas e por associações profissionais biológicas podem dar importante contribuição para as políticas nacionais e ações pessoais que determinem as chances de sobrevivência de boa parte da biota." Raab 1994]

Boa parte da população de grandes centros urbanos têm pouca ou nenhuma oportunidade de contato com ambientes silvestres; os zoológicos oferecem oportunidade de uma experiência próxima com elementos da biota mundial. Praticamente apenas nos zoológicos podem conhecer e ter uma experiência mais próxima com exemplares de várias espécies - inclusive nativas de sua região.

Em vários zoos ocorrem pesquisas comportamentais, fisiológicas, veterinárias importantíssimas que ajudam a fornecer informações para orientar a conservação in situ de diversas espécies e biomas ameaçados. Algumas pesquisas só são possíveis com animais mantidos em cativeiro - ou, pelo menos, são grandemente facilitadas por se poder acompanhar o animal ao longo do tempo e ter controle sobre sua dieta, luminosidade, temperatura ambiente...

Programas de procriação e intercâmbio genético nos zoos são fundamentais para espécies que têm seu hábitat fortemente ameaçado: por caça ilegal, desmatamento, poluição, queimada, especulação imobiliária, expansão das fronteiras agrícolas, presença de espécies invasoras, doenças, etc.

Zoológicos modernos procuram oferecer condições 'humanitárias' de cativeiro, com enriquecimento ambiental, reprodução de características dos hábitats (plantas, iluminação, sombreamento, relevo, textura)...

A ararinha-azul-de-lear, natural do norte da Bahia, encontrava-se em situação de "criticamente ameaçada" até 2008. Graças a programas de reintrodução, que contou com a colaboração de programas de procriação de diversos zoos, a população na natureza aumentou, chegando a pouco mais de 950 indivíduos. Atualmente é classificada como "em perigo" - ainda inspira cuidados, mas houve uma melhora.

O órix-do-saara encontra-se extinto na natureza. Graças a exemplares mantidos em zoológicos, há esperanças de haver reintrodução em seu hábitat - claro, o Saara - de exemplares para repovoamento.

O panda-gigante provavelmente é o símbolo mais famoso dos esforços de conservação que passam pela reprodução em cativeiro, com fundamental participação de intercâmbio genético entre populações de diversos zoológicos.

Há zoológicos sem condições de funcionamento. Estes devem ser readequados e, em último caso, desativados. Mas campanhas genéricas contra zoológicos mostra uma falta de compreensão do valora importância desse importante instrumento de educação, pesquisa e conservação.

*Upideite(15/fev/2016): link atualizado.

Upideite(02/jun/2016): Veja também reportagem em duas partes no programa Oxigênio:
Zoológicos: por que eles ainda existem? (parte I)
Importância dos zoológicos para a pesquisa e preservação (parte II)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Experimentação animal: cientistas brutos?

Já abordei a questão da experimentação animal aqui no GR à época da invasão e destruição das instalações do Instituto Royal e São Roque, SP.

Retomo por causa de uma acusação feita por uma pessoa envolvida em ativismo das causas animais. Segundo essa pessoa: "cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam".

Se a afirmação/negação é falsa em pelo menos um dos dois pontos: "cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica", "cientistas não se preocupam com os animais que usam", ela será falsa no conjunto.

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Em um levantamento publicado em 2009 com pesquisadores da Universidade Federal de Goiás, com 38 questionários respondidos:

a) sobre o uso de animais dentro da própria linha de pesquisa dos respondentes:
"03. Assinale a opção que mais se aproximaria de sua opinião sobre o uso de animais na sua linha de pesquisa?
(1) uso os animais, pois estes não sofrem, ou sofrem muito pouco, com os procedimentos que utilizo;
(2) o fato de que os animais foram criados para esta finalidade faz com que seu uso seja mais aceitável eticamente;
(3) tenho pena de usar os animais, mas não vejo outra forma de obter resultados;
(4) não tenho pena dos animais. A saúde humana é o que realmente me importa;
(5) se houvesse outras metodologias disponíveis, não utilizaria os animais por consideração aos mesmos;
(6) é uma metodologia padrão adotada praticamente em todo mundo nesta linha de pesquisa, logo não vejo nenhum problema com este uso."

43,2% utilizariam modelos alternativos se disponíveis; 20,5% não levantaram nenhum questionamento quanto às metodologias atualmente predominantes; 18,2% ignoravam ou desconsideravam o sofrimento animal;

b) sobre o uso de animais nas pesquisas em geral:
"04. Com qual das opiniões mais se identifica, sobre a experimentação animal em geral:
(1) não vejo motivos para controvérsias sobre a experimentação animal;
(2) quem critica a experimentação animal não entende, ou entende muito pouco, de pesquisa ou de ciência;
(3) a crítica à experimentação animal, quando bem feita, é saudável à ciência e à pesquisa;
(4) isso deve ser discutido entre especialistas no assunto, e não pela sociedade civil;
(5) a experimentação animal é indispensável à ciência e ao progresso para saúde animal e humana;
(6) a ciência é capaz de encontrar outros métodos que não envolvam a experimentação em animais, e isso deve ser tarefa da ciência;"

40% apresentaram abertura à crítica, consideram que esta, quando bem feita, é saudável à pesquisa; 36,4% apontam que o uso de animais é indispensável;

c) quanto ao incômodo moral com o uso de animais:
"05. Atualmente, ao manipular os animais em experimentos, sente algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca
06. Ao manipular os animais em experimentos, no início de sua formação acadêmica, costumava sentir algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca "

no início da formação acadêmica - 63,1% sentem algum incômodo, 28,9% nunca se sentiram incomodados; no estágio então atual da carreira - 55,2% sentiam algum incômodo, 36,8% nunca sentem tal incômodo;

d) percepção de sofrimento animal em suas pesquisas:

"08. Qual o nível de sofrimento animal (dor, estresse, angústia...) causado pelos procedimentos empregados em sua linha de pesquisa?
( ) nenhum sofrimento
( ) pouco sofrimento
( ) algum sofrimento
( ) muito sofrimento
( ) não saberia dizer"

65% consideram que os animais têm algum sofrimento; 21,1% consideram que os animais não passam por nenhum sofrimento em suas pesquisas;

e) justificação do uso de animais:

"10. Assinale a opção que mais corresponde à sua opinião: “O uso de animais pela ciência apenas pode ser eticamente justificado quando”:
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde humana;
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde de animais domésticos, além da saúde do próprio homem;
( ) além dos possíveis benefícios à saúde, tem potencial de trazer benefícios econômicos;
( )faz avançar o conhecimento humano;"

47,6% quando beneficia os seres humanos e animais domésticos; 31% quando faz avançar o conhecimento;

f) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:

"12. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), os questionamentos e debates voltados à experimentação animal, provocados pelos professores em discussões abertas e críticas, eram
( ) muito freqüentes
( ) freqüentes
( ) ocasionais
( ) raros
( ) inexistentes
( ) não lembra"

42,1% ocasionalmente; 26,3% em raras ocasiões;

g) disciplina de ética na formação dos respondentes:

"13. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), o papel da disciplina de ética, em seus conteúdos voltados à ética na experimentação animal a partir de perspectivas mais críticas, pode ser considerada como:
( ) satisfatório ( ) parcialmente satisfatório ( ) insatisfatório ( ) inexistente "

36,8% parcialmente satisfatória;

h) modelos substitutivos:

"14. Escolha a opção abaixo que melhor reflete sua opinião em relação aos métodos de pesquisa substitutivos ao modelo animal:
( ) envolvem grande investimento financeiro;
( ) não possuem validade científica;
( ) não oferecem um caminho seguro de investigação;
( ) são pouco conhecidos;
( ) na grande maioria dos casos, não é possível substituir o modelo animal na pesquisa científica;"

>50% experimentação animal é insubstituível; >20% pouco conhecidos;

Com esses dados é um tanto estranha a conclusão dos autores desse estudo de que: "O que temos aqui é uma situação provavelmente que mistura interesse e falta de informação. Os/as pesquisadores/as que disseram que substituiriam a experimentação animal parecem ter assinalado essa somente por ser, aparentemente, uma situação hipotética, já que a maioria considera que na maior parte dos casos ela não é substituível.

[Lista de métodos substitutivos: cultura de células e tecidos, simulações, nanotecnologia, etc.]

Como vimos, é bastante possível considerar a substituição de animais em procedimentos experimentais. O que parece se demonstrar é uma possível falta de interesse em desenvolver novas metodologias e até mesmo de buscar as existentes, uma vez que 23,3% dos/as pesquisadores/as amostrados/as tenham alegado ser tais técnicas pouco conhecidas. Com isso, parece haver a sugestão de uma resistência em abandonar uma prática à qual estão acostumados/as a empreender".

No questionário utilizado os pesquisadores não foram perguntados se utilizaram ou se procuraram utilizar dessas e outras alternativas.

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Um outro levantamento foi feito com pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu-SP apresentado em 2010: 34 questionários foram respondidos.

a) Justificativa:
"4)Justificativa do trabalho com os animais" (questão aberta)

~90% melhoria da saúde humana ou animal; ~10% avanço do conhecimento;

b) Preocupação com o bem estar animal:
"6)Existe incômodo moral ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de incômodo) 

7)Existe preocupação em relação ao sofrimento do animal ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de preocupação)"

"Sendo que, no geral, todas as pessoas com mais de 20 anos de trabalho com animais possuem
preocupação máxima com a minimização do sofrimento do animal, porém não demonstram
possuir incômodo moral em relação à prática, o que pode ser justificado pela consciência de
estar fazendo da melhor forma possível, ou pela cegueira ética condicionada com o tempo,
visto que as pessoas que possuem menor tempo de trabalho, abaixo de 10 anos são as que
demonstraram sentir pelo menos algum incômodo moral."

c) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:
"9) Houve debate sobre o assunto em sua formação?
( )sim, bastante ( )sim, suficiente ( )sim, pouco ( )não"

~50% sim; ~50% pouco ou nenhum.

d) modelos substitutivos:
"10) Opinião sobre a viabilidade de modelos alternativos (de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo para a possibilidade)"

média 5,6

A conclusão da autora, no entanto, também é um tanto estranha: "As sinalizações gerais apontam para uma opinião simpatizante por parte dos pesquisadores na adoção dos modelos substitutivos para algumas pesquisas que não sejam a deles, demarcando também a falta de informação ou até mesmo de interesse por parte dos pesquisadores em buscar metodologias que não necessite de animais e que sejam tão ou até mais eficientes".

Não há no questionário nada relacionado ao interesse dos pesquisadores em modelos substitutivos.
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De modo geral, os pesquisadores respondentes estão preocupados com o bem estar dos animais utilizados em seus próprios experimentos e nos experimentos científicos de modo geral.

Os pesquisadores demonstram algum ceticismo da viabilidade da substituição do uso de animais em determinadas pesquisas sem perda importante de generalidade e precisão. Os autores dos dois estudos aqui citados interpretam isso como desconhecimento, mas os questionários utilizados não permitem essa conclusão - ainda que seja uma possível.

Embora o tamanho amostral seja reduzido, baseando-nos em uma certa homogeneidade (ainda que nem de longe absoluta) dos pesquisadores, podemos extrapolar (com o devido cuidado) que os pesquisadores brasileiros preocupam-se, sim, em minimizar o sofrimento de seus sujeitos experimentais: camundongos, ratos, sapos, peixes, alunos de graduação e pós-graduação... (nem que seja para atender às demandas e exigências dos comitês de ética).

Assim:

"cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica" (V/F)
"cientistas não se preocupam com os animais que usam" (F)
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"cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam" (F)

Claro que se pode fazer alguma discussão em torno do termo "suficiente".

Upideite(21/ago/2015): Um levantamento online obteve 12 respostas com pesquisadores brasileiros que trabalham com diagnóstico da raiva. As justificativas mais frequentes para o uso de inoculação cerebral em camundongos em vez de métodos in vitro validados foram:
a) falta de recursos humanos e capacitação profissional - 5 respostas;
b) acomodação, hábito e falta de boa vontade das pessoas - 4;
c.i) falta de recursos financeiros - 3;
c.ii) barreiras regulatórias e falta de incentivo do governo - 3;
c.iii) barreiras cultural e ética - 3;
d.i) falta de estrutura dos laboratórios, equipamentos e materiais - 2;
d.ii) falta de conhecimento e conscientização - 2;
d.iii) importância dos fatores orgânicos para observação da doença - 2;
e.i) baixa sensibilidade ou falhas das técnicas in vitro - 1;
e.ii) facilidade e baixo preço do IVC - 1;
e.iii) falta de tempo - 1.

Com a mesma plataforma online os autores obtiveram respostas de 35 pesquisadores anglófonos e 12 lusófonos (dos quais 11 trabalhavam no Brasil).
7 anglófonos e 6 lusófonos utilizavam o método in vivo de diagnóstico de raiva.
1 anglófono e 5 lusófonos responderam que o custo de implementação do método in vitro levava a escolherem o procedimento in vivo.

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Para um trabalho de conclusão de curso de 2013, foram entrevistados 20 pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp/Botucatu-SP. Os entrevistados foram divididos em dois grupos: os contratados antes da lei Arouca 11.794/2008 e os contratados depois (mas no relato não é dado o tamanho de cada grupo).

"1) Do seu ponto de vista, qual é a abrangência da Bioética?"

58,5% citaram a ética na pesquisa e nas relações humanas, sem incluir questões ambientais (como OGMs, bem estar animal, agrotóxicos, etc).

"2) Você tem conhecimento de legislação sobre experimentação animal?
( ) Não.
( ) Sim. Se sim, cite exemplos."

100% dos pós-Arouca demonstraram conhecer a legislação; 75% dos pré-Arouca.

"3) O que mudou no seu laboratório e em suas pesquisas após a criação do comitê de ética na Universidade?"

4) Você teria feito mudanças em seu laboratório e em suas pesquisas caso não houvessem sido criados esses comitês?"

100% dos pré-Arouca mudaram procedimentos.
16,7% dos pré-Arouca disseram que mudariam mesmo sem os comitês.

"5) Durante sua carreira de pesquisador, você já mudou seus sentimentos frente ao sofrimento animal?"

25% dos pós-Arouca relataram ter mudado; 75% dos pré-Arouca.

Novamente, a conclusão dos autores vai além do que os dados permitem entender: "Portanto, conclui-se que em sua maioria, os pesquisadores concebem a ética na experimentação animal como obediência [à]s Leis instituídas e que a consciência ao bem estar animal é algo que ainda está distante e esse tema necessita ser exposto e mais debatido para que se crie uma consciência crítica a respeito". Por exemplo, para uma boa base para se afirmar que é pura obediência formal à lei, sem concordância com seu teor, a pergunta '4' deveria ser complementada com uma questão do tipo: "Se a lei fosse abolida, retornaria aos procedimentos anteriores? Por quê?"

Upideite(22/ago/2015): Levantamento para pesquisa de doutoramento na UFSC em 2012, com 185 docentes de 17 IFES.

a) Conhecimento do conceito dos 3Rs (redução, substituição/replacement, refinamento: redução de sofrimento/estresse):
Entre pesquisadores que publicaram trabalhos com uso de animais:
~80% alto/mediano;
10~20% pouco/nenhum.
Entre os que não publicaram:
40~60% alto/medino;
40~60% pouco/nenhum.

b) Importância dos princípios dos 3Rs:
Entre os docentes dos departamentos de Fisiologia (Gfis):
69% os três igualmente importantes;
12,3% redução;
11% refinamento;
8% substituição.
Entre os docentes dos departamentos de Farmacologia (Gfar):
68% os três igualmente importantes;
18,5% refinamento;
8% redução;
6% substituição.

c) Posicionamento quanto ao uso de animais:

Opção Gfis (%) Gfar (%)
"Acredito que há métodos melhores que a experimentação animal em pesquisas sobre saúde humana e animal. Estou trabalhando ativamente em pesquisas que substituem animais em alguns experimentos em minha linha de investigação" 1,3 3,8
"A experimentação animal é uma necessidade para a maioria das pesquisas atuais. Sua importância é inegável, e tem sido a responsável pela maioria dos avanços na saúde humana e animal" 44,3 38,1
"Não acredito que a pesquisa experimental abandone totalmente o uso de animais, independente de minha opinião sobre este assunto" 20,3 31,4
"Eu entendo que novas tecnologias possam vir a substituir o modelo animal em pesquisas sobre saúde humana e animal, assim como a razão disso acontecer, mas minha área de pesquisa exige usar animais como modelo" 20,3 17,1
Nenhum das opções acima 13,9 9,5

"5) Animais frequentemente utilizados na pesquisa aplicada (como camundongos e ratos) são modelos preditivos para seres humanos"
Gfis: 68% concordam; 9,4% discordam (n=53);
Gfar: 74% concordam; 10% discordam (n=81).

"6) Modelos experimentais baseados em humanos são o melhor caminho para alcançar resultados efetivos relacionados à saúde humana"
Gfis: 42% concordam; 39% discordam;
Gfar: 57,5% concordam; 29% discordam.

"7) A tecnologia aplicada à pesquisa experimental não será capaz de substituir o modelo animal"
Gfis: 63,3% concordam; 19% discordam;
Gfar: 58,5% concordam; 28,3% discordam.

"8) Abandonar a modelagem animal na pesquisa experimental causará sérios atrasos na descoberta de novas drogas e terapias, seja para humanos ou animais"
Gfis: 83,5% concordam; 11,4% discordam;
Gfar: 79,2% concordam; 14,2% discordam.

"9) É um exagero considerar a experimentação animal como principal responsável pelos avanços na saúde humana"
Gfis: 24,1% concordam; 62% discordam;
Gfar: 35,8% concordam; 49,1% discordam.

"10) Problemas éticos suscitados pela experimentação animal são superados pelo impacto positivo que a experimentação animal causa sobre a saúde humana e animal"
Gfis: 49,4% concordam; 30,4% discordam;
Gfar: 50,9% concordam; 31,1% discordam.

"11) Resultados obtidos da experimentação animal são duvidosos e confusos considerando sua aplicação em seres humanos"
Gfis: 3,8% concordam; 84,8% discordam;
Gfar: 13,2% concordam; 70,8% discordam.

"12) As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicas, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies"
Gfis: 3,8% concordam; 70,9% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 62,3% discordam.

"13) A pesquisa científica poderá vir a substituir o uso de animais considerando-se um financiamento substancial dirigido ao desenvolvimento de outras técnicas experimentais"
Gfis: 38% concordam; 50,6% discordam;
Gfar: 44,3% concordam; 34,9% discordam.

"14) A tradição é a principal força que mantém a experimentação animal como um método científico da pesquisa experimental"
Gfis: 12,7% concordam; 82,3% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 82,1% discordam.

"15) A experimentação animal é essencial à ciência"
Gfis: 77,2% concordam; 13,9% discordam;
Gfar: 70,8% concordam; 12,3% discordam.

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