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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Yo no creo en brujas... 3

...pero en zombis...

A Nature fez uma compilação de 6 "zumbis" científicos - resultados ainda sem boas explicações e difíceis de se confirmar e de se refutar:

1) Padrões não-aleatórios de flutuações de temperatura na radiação cósmica de fundo;
2) Variações periódicas de sinais nos detetores de cristais de iodeto de sódio do projeto DAMA;
3) Excesso de raios gama emitidos pelo centro da Via Láctea;
4) Tamanho 4% menor do próton quando medido pela interação com múons;
5) Raios cósmicos ultra-energéticos;
6) Inconsistências entre as medidas da constante gravitacional universal G.

Em nov/2014, a National Geographic fez uma lista de 5 parasitas "zumbis" que alteram o comportamento de seus hospedeiros:

1) Larvas de vespas parasitóide costa-riquenha Hymenoepimecis argyraphaga fazem com que a aranha Leucauge argyra produza um casulo com sua seda onde a larva se desenvolve;
2) A vespa Ampulex compressa injeta veneno na cabeça da barata permitindo-lhe guiar a vítima pela antena até o ninho, onde deposita ovos no interior da vítima - as larvas eclodem alimentando-se da barata viva;
3) O tremátodo Dicrocoelium dendriticum infecta ruminantes como vacas e carneiros, em cujas fezes são excretados os ovos. Estes são ingeridos pelo caramujo Cochlicopa lubrica, as larvas eclodem e são regurgitadas pelo caramujo envolvidas em uma bola de muco. As larvas são ingeridas pelas formigas Formica fusca. Sob influência das larvas do tremátodo, as formigas escalam as folhas das gramas, sendo ingeridas pelos ruminantes, onde completam o ciclo;
4) Larvas do tremátodo Euhaplorchis californiensis saem de caramujos marinhos Cerithidea californica e infectam o peixe Fundulus parvipinnis. Com a química cerebral alterada, particularmente os níveis de serotonina e dopamina, o peixe passa a se contorcer e a saltar, atraindo atenção de aves piscívoras onde completam seu ciclo - os ovos são liberados nas fezes, devoradas pelos caramujos.
5) Larvas nematomorfas gordiídeas parasitam artrópodos como grilos e outros insetos, quando próximos a corpos d'água, sob manipulação dos parasitas, o hospedeiro pula na água, onde morre afogado, liberando a larva, que completa seu ciclo de vida no ambiente aquático. Não se sabe como os artrópodos são infectados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Carne vermelha, processada e câncer 2

Ok, pelos melhores dados disponíveis, o consumo de carne processada aumenta o risco de câncer e provavelmente o consumo elevado de carne vermelha também.

Não há motivo para alarme, embora haja boas razões para se moderar no consumo de carne, em especial, das processadas. Considerando-se o provável perfil socioeconômico dos leitores deste blogue, a redução da ingestão seria aconselhável: não apenas por causa do câncer, mas por causa dos riscos de doenças cardiovasculares e diabetes.

Mas é bom colocar em uma perspectiva global quando se consideram políticas nacionais e não apenas orientações específicas para determinados indivíduos.

As estimativas de câncer colorretal no Brasil são de 32.600 novos casos por ano. Isso corresponde a 1,14% de chances de um indivíduo desenvolver câncer colorretal em um prazo de 70 anos. Segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar de 2008/9, o brasileiro consumia 74,6 g de carne vermelha por dia e 15,8 g diários de carne processada. Pelos dados da OECD/FAO, o consumo é praticamente idêntico: 39,3 kg/habitante-ano em 2014. 107,7 g por dia em peso de carcaça em carnes vermelhas - o que corresponde a 78,17 g em carne pra consumo.

Considerando os valores do POF para consumo de carne processada a estimativa da OECD/FAO para carne vermelha, isso corresponde a um risco 18,98% aumentado.

Se os 200 milhões de brasileiros virassem vegetarianos, o risco médio de se desenvolver durante a vida câncer colorretal seria de 0,96%. E seriam evitadas cerca de 2.800 mortes por ano em decorrência do câncer de intestino grosso e reto.

Em 2015, 10,8% dos brasileiros fumam. Por ano, 27.330 novos casos de câncer no pulmão são diagnosticados no Brasil; com ocorrência de 24.490 mortes. 90% dos casos são relacionados ao consumo de tabaco. Mais de 22.000 mortes por ano seriam evitadas se os 21,5 milhões de brasileiros tabagistas deixassem de fumar. O risco de se desenvolver câncer pulmonar ao longo da vida sem fumar é de 0,09%. Os fumantes têm uma chance de 7,98% de desenvolver câncer pulmonar em algum momento da vida. Os R$ 41 milhões anuais do Programa Nacional de Controle do Tabagismo têm evitado cerca de 7.500 mortes anuais - R$ 5.360 por morte evitada.

Não encontrei o valor dos investimentos na "Campanha Nacional de Enfrentamento do Câncer Colorretal". Mas, considerando que em 2012, o consumo per capita médio era de 101,64 g/dia em equivalente de carcaça ou 73,87 g/dia em carne, ainda não surtiu muito efeito nos hábitos alimentares cárneos do brasileiro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Carne vermelha, processada e câncer

Já que estamos falando de câncer...

A Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, anunciou as conclusões gerais do relatório sobre a carcinogenicidade do consumo de carne vermelha e carne processada (como salsichas, linguiças, bacon...).

Uma dieta com alto consumo de carne vermelha foi classificada como "provavelmente carcinogênica a humanos" baseado em "indícios epidemiológicos limitados" (isto é, apesar da associação encontrada, a influência de outros fatores não pode ser excluída) de que há associação positiva entre consumo de carne vermelha e a incidência aumentada de câncer colorretal e em "indícios fortes de mecanismo explicativo".

O alto consumo de carne processada foi classificado como "carcinogênico a humanos" baseado em "indícios epidemiológicos suficientes" de que o consumo de carne processada causa aumento de incidência de câncer colorretal.

Traduzo abaixo parte do documento com perguntas e respostas elaborado pela IARC.
Atenção: não sou oncologista, não trabalho com pesquisa do câncer. Fiz o meu melhor esforço na tradução, mas não acredite no meu trabalho: deixei o link para o texto original para que se possa fazer a conferência. Siga as recomendações das autoridades sanitárias e médicas e de seu médico/nutricionista de confiança.
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P. O que é considerado carne vermelha?
R. Carne vermelha se refere a toda carne muscular de mamífero, incluindo carne bovina, vitela, suína, carneiro, cavalo e bode.

P. O que é considerado carne processada?
R. Carne processada se refere à carne que foi transformada pela salga, cura, fermentação, defumação e outros processos para salientar o sabor e melhorar a conservação. A maioria das carnes processadas contém carne suína ou bovina, mas carnes processadas podem conter também outras carnes vermelhas, aves, miúdos e subprodutos como sangue. Exemplos de carnes processadas incluem salsichas, presunto, embutidos, carne enlatada, carne seca, bem como preparados e molhos a base de carne.

P. Carne processada foi classificada como carcinogênica a humanos (Grupo 1). Fumo e asbesto também são classificados como carcinogênicos a humanos (Grupo 1). Isso quer dizer que o consumo de carne processada é tão carcinogênico quanto o fumo e o asbesto?
R. Não. Carne processada foi classificada na mesma categoria de fumo e asbesto como causa de câncer (IARC Grupo 1, carcinogênico a humanos), mas isso NÃO significa que eles sejam igualmente perigosos. As classificações da IARC descrevem a força dos indícios científicos sobre um agente ser causador de câncer, e não avalia o nível do risco.

P. Que tipos de câncer são ligados ou associados ao consumo de carne vermelha?
R. O indício mais forte, mas ainda limitado, de associação com o consumo de carne vermelha é para o câncer colorretal. Há também indícios de ligação com câncer pancreático e de próstata.

P. Que tipos de câncer são ligados ou associados ao consumo de carne processada?
R. O grupo de trabalho da IARC concluiu que o consumo de carne processada causa câncer colorretal. Associação com câncer de estômago foi vista, mas os indícios não são conclusivos.

P. Quantos casos de câncer por ano pode ser atribuídos ao consumo de carne processada e vermelha?
R. De acordo com as estimativas mais recentes feitas pela Global Burden of Disease Project, organização independente de pesquisa acadêmica, cerca de 34.000 mortes por câncer no mundo são atribuíveis a dietas com alta quantidade de carne processada.

O consumo de carne vermelha ainda não foi estabelecido como causa de câncer. No entanto, se se provar que as associações relatadas são causais, o Global Burden of Disease Project estimou que dietas com alta quantidade de carne vermelha seriam responsáveis por 50.000 mortes por câncer no mundo.

Esses valores contrastam com cerca de 1 milhão de mortes por câncer ao ano no mundo devido ao fumo, 600.00 mortes anuais por consumo de álcool e mais de 200.000 mortes anuais por poluição do ar.

P. É possível de quantificar o risco do consumo de carne vermelha e processada?
R. O consumo de carne processada foi associadoa acom um pequeno aumento no risco de câncer nos estudos revisados. Nesses estudos, o risco geralmente aumenta com a quantidade de carne consumida. Uma análise dos dados de 10 estudos estimou que a cada porção de 50 gramas de carne processada consumida diariamente* aumenta o risco de câncer colorretal em cerca de 18%.

O risco de câncer relatado para o consumo de carne vermelha é mais difícil de se estimar porque os indícios de que carne vermelha causa câncer não é tão forte. No entanto, se a associação entre carne vermelha e câncer colorretal se mostrar causal, os dados dos mesmos estudos sugerem que o risco de câncer colorretal pode aumentar em 17% para cada porção de 100 gramas de carne vermelha consumida diariamente*.

P. O risco é maior para crianças, idosos, mulheres ou para homens? Algumas pessoas estão sob risco maior?
R. Os dados disponíveis não permitem conclusões sobre se os riscos diferem entre grupos diferentes de pessoas.

P. E quanto as pessoas que tiveram câncer de colo? Elas deveriam parar de comer carne vermelha?
R. Os dados disponíveis não permitem conclusões sobre riscos de pessoas que já tiveram câncer.

P. Eu devo parar de comer carne?
R. É sabido que o consumo de carne traz benefícios à saúde. Várias recomendações nacionais de saúde aconselham as pessoas a ingerirem uma quantidade limitada de carne processada e vermelha, que são ligadas a riscos aumentados de mortes por doenças cardíacas, diabetes e outras doenças.**

P. Que quantidade de carne é segura de se consumir?
R. Os riscos aumentam com a quantidade de carne consumida, mas os dados disponíveis para avaliação não permitem uma conclusão a respeito de se existe um nível seguro.

P. O que faz a carne vermelha e processada aumentarem o risco de câncer?
R. A carne é composta por múltiplos componentes, como ferro hêmico. A carne também contém compostos que se formam durante o processamento ou cozimento. Por exemplo, compostos carcinogênicos que se formam durante o processamento incluem compostos N-nitrosos e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. Cozinhar carne vermelha e processada também produz aminas aromáticas heterocíclicas, bem como outros compostos incluindo hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, que é encontrado também em outros alimentos e na poluição do ar. Alguns desses compostos são sabidamente carcinogênicos ou suspeita-se que sejam, mas a despeito desse conhecimento ainda não se compreende completamente como o risco de câncer é aumentado pelas carnes vermelha e processada.

P. Qual a recomendação da OMS para a prevenção do risco de câncer associado ao consumo de carne vermelha e processada?
R. A IARC é uma organização de pesquisa que avalia os indícios disponíveis sobre as causas de câncer, mas não faz recomendações de saúde como tais. Governos nacionais e a OMS são responsáveis por desenvolver orientações nutricionais. Esta avaliação pela IARC reforça a recomendação de 2002 da OMS de que as pessoas que comem carne deveriam moderar o consumo de carne processada para reduzir o risco de câncer colorretal. Algumas outras orientações alimentares também recomendam limitar o consumo de carne vermelha ou processada, mas estas são focas principalmente em reduzir a ingestão de gordura e sódio, que são fatores de risco para doenças cardiovasculares e obesidade. Indivíduos preocupados com câncer podem considerar reduzir seu consumo de carne vermelha e processada até orientações atualizadas relacionadas especificamente ao câncer sejam desenvolvidas.

P. Devemos comer apenas aves e peixes?
R. Os riscos associados ao consumo de aves e peixes não foram avaliados.

P. Devemos nos tornar vegetarianos?
R. Dietas vegetarianas e dietas que incluem carne têm diferentes vantagens e desvantagens para a saúde. No entanto, esta avaliação não compara diretamente riscos à saúde entre pessoas vegetarianas e que comem carne. Esse tipo de comparação é difícil porque esses grupos podem ser diferentes entre si de outras maneiras além do consumo de carne.

P. Há um tipo de carne vermelha que é mais segura?
R. Alguns poucos estudos investigaram os riscos de câncer associados com diferentes tipos de carne vermelha, como bovino ou de porco, e diferentes tipos de carnes processadas, como presuntos e salsichas. No entanto, não há informação suficiente para se dizer se riscos mais atos ou mais baixos são relacionados ao consumo de qualquer tipo particular de carne vermelha ou processada.

P. O método de conservação pode influenciar no risco (e.g. salga, congelamento profundo ou irradiação)?
R. Métodos de conservação diferentes podem resultar na formação de carcinogênicos (e.g. compostos N-nitrosos), mas se e quanto isso contribui com o risco de câncer é desconhecido.

P. Quantos estudos foram avaliados?
R. O Grupo de Trabalho da IARC considerou mais de 800 diferentes estudos sobre câncer em humanos (alguns estudos forneceram dados para os dois tipos de carne; no total, mais de 700 estudos epidemiológicos forneceram dados para carne vermelha e mais de 400 estudos epidemiológicos forneceram dados para carne processada).
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 *Obs1. A expressão "diariamente" aqui é importante. Esse risco não é o mesmo para consumo ocasional - certamente bem inferior a isso. Por outro lado, claro não quer dizer que se se deixar de comer ocasionalmente - digamos consome-se cinco dias por semana -, o risco seja evitado ou sensivelmente diminuído.
**Obs2. O documento evita dar conselhos definitivos e categóricos a respeito do consumo de carne, pois envolve decisões pessoais (quando as leis e costumes locais assim o permitem) sobre o quanto de risco e custos as pessoas estão dispostas a assumir ao manter ou modificar certos comportamentos tendo em vista as recompensas que desejam obter: nutrição, prazer, ponderações éticas, evitação de doenças, diminuição de impacto socioambiental... As informações disponíveis são probabilísticas - nível de risco - e incompletas. É um cenário bastante frequente em decisões pessoais. Temos que saber lidar com isso.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética

Convocado pelo Luiz Bento do Discutindo Ecologia e pelo Pirulla do Canal do Pirulla (vocês conhecem minha mania de apresentar personalidades bem conhecidas do público), segue minha (tentativa de) contribuição com o assunto da fosfoetanolamina (PEA*** ou PEtn****) sintética (Pho-s, informalmente também chamada de 'fosfo'***).

Abaixo procurarei manter atualizada lista de links com o que o pessoal já publicou:
.Ceticismo (26/ago/2015): Brasileiros curam câncer e vão receber o Nobel. Muita calma nessa hora!
(14/out/2015): Fosfoetanolamina: a novela continua... [título truncado por mim]
(18/out/2015): Fosfoetanolamina e o apelo ao desespero
(19/out/2015): E a novela da fosfoetanolamina contina... [título truncado por mim]
(13/dez/2015): A volta da fosfoetanolamina
(21/jan/2016): Primeiros resultados com a fosfoetanolamina chegaram no MCTI. Calma aí, ô!
(14/abr/2016): Dilma sanciona pílula mágica de fosfoetanolamina
(15/abr/2016): Fosfoetanolamina disse para um tumor: Cresça e Apareça
(15/abr/2016): “Pesquisador” da fosfoetanolamina diz que era só para quem está morrendo
.Dr. Felipe Ades (30/ago/2015): Fosfoetanolamina sintética (fosfoamina), entenda porque essa substância não é um medicamento contra o câncer
(15/out/2015): Fosfoetanolamina e outras substâncias, as diferenças entre tratar ratos de laboratório e pessoas com câncer.
(29/out/2015): Fosfoetanolamina e a exploração do desespero
.e-farsas (01/set//2015): Pesquisador descobre que fosfoamina cura câncer! Será?
(04/jun/2016): Afinal, a fosfoetanolamina cura câncer ou não?
.A Porta de Marfim (09/out/2015): Não, a fosfoamina não é (ainda) a cura do câncer
.Wagner Ricardo (16/out/2015): facebook
.Café na Bancada (16/out/2015): Fosfoetanolamina - a "cura" do câncer?
(15/mar/2016): Fosfoetanolamina: perguntas sem respostas
(22/mar/2016): Fosfoetanolamina: o fim de uma história sem começo
(14/abr/2016): O cientista e a síndrome de Cassandra: o dia em que a política me calou
(06/jun/2016): A fosfoetanolamina na festa junina!
(13/jun/2016): Uma atéia no culto da fosfoetanolamina
(16/jun/2016): O que de fato sabemos sobre a fosfoetanolamina - uma visão científica(03/abr/2017): Fosfoetanolamina, uma novela que nunca termina
.Canal do Pirulla (18/out/2015): A USP, o câncer e a "cura" (vídeo)
(22/out/2015): 13 respostas sobre a fosfoetanolamina (vídeo)
(27/fev/2016): Fosfoetanolamina, Ratinho e Samarco (vídeo) (não vi)
(29/fev/2016): Fosfoetanolamina compassiva (vídeo)
(15/abr/2016): Fosfoetanolamina liberada? (vídeo) (não vi)
(03/abr/2017) : A Fosfo não funda? (vídeo) (não vi)
.Eu. Ciência (18/out/2015): A USP e a Cura do Câncer (Fosfoetanolamina) (vídeo)
(27/out/2015): A fosfoetanolamina em 4 pontos... [título truncado por mim] (vídeo)
.Carlos Orsi (18/out/2015): E a tal "cura do câncer" do ex-professor da USP
(19/mar/2016): Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"
(07/abr/2016): "Fosfo Wars": um balanço até agora
(14/abr/2016): "Fosfo" sancionada: golpe nos outros é refresco
(15/abr/2016): Este blog não vai curar seu câncer
(31/mai/2016): "Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais
(06/jun/2016): E mais um teste da "fosfo" em animais...
(12/jun/2016): Alice no País da Fosfoetanolamina
(14/jun/2016): Mitocôndrias e deuses astronautas
(26/jul/2016): "Fosfolclore" em tempos de testes clínicos
(01/ago/2016): A fosfoetanolamina é segredo
.Primata Falante (18/out/2015): Cura do câncer na USP e divulgação científica (vídeo) (não vi, indicado pelo Pirulla)
(31/mar/2016) Fosfoetanolamina e porquê relatos não são evidências (vídeo) (não vi, indicado pelo luizbento)
.Olá Ciência (18/out/2015): Fosfoetanolamina é a cura do câncer? (vídeo) (não vi)
. coNeCte (18/out/2015): A cura do Câncer da USP e demais revoluções científicas no jornalismo: os cientistas são culpados pelo sensacionalismo midiático?
.Rainha Vermelha (19/out/2015): Ainda bem que estão procurando a Fosfoetanolamina
.Daniel Martins de Barros (20/out/2015): A cura do câncer e a ignorância dos juízes (cuidado! contém paywall poroso)
.Do Nano ao Macro (22/out/2015): Importância do estudo clínico: o caso da fosfoetanolamina
.Cultura Científica (28/out/2015): Fosfoetanolamina: O Cogumelo do Sol da USP
.Nerdologia (12/nov/2015): Fosfoetanolamina
.Universo Racionalista (26/nov/2015): Artigos da Nature rebatem postura anticientífica a respeito da fostoetanolamina
(03/abr/2016): O fiasco com a fostoetanolamina mostra que "de boas intenções, o inferno está cheio"
.Empirismos, Hipóteses e Teorias (02/dez/2015): Por que curamos apenas câncer em ratos tão bem?
.Blog do Pierro (16/dez/2015): Fosfoetanolamina e os 'cabeça de planilha'
.Fronteiras da Ciência (21/dez/2015): Pirula e a pílula milagrosa (Fosfoetanolamina) (áudio) (não ouvi)
.Eli Vieira (19/mar/2016): Caí na onda da fosfoetanolamina. Como evitar a gafe no futuro?
.Alô Ciência! (18/set/2015): Fosfoetanolamina, a pílula da USP, é a cura do câncer?
(21/mar/2016): O que falta para a aprovação da fosfoetanolamina?
.Fique Ciente (28/out/2015): Quais os testes necessários para a liberação de um medicamento?
(06/abr/2016): 5 motivos para a Dilma vetar a produção e distribuição da fosfoetanolamina
.Direto da Ciência (06/abr/2016): A 'zica' da fosfo
.Reinaldo José Lopes (14/abr/2016): A saga da fosfo: notas sobre um desastre (vídeo) (não vi)
.Discutindo Ecologia (16/abr/2016): Mais mitos sobre Vírus Zika e fosfoetanolamina: patentes
.Cientistas Feministas (13/jun/2016): Cura para o câncer: não foi dessa vez
.Dragões de Garagem (20/mar/2016): ExoMars e fosfoetanolamina (vídeo) (não vi)
.Bruna Leite (08/jul/2016): A cura do câncer ou poder da informação? Fosfoetanolamina sintética
.Oxigênio (02/jul/2016): O método científico e o uso da fosfoetanolamina
.LAbI (07/abr/2017): Fosfoetanolamina: de quem é a culpa?
.Francisco J. R. Paumgartten (ComCiência) (08/abr/2017): O previsível fiasco do ensaio clínico da fosfoetanolamina, a improvável 'pílula do câncer'
.Ruth Helena Bellinghini (11/abr/2017): O silêncio conivente da USP e a impunidade
.Ciência em Revista (24/abr/2017): O que os oncologistas pensam sobre o uso da fosfoetanolamina? 

Aqui uma lista de comunicados oficiais dos órgãos envolvidos na celeuma:
.IQSC/USP (s.d.): Esclarecimentos à sociedade
.Fiocruz (02/set/2015): Fiocruz esclarece dúvidas sobre suposto medicamento contra o câncer
.Anvisa (15/set/2015): Pesquisas clínicas sobre Fosfoetanolamina não foram encaminhadas à Anvisa
.Anvisa (s.d.): Nota técnica nº56/2015/SUMED/ANVISA "Esclarecimentos sobre a fosfoetanolamina"
.Anvisa (14/abr/2016): Anvisa reforça alerta para os riscos sanitários provocados pela Lei nº 13.269 (via @rafagarc)
.CRF-SP (03/nov/2015): Nota do CRF-SP sobre a autuação do Instituto de Química da USP São Carlos
.ABC (03/nov/2015): Manifestação da Academia Brasileira de Ciências sobre o uso da fosfoetanolamina sintética para o tratamento de câncer (via @leandrotessler)
.SBPC (s.d.): SBPC corrobora posição de entidades médicas contra a aprovação da fosfoetanolamina
.AMB e outras entidades médicas (14/abr/2016):  Lei assinada por Dilma Rousseff coloca em risco vida de pacientes com câncer (ht Ruth Helena Bellinghini fb)

.GT sobre FOS: (22/dez/2015) Relatório de Atividades do Grupo de Trabalho sobre a Fosfoetanolamina

Cobertura em periódicos científicos:
.Nature (24/nov/2015): Brazilian courts tussle over unproven cancer treatment
(editorial): Drugs on demand

Cobertura em blogs internacionais:
NeuroLogica Blog (27/nov/20150: There is no right to experimental treatments

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- Câncer é o nome de uma enorme lista de doenças: mais de 100;
- Os mecanismos que levam ao desenvolvimento de cada um: genes afetados, se são fatores inatos ou com maior contribuição ambiental - varia muito: por isso não se espera haver um tratamento único que seja igualmente eficaz para todos os casos (isso sem contar a variação individual, p.e., como o organismo do indivíduo metaboliza um determinado composto);
- As chances de se desenvolver algum tipo de câncer ao longo da vida é de cerca de 10% (por isso basicamente todo mundo conhece algum parente ou amigo que já enfrentou o câncer; para um grupo de 10 pessoas muito íntimas, as chances de haver algum caso ao longo da vida é de 100-90^10 ~ 65%; mesmo considerando-se uma janela de 20 anos, as chances são algo da ordem de 35% de que haja pelo menos um caso; em um círculo expandido de 50 pessoas, as chances de haver pelo menos um caso de câncer durante a vida é de 99,5%; em um prazo de 20 anos, é de 78%);
- Medicamento é definido em lei como: "produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico" (Lei Federal 5.991/1973; art. 4° inc. II);
- Droga é definido em lei como: "substância ou matéria-prima que tenha a finalidade medicamentosa ou sanitária" (Lei Federal 5.991/1973; art. 4° inc. I);
- A fosfoetanolamina Pho-S5 mostrou funcionar para inibir o crescimento de certos tipos de células tumorais in vitro e em camundongos;
- Não há nenhum estudo clínico (em humanos) sobre o efeito da administração de fosfoetanolamina.
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Não tenho muito a contribuir em relação ao que já falaram e escreveram. Com minhas idiossincrasias e ainda reverberando a fala do Fernando Meirelles, acho que aqui temos um caso de um cientista que deixou os números de lado e resolveu contar uma história. Verdade que não muito original, o do herói (cientista algo solitário) que enfrenta inimigos poderosos (a Big Pharma e a academia) para realizar um ato de bravura (entregar a cura para o povo).

Quando pedimos os números e fatos, a história é beeem diferente. Simplesmente não temos tais números no que se refere à capacidade do composto efetivamente curar casos de câncer em humanos, nem sobre sua segurança, interações medicamentosas, efeitos de médio e longo prazo...

Argumenta-se que, sendo casos terminais, o paciente não teria mesmo muito a perder e, além disso, ele tem o direito de decidir o que pode ou não, o que deve ou não ser administrado em si mesmo. Um problema é que os pedidos de liminares não parecem ser um caso de decisão informada - houve muita desinformação nos meios de comunicação, em especial, na mídia corporativa. Mas, digamos, que os pacientes sejam bem informados a respeito de que não há nada que indique que funcione em humanos e que seja seguro, eles têm o direito de, em assim desejando, receberem um dado composto na esperança de que lhe seja benéfico?

Um problema é que não sabemos qual o efeito sobre *outras* pessoas. E se o composto for tóxico para pessoas saudáveis e houver uma possibilidade não negligenciável de que contamine os ambientes se distribuído com pouco critério?

As chances não parecem, a priori, serem muito altas, dado que o composto é naturalmente produzido por nosso organismo; mas no caso da produção sintética, sua quantidade é muito maior do que a produzida pelo corpo humano e contaminantes podem estar presentes. Outro dado que poderia indicar sua relativa inocuidade é o fato de estar sendo produzido e ter sido distribuído por vários anos sem aparentemente nenhum caso grave de intoxicação; mas não foram feitos estudos controlados, pode ter havido casos sem que se tenha registrado adequadamente. Efeitos adversos importantes podem ter ocorrido sem que se tenha associado ao composto.

Outra questão. Por que a *USP* deve ser a responsável por fornecer? Declaradamente, elae não tem capacidade técnica de produzir em quantidades e com pureza adequada. Além disso, ela se vê obrigada a usar de recursos próprios para atender à suprir a demanda judicialmente obrigatória de se atender. O composto é disponível comercialmente. Poderia ser comprado e distribuído pelas autoridades sanitárias.*

O ponto principal que não consigo entender: por que não avançam para a fase clínica? Alguns (como Átila Iamarino) apontaram para o fato de não se ter testado em outros modelos animais além de camundongos. Aí a questão é: por que não avançam para outros modelos animais? (Átila aponta para a destruição do Instituto Royal, que impede o teste com cães no Brasil, mas isso poderia ser testado fora.)**

O Prof. Gilberto Orivaldo Chierice, o pesquisador aposentado que alega que a Pho-s cura câncer. diz que tentou registrar na Anvisa, mas encontrou dificuldades. A Anvisa nega. O mesmo Chierice disse que houve problemas em um acordo com a Fiocruz para que a instituição sintetizasse o composto industrialmente para a fase de testes clínicos. A Fiocruz nega que tenha havido problemas. A teoria da conspiração de que a Big Pharma estaria a impedir não faz, claro, nenhum sentido. P.e. Farmanguinhos, da Fiocruz produz o mesilato de imatinibeimanitibe para o tratamento de leucemia mieloide crônica e estroma, sem nenhum impedimento por parte da indústria farmacêutica. A alegação de Chierice de que não poderia ceder patente porque isso poderia significar o engavetamento também é estranha: ao se *recusar* a ceder a patente impediu-se o prosseguimento da parceria; o termo de cessão poderia ser simplesmente de colocar a síntese do composto em domínio público - em modelo de inovação aberta, p.e.

Em função disso fica difícil de engolir a história heroica do salvador contra o sistema querendo o bem comum. Não estou dizendo que o sistema seja o herói da história - há muitas falhas, como se pode ver em outros casos como registro de medicamentos sem os devidos cuidados prévios para garantir sua segurança (Vioxx, alguém?) -, nem que o pretenso herói seja necessariamente o vilão.

*Obs (21/out/2015): Segundo Marcos Vinícius de Almeida, biólogo da equipe de Chierice, há composto de uso industrial de mesmo nome, com formulação diferente. Não é esse que haveria de ser adquirido comercialmente, mas outras formulações que estão sendo testadas no exterior - há vários grupos trabalhando com a Pho-s em pesquisas antitumorais.

**Upideite(22/out/2015): O farmacêutico Adilson Kleber Ferreira concedeu uma entrevista ao jornalista Reinaldo José Lopes. Autor de vários estudos, em co-autoria com Chierice, sobre a Pho-s, ele acredita que os dados ainda não são suficientes para justificar a passagem para a pesquisa clínica. Também se diz contrário à iniciativa de Chierice de distribuir o composto aos pacientes com tumor.

***Upideite(28/out/2015): adido a esta data.

****Upideite(31/out/2015): adido a esta data.

6Upideite(19/ago/2016): modificado a esta data.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O lado escuro da luz: um luar como este do sertão #SNCT2015

Certa vez, para uma disciplina de Introdução à Entomologia, fomos à Estação Ecológica de Boracéia. Durante o dia passamos a coletar pequenos insetos com a delicada técnica do pano de batida. Um pedaço de pano com cantoneiras costuradas às quais se encaixam as extremidades de uma cruz de madeira, que mantém o pano aberto para coletar os insetos, pedaços de folha e ramagem, aranhas, lacraias e demais organismos que vivem nas plantas, ou nela estão de passagem. Estes caem à medida em que de modo suave espancamos a planta com um porrete (seria um belo exercício de treinamento para diversas unidades especiais de controle e enfrentamento à multidão mundo afora). À noite passamos para outra técnica. Se bem me lembro era lua nova e, a despeito de ser uma região chuvosa, o céu estava aberto. Perfeito para usar o método da armadilha luminosa.

Não sei se batemos o recorde de maior armadilha luminosa do mundo: essencialmente uns 100 metros quadrados de parede caiada de branco iluminada por uma lâmpada incandescente de uns 150 W. Mas creio que batemos o recorde mundial de lepidópteros atraídos para uma armadilha luminosa improvisada.

A casa, postada no alto do morro, o céu desobstruído e sem nenhuma concorrência por perto, a luz deveria alcançar quilômetros e quilômetros por sobre a floresta da reserva.

Em questão de minutos, as paredes ficaram quase que completamente forradas por um tapete vivo de mariposas, borboletas noturnas e alguns intrusos de outras ordens e filos. Minha estimativa bem grosseira é de algo na ordem de 10^5 a 10^6 indivíduos colados aos muros. Admiramos o fenômeno, estudamos alguns exemplares, e desligamos a luz. (Uma consequência não calculada é que dentro da casa haveria dezenas de mariposas mesmo mantendo-se portas e janelas fechadas - com aquele batalhão inevitavelmente alguns encontrariam espaços das brechas. Ocorre que a casa era também o local para nosso pernoite. Lepidópteros recebem esse nome por causa das escamas - gr. lepidos - que enfeitam suas asas - gr. pteros. Escamas que, entre outras coisas, permitem escapar de teias de aranha por destacarem-se facilmente. A cada batida, umas poucas são perdidas. Com dezenas e dezenas voando em aposentos limitados, isso era o pesadelo de qualquer asmático. Não sou asmático, mas ainda respiro pelos pulmões. E pulmões e vias aéreas superiores não são o melhor lugar para pequenos fragmentos de quitina. Foi mais ou menos como dormir no Saara, durante uma tempestade de areia.) Lá fora, uma boa parte acabou se dispersando, mas era possível encontrar os restos mortais de um bom bocado (as formigas se banqueteavam com boa parte): talvez tivessem esgotados suas últimas energias, que guardavam para a próxima Lua cheia (a de verdade) onde finalmente encontrariam suas caras-metade sem a concorrência de centenas de milharesões (quase todos de espécies diferentes) que vieram dar na mesma parede, ao invés de se espalharem por uma área bem maior. (Esses encontraram a morte no Saara. Um destino bem mais trágico do que uma noite mal dormida, interrompida repetidas vezes por sessões intermináveis de tosse.)

Insetos e outros organismos noturnos evoluíram de modo a utilizar pistas luminosas em seus ciclos e modos de vida. Durante centenas de milhões de anos, a única fonte noturna mais intensa de luz - afora eventuais erupções, cometas e relâmpagos - no céu (não estou contando com o fenômeno do sol da meia noite) foi nosso satélite natural: especialmente em sua fase cheia. Visível para todos em um mesmo local, basicamente ao mesmo tempo, é um ótimo sinal de sincronização para o que quer que seja vantajoso que todos os indivíduos façam ao mesmo tempo: como maturação sexual e acasalamento (se um indivíduo está maduro sexualmente enquanto a imensa maioria dos demais de sua espécie não está, as chances de encontrar um parceiro sexual são bastante diminuídas). Movendo-se lentamente pela abóbada celeste, a Lua cheia serve como uma orientação suficientemente fiel de direção. Todos movendo-se em direção à ela, posto que não sairão pela atmosfera afora rumo ao espaço, acabam se encontrando no meio do caminho (claro que descargas de outros sinais como feromônios e sons ajudam muito).

Naquela noite eles não contavam com o fato de que a Lua estaria tão perto. A ponto de trombarem com ela. Bem, não era a Lua. Era a casa. A armadilha luminosa.

Por centenas de milhões de anos não havia esse perigo. Mas agora há. E não apenas uma pequena casa no meio da Estação Ecológica de Boracéia. São bilhões de pontos concentrados em milhares de aglomerações que chamamos de cidades. Iluminados a ponto de serem visíveis do espaço (Fig. 1).

Figura 1.  Terra à noite. Imagem composta de fotografias de satélite. Fonte: Nasa.

Utilizados de modo calculado esses bugs no cérebro de insetos e outros organismos ajudam os cientistas em seus estudos - ainda que ocasionalmente possam de modo inadvertido causar um impacto centenas de milhares de vezes maior do que o inicialmente pretendido; mas nossos dispositivos de iluminação noturna, projetados para nosso conforto e segurança, geralmente não levam em conta o impacto que têm nos demais seres.

De tartarugas recém-eclodidas que vão em direção errada, rumo às luzes da cidade, e não ao clarão da Lua refletido nas águas do mar; às aves e mamíferos que têm seus hábitos crepusculares estendidos; insetos bioluminescentes que têm seus sinais inviabilizados pela claridade; predadores que não podem mais contar com a escuridão noturna para surpreender suas presas, nem presas que podem contar com a proteção do breu. Para uma revisão dos possíveis efeitos da poluição ecológica luminosa sobre organismos terrestres e aquáticos, veja, por exemplo, Longcore & Rich 2004.

Astrônomos reclamam das oportunidades perdidas com a poluição luminosa, mas para bilhões e bilhões de seres, o preço pode ser ainda mais menos brilhante. O crescimento da população urbana e o desenvolvimento econômico são importantes fontes de pressão que tendem a aumentar a poluição pela luz. Medidas de controle têm sido sugeridas e implementadas: rebatedores para evitar o vazamento de luz diretamente para cima e fora da área a ser iluminada, uso de intensidade adequada para o fim, limitação do tempo de iluminação, e uso de fontes com espectro luminoso adequado (evitando-se as com fortes emissões da faixa do azul). Mas os efeitos da adoção desses controles ainda são incertos,
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Esta postagem faz parte da comemoração da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2015, cujo tema é "Luz, ciência e vida". A blogagem coletiva acabou não rolando; a despeito 39 canais de ciências entre blogues, podcasts e videocasts se cadastrarem não houve retorno do MCTI e da comissão da SNCT.*

*Upideite(23/out/2015): A blogagem acabou saindo. Inclusive com reportagem sobre a ação feita pela equipe de reportagem do MCTI.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Blogagem coletiva: #SNCT2015

Abaixo a relação de canais de divulgação científica que toparam colaborar com a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2015. Mas a blogagem coletiva acabou não saindo por falta de retorno do MCTI e da comissão da SNCT aos contatos**.

Gostaria que todos os dez leitores do GR prestigiassem-nos. (Muitos certamente são conhecidos da maioria.) Se alguém publicou algo sobre o tema "Luz, ciência e vida", avise-me para acrescentar na lista. (Se quem estiver na lista, quiser indicar o post/programa também avise-me que coloco em frente ao link do canal.)

Ciência Ao Natural
Biorritmo
A Bela Ciência
Ceticismo, Ciência e Tecnologia
4x15
Evolution Academy
Coluna Ciência
Metodologia Científica e Tecnologia
Do Nano ao Macro -5 SNCT 2015: a luz da vida
Cultura Científica - *Luz, Ciência e Vida
Física na Veia! - 8Luz: onda ou partícula?
Rainha Vermelha
Rascunhos Científicos Beta Final
Curiozoo
A Porta de Marfim - ***Luz engorda?
A Liga dos Cientistas Extra Ordinários
Dinobótico
Pesquisa em Biomedicina
Poluição Luminosa - *Tem blogagem coletiva na Semana Nacional de C&T 2015!; 6 Janelas para o Universo #SNCT2015
Nightfall in Magrathea
Gênero e Ciências
Blog Cético
Psiquiatria e Sociedade
Blog Divulga Ciência
Um A+ de BioCiências -8Luz, cloroplasto, ação
Dragões de Garagem
DNA Cético - *A vida e a luz
Rock com Ciência -7Luz, cloroplasto e fotossíntese
Vida das Aves
#SciCast
Evolucionismo
Vi(ver) n_a CIdade
Sonhos do Neuro - *Luz dentro de casa e o sono que atrasa
Genética Agronômica 
Café Na Bancada - ***Brilha, brilha, escorpiãozinho...; Me diz…Por que o céu é azul…E os olhos da minha filha também!Brilha, brilha, bacteriazinha; 4 Luz, ciência... Evolução!; 5 Ciclos, ritmos e você - Apresentando seu relógio biológico
PET Ciências
Astronomia no Zênite - 5 Decifrando a luz
Sofia Moutinho
RSG-Brazil

*Upideite(20/out/2015): atualizado a esta data.
**Upideite(21/out/2015): pelo twitter, o MCTI abriu a possibilidade de publicar a lista dos canais participantes no websítio do Sintonize Ciência, onde estão centralizando as informações sobre as ações para a SNCT.
***Upideite(21/out/2015): atualizado a esta data.
4Upideite(22/out/2015): atualizado a esta data.
5Upideite(23/out/2015): atualizado a esta data.
6Upideite(24/out/2015): atualizado a esta data.
7Upideite(28/out/2015): atualizado a esta data.
8Upideite(31/out/2015): atualizado a esta data.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

"Publique ou pereça", um breve histórico

Em 1996, Eugene Garfield se impôs a tarefa de buscar as origens da expressão "publish or perish" ("publique ou pereça"). A mais antiga referência que encontrou foi no livro "The Academic Man: A Study in the Sociology of a Profession", publicado em 1942, de autoria do sociólogo  Logan Wilson. Mas Wilson não cita ninguém em específico como autor do termo. Garfield, em conversa com sociólogos como Robert Merton, acredita que, de todo modo, era uma expressão já corrente à época.

Em um obituário de William Morris Davis, o pai da Geografia americana, publicado em 1934, Isaiah Bowman relata um evento ocorrido ainda no início do século 20:
"To Professor Davis is due the organization of the Association of American Geographers in 1904, at a meeting in his native Philadelphia. He immediately urged that the Association 'publish or perish.' 'If it's worth doing it's worth printing,' was his advice to students." (Bowman 1934; grifo meu)
["Ao Professor Davis devemos a organização da Associação Americana de Geógrafos em 1904, em um encontro em sua Filadélfia natal. Ele imediatamente pediu para a Associação 'publique ou pereça'. 'Se vale a pena fazer, vale pena publicar', era seu conselho aos estudantes."]

Como presidente da Associação Gastroentereológica Americana, Ernest H. Gaither discursou em 1939: "Let us now turn to a problem which has given us much food for thought; indeed, it has constituted one of the reasons for changing our constitutions and by-laws. I refere to our past custom of not admitting to our membership anyone who has not published several or more papers of at least moderately outstanding merit. Even in a organization such at this, devoted to scientific investigation, I think we can go too far in barrying everyone who has not shown a tendency to be fairly prolific in writing. I would like to be recorded with those who do not subscribe to the dictum 'publish or perish,' for it is my candid opinion that such an organization as ours will not flourish if nourished only on cold, scientific, albeit enlightening facts." (Gaither 1939; grifo meu)
["Falemos agora de um problema que tem dado muito o que pensar; na verdade, ele foi uma das razões para mudarmos nossos estatutos e regulamentos. Refiro-me ao costume pretérito de não admitir como membro ninguém que não tenha publicado vários e vários artigos de mérito pelo menos medianamente relevante. Mesmo em organizações com este, devotada à investigação científica, penso que iremos longe demais ao barrar qualquer um que não mostre uma tendência a ser razoavelmente prolífico em escrever. Gostaria de ser listado entre aqueles que não subscrevem ao ditado 'publique ou pereça' porque, em minha inocente opinião, organizações como a nossa não vingarão se nutridas apenas com frios fatos científicos, ainda que esclarecedores."]

Essas duas referências acima confirmam as suspeitas de Garfield e recuam as origens para pelo menos o início do século 20. E indica que se disseminava para várias áreas. (Embora não se refiram à necessidade de publicação para posições como professores titulares nas universidades.) Gaither já indica uma dissensão presente na visão positiva em relação à doutrina/filosofia/cultura/síndrome/sistema "publique ou pereça".

Segundo o bibliotecário Robert N. Matuozzi (2007), no entanto, a raiz da cultura é mais antiga: "The inflexible rule of 'publish or perish' was first mandated by the Prussian ministry in 1749, academic authorship constituing a visible form of capital recognizable through peer-reviewed 'applause'." (Matuozzi 2007)
["A inflexível regra do 'publique ou pereça' foi imposta pela primeira vez pelo ministro prussiano em 1749, constituindo a autoria acadêmica em uma forma visível de capital reconhecível através do 'aplauso' revisado por pares."]

Em obituário de 1965, John B. Hitz registrava sobre o oftalmologista americano Ferdinand Herbert Haessler:
"Although not a prolific writer, according to the modern "publish or perish" philosophy, he published some 30 articles, three textbooks, and one film." (Hitz 1965; grifo meu)
["Embora não tenha sido um autor prolífico, de acordo com a moderna filosofia do 'publique ou pereça', ele publicou 30 artigos, três livros textos e um filme."]

O uso da expressão "moderna" talvez indique uma percepção de mudança no nível da disseminação e intensidade da "filosofia" do "publish or perish". Segundo os dados de Ngram Viewer, o conceito começa a ter uso crescente a partir do pós-guerra (Fig. 1).


Figura 1. Evolução do uso da expressão "publish or perish" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

De Rond & Miller, em ensaio de 2005, consideram o início da doutrina "publish or perish" nas escolas de administração dos EUA, deu-se em na segunda metade da década de 1950, com a publicação de dois relatórios sobre a situação do ensino superior na área: da Fundação Ford, por Gordon & Howell, 1959, e da Corporação Carnegie, por Pierson & Others, 1959. Críticas à obsolescência intelectual, falta de uma atmosfera intelectual estimulante, falta de rigor acadêmico dos estudos e outras observações levaram a uma reformulação das escolas de administração, transformando-as em tipo de departamentos de estudos sociais aplicados, com pesquisas lançando mão de sofisticadas técnicas estatísticas e atentando para o rigor e testabilidade.

A partir daí ocorre uma aceleração no crescimento das menções aos termos na literatura. Mais ou menos na mesma época também passa a aparecer e a crescer a menção à expressão "citation index" - metodologia que se desenvolve a partir de meados da década de 1950 (Fig. 2).

Figura 2. Evolução do uso da expressão "citation index" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

Em 1968, os economistas Jack W. Skeels e Robert P. Fairbanks (que já deixam a questão clara no próprio título: "Publish or perish: An analysis of the mobility of publishing and nonpublishing economists") abrem o texto com: "Academicians generally recognize 'publish or perish' as an important factor affecting their careers. Debate centers on the extent to which publishing (P) or nonpublishing (P_0) alters career patterns and whether adminstrative talent and teaching skill act as partial substitutes for P (publishing)." (Skeels & Fairbanks 1968; grifo meu)
["Os acadêmicos geralmente reconhecem o 'publique ou pereça' como um importante fator a afetar suas carreiras. O debate gira em torno do quanto publicar (P) ou não publicar (P_0) afeta os padrões de carreira e se talento administrativo e habilidade docente atuam como substitutos parciais de publicar (P)."]

Aparentemente em menos de 10 anos a reformulação já se fazia sentir.

O matemático neerlandês Henk Barendregt, sobre a influência do matemático austríaco Georg Kreisel em sua carreira, conta a seguinte história.
"Kreisel often made me aware of my academic career. 'Take for example Heyting', he once said, 'with results not more technical than yours he became well-known.' Also Kreisel emphasized that one should publish one's results as soon as possible. With the present 'publish or perish' insanity, this may sound obvious, but in 1971 it was not." (Barendgret 1996; grifo meu)
["Kreisel frequentemente me alertava sobre minha carreira acadêica. 'Tome o exemplo de Heyting', disse uma vez, 'com resultados que não são mais técnicos do que os seus, ele ficou famoso'. Kreisel também enfatizava que se deveria publicar os resultados o mais rapidamente possível. Com a atual insanidade do 'publique ou pereça', isso pode soar óbvio, mas em 1971 não era."]

O avanço do "publish or perish", pelo jeito, foi mais lento fora dos EUA, mesmo na Europa. E, de acordo com os dados de Van Dalen & Henkens 2012 em uma pesquisa internacional com 730 demógrafos associados à União Internacional de Estudos Científicos da População (IUSSP), a intensidade da pressão percebida é também maior nos EUA, mas também presente em outras regiões: 74% dos pesquisadores americanos concordam (em parte ou totalmente) com a frase "a pressão em minha organização para publicar é alta"; entre canadenses, britânicos e australianos, são 71%; para europeus ocidentais (exceto britânicos): 59%; e 52% entre asiáticos, europeus orientais, latino-americanos e africanos. Parece haver mais apoio entre os pesquisadores americanos e de regiões menos desenvolvidas e uma visão mais negativa entre os pesquisadores europeus ocidentais (Tabela 1).

Tabela 1. Grau de concordância (%) sobre possíveis consequências da pressão a publicar em revistas internacionais com revisão por pares.
Frase EUA CAN, GBR, AUS EUR W ASIA, AL, AFR, EUR L
Revela o que há de melhor nos pesquisadores 57 44 48 66
Melhora a mobilidade ascencional na academia 63 64 56 78
Faz os pesquisadores virarem as costas para problemas nas políticas públicas 35 48 42 37
Reduz o incentivo a se publicar em revistas voltadas a questões do próprio país 32 70 70 48
Leva a um grande número de artigos não lidos 57 62 56 40
O quanto as consequências atribuídas ao "publish or perish" realmente ocorrem? A despeito da antiguidade do fenômeno, de sua pervasividade e ubiquidade interáreas e da quantidade de artigos dedicados ao tema: defendendo-o ou criticando-o, não é muito fácil encontrar artigos que testem as hipóteses levantadas.

Fronczak e colaboradores (2007) analisaram os fatores de produtividade em termos de publicação acadêmica modelando-os matematicamente. Confirmaram que pesquisadores com maior número de publicações no início da carreira tendem a ser os mais produtivos no futuro, compatível com a hipótese da vantagem cumulativa. A pressão do "publish or perish" foi modelada como uma influência externa (um campo externo em fisiquês) que leva aos cientistas a uma certa altura da carreira a publicarem uma dada quantidade média de artigos (de modo similar a que um gradiente de temperatura determina a distribuição de energia entre as partículas de um sistema). Uma interpretação disso - não explicitamente discutida de modo mais extenso pelos autores - é que as diferenças de produtividade entre pesquisadores no mesmo estágio da carreira surgem mesmo sob a suposição de que são essencialmente iguais em características pessoais, mais ou menos analogamente a que partículas idênticas de gás terão energias diferentes a uma dada temperatura (apenas a média será igual entre diferentes amostras aleatórias). Isto é, diferenças de quantidade de artigos publicados sob a pressão do "publique ou pereça" não revelam necessariamente diferenças de méritos.

Fanelli (2010) analisou uma das consequências da cultura de pressão à publicação. Em uma amostra aleatória de artigos publicados em que os autores correspondentes eram radicados nos EUA. Artigos em que os autores eram originários de instituições situados nos estados com maiores índices per capita de publicação tendiam a apresentar maior viés de publicação de resultados positivos.

Uma suspeita constante é que casos de fraudes e condutas antiéticas nas ciências seriam motivados em grande parte pela pressão de publicação. O aumento do número de artigos cancelados (retracted) poderia indicar uma maior incidência de má condutas. Mas estudo de Fanelli (2013) sugere que o aumento de artigos cancelados se deve a um maior rigor na vigilância, com poucos indícios de aumento de condutas fraudulentas.

Parece que a cultura do "publish or perish" nem leva ao que os defensores mais enfatizam: premiação do mérito, nem ao desastre temido por seus detratores: incentivo a condutas antiéticas. No entanto, o possível viés para a publicação de resultados positivos pode ser um ponto de preocupação.

(Importante frisar que não é um histórico completo; certamente muitos artigos relevantes sobre o tema foram deixados de lado. Esta análise parcial pode mudar se mais estudos forem considerados. Mas, como dito, tem sido difícil encontrar artigos com análises de dados a respeito do "publish or perish". Pode ser falha minha em não utilizar palavras-chave adequadas para busca no Google Scholar.)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Como é que é? - Pratos azuis diminuem o apetite?

Já havia me manifestado antes contra esses perfis de fatos curiosos, pouco conhecidos, etc. que com frequência maior do que o limite da confiabilidade recomendaria publicam informações falsas e errôneas - principalmente porque raramente corrigem suas publicações depois de alertas sobre os erros.

Há um mito bastante disseminado relacionando cores e apetites. Não que não haja nenhuma relação, mas com frequência as cores relacionadas e seus efeitos são invertidos ou têm seus efeitos exagerados.

Um desses perfis de fatos curiosos diz que a cor azul desestimula o apetite por ser uma cor incomum para alimentos humanos, o que causaria uma resposta de evitação pelo cérebro.

Figura 1. Postagem desinformativa (esquerda). Real valor (direita). (Sim, piada repetida. mas os erros se repetem também.)

Parece fazer sentido, mas...

Antes do "mas", cabe observar que é algo que vemos e ouvimos não apenas na imprensa leiga como até na especializada de divulgação científica. O sítio web M de Mulher de agosto de 2012 traz em uma matéria com dicas para emagrecer: "A cromoterapia garante: a cor azul é supressora de apetite. Hora de investir em porcelanas, guardanapos e jogos americanos azuis. A cor calmante faz você comer mais devagar, o que ajuda a perceber quando está satisfeita." A ligação com a cromoterapia, prática dentro da chamada "medicina alternativa complementar", considerada por muitos (inclusive o autor do GR) como sem base científica apropriada, é suspeita.

A revista Superinteressante, no início, antes de se perder em bobagens pseudocientíficas descaradas, publicava em sua edição de fevereiro de 1988: "Imagine quatro fotografias de um mesmo prato. Toda a diferença está no fundo. Sobre o branco, parece uma insossa refeição de hospital. O verde também corta a fome, porque chama mais a atenção que a própria comida. O violeta esfria o prato. Sobre o vermelho, porém, o filé parece suculento, os legumes mais tenros — sem dúvida, esta é a foto que mais impressiona. Ao vê-la, alguém é bem capaz de correr à geladeira ou dar um pulo à lanchonete mais próxima."

No segundo episódio do programa Crowd Control exibido pela National Geographic em dezembro de 2014 (no Brasil é conhecido como "Repense sua Rotina"): "Food for Thought" é apresentado a mesma história sobre a cor azul ser inibidora de apetite. "Blue is an appetite suppressant, other than blueberries, there’s hardly any naturally occurring blue food, so we don’t have a hunger response to that color." ["O azul é um inibidor de apetite, além de mirtilos, dificilmente encontramos alimentos azuis na natureza, assim não temos nenhuma resposta a essa cor."]

Afora haver diferença entre ser inibidor (uma resposta negativa) e não haver nenhuma resposta (ausência de resposta), parece fazer sentido, mas...

Ok, acho que esses exemplos são o suficientes para demonstrar a disseminação e a continuidade do mito. Mas... mas isso é mito.

Na realidade há poucos estudos publicados a respeito da relação entre cores do ambiente (ou dos alimentos) e o apetite ou a quantidade ingerida. Os poucos que existem, porém, contam uma história bem diferente.

Piqueras-Fiszman & Spence 2014 fizeram uma revisão desses estudos: "Regarding the effect of certain colours of the extrinsic elements of food on people’s intake, it is worth considering the fact that the colour red has been shown to elicit avoidance motivation across a variety of behavioural contexts (e.g., Birren, 1963; Mehta & Zhu, 2009; though Singh, 2006, once reported that red stimulates appetite). Several studies have investigated the effect that the colour red has on the consumption of both snack foods and soft drinks (e.g., Genschow, Reutner, & Wanke, 2012). For instance, the participants in Genschow et al.’s study drank less from a cup with a red label than from a cup with a blue label. They also ate less snack food from a red plate than from a blue or white one. The authors concluded that red might function as a subtle stop signal that works even outside of a person’s focused awareness and may thereby reduce incidental food and drink intake (cf. Kulman, 2001, for a possible environment in which to apply such findings). Meanwhile, Bruno, Martani, Corsini, and Oleari (2013) extended this line of research by looking further into this intriguing phenomenon, demonstrating that red plates reduced the consumption of food (and the use of hand cream), while, interestingly, the samples from all the plates were rated as being similarly liked. In addition, Bruno et al. also demonstrated that their results were not dependent on the Michelson (luminance) contrast nor on the colour contrast either, leaving them to suggest that it might simply be the meaning of avoidance associated with the colour red (of the plate) that was influencing people in those conditions." ["A respeito do efeito de certas cores de elementos extrínsecos dos alimentos - i.e., pratos, talheres, ambientes e outras coisas em volta que não os alimentos em si - sobre a ingestão pelas pessoas, vale considerar o fato que se demonstrou que a cor vermelha ativa a motivação de evitação em uma variedade de contextos comportamentais (e.g., Birren, 1963; Mehta & Zhu, 2009; embora Singh, 2006, tenha reportado uma vez que o vermelho estimula o apetite). Vários estudos investigaram o efeito da cor vermelha sobre o consumo tanto de petiscos quanto de refrescos (e.g., Genschow et al. 2012). Por exemplo, os participantes no estudo de Genschow et al. beberam menos de uma xícara marcada com etiqueta vermelha do que de uma xícara com etiqueta azul. Eles também comeram menos petiscos de um prato vermelho do que de um prato azul ou branco. Os autores concluíram que o vermelho pode funcionar como um sinal sutil de parada que funciona mesmo fora da consciência focada da pessoa e pode, assim, reduzir a ingestão incidental de alimentos e bebidas (cf. Kulman, 2001, por um possível ambiente no qual se aplicar esses achados). Enquanto isso, Bruno et al. 2014, estenderam essa linha de pesquisa observando mais atentamente esse intrigante fenômeno, demonstraram que pratos vermelhos reduzem o consumo de alimentos (e o uso de cremes para mãos), enquanto, interessante, amostras de todos os pratos foram classificados como sendo similarmente apreciados. Além disso, Bruno et al., demonstraram também que seus resultados não dependiam do contraste de luminância de Michelson, nem do contraste de cores, fazendo-os sugerirem que isso pode ser simplesmente o significado da evitação associada com a cor vermelha (do prato) a influenciar as pessoas nessas condições."]

Qual o tamanho do efeito inibidor do vermelho?

No estudo de Genschow et al. 2012, a 41 estudantes universitários (todos do sexo masculino) foram oferecidos refrescos de chá (três sabores) em copos de 300 ml. A média de consumo dos copos azuis foi de 57,24±41.74 ml; dos vermelhos: 33,59±22,21 ml. Durante um encontro público na universidade, ao qual compareceram 130 pessoas (52 homens, 72 mulheres, 6 sem sexo informado), foram oferecidos pretzels em pratos azuis, vermelhos e brancos. Dos pratos azuis, a média de consumo foi de: 3,00±3,08 pretzels, dos brancos 2,91±2,98 e dos vermelhos: 1,57±2,29.

No estudo de Bruno et al. 2013, os voluntários eram divididos em três grupos e após experimentarem os produtos, deveriam preencher um questionário com sua avaliação sensória. 90 alunos (45 mulheres) - 30 em cada grupo - comeram uma média de  6,7±0,7 pipocas do prato azul; 7,3±0,7 do prato branco e 4,8±0,7 do vermelho. 75 alunos (45 mulheres) - 25 em cada grupo - consumiram 4,3±0,5 g de chocolate no prato azul; 3,3±0,5 g do branco e  2,3±0,4 g do vermelho. 75 alunos (39 mulheres) - 25 em cada grupo - usaram uma média de 1,9±0,2 g de creme para as mãos do prato azul; 1,8±0,2 g do branco e 1,0±0,1 g do vermelho.

Há uma redução de 30 a 50% no consumo com pratos ou copos vermelhos em relação a pratos e copos azuis ou brancos.

Então, aparentemente, há um aefeito da cor no consumo de bebidas e alimentos. Mas *não* parece haver efeito inibidor pela cor azul, nem estimulante pela cor vermelha: ao contrário, a cor vermelha parece inibir o consumo. O azul parece não ser diferente em relação ao branco.

Se for isso mesmo, (bom frisar novamente: os estudos ainda são esparsos, mesmo que consistentes) é uma má notícia para aquela rede de lanchonetes de arcos dourados.

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