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domingo, 11 de dezembro de 2016

Cesarianas estão aumentando a cabeça dos bebês? Não tão simples assim.

O Pirula já comentou (e claro que recomendo que assistam ao vídeo antes) a respeito do estudo e a repercussão na imprensa e nas mídias sociais do estudo de Mitteroecker et al. 2016 com um modelo matemático do efeito do aumento das operações cesarianas sofre a frequência da desproporção cefalopélvico (CPD - basicamente quando a cabeça do feto é maior do que a abertura do canal de parto da mãe).

Embora a lógica por trás seja simples: o tamanho que o canal do parto tem é limitado (os autores do estudo contestam que a limitação seja por razões biomecânicas relacionadas à locomoção, mas não apresentam uma hipótese alternativa); ao mesmo tempo, quanto maior o tamanho do bebê (e, assim, maior o tamanho de sua cabeça) maior seria a vantagem reprodutiva: bebês maiores, de modo geral, seriam mais capazes de sobreviver aos primeiros anos e, assim, com a introdução da cesariana, uma barreira seletiva seria removida ou amenizada, permitindo a propagação de genes relacionados com maiores tamanhos de bebês -, na realidade, há uma série de outros fatores que podem complicar as coisas e limitar a aplicabilidade do modelo apresentado no trabalho. P.e. condições como obesidade materna e diabetes estão correlacionadas com um maior tamanho fetal - e isso não é discutido pelos autores.

Os pesquisadores concluem que, pelo modelo, a introdução da cesariana seria o suficiente para explicar a ocorrência da CPD ("[W]e show that weak directional selection for a large neonate, a narrow pelvic canal, or both is sufficient to account for the considerable incidence of fetopelvic disproportion") já que, em apenas duas gerações (cerca de 50 anos), o relaxamento da seleção contra fetos maiores aumentaria a incidência da CPD em 10 a 20%. Mas não se dão ao trabalho de analisar se tal aumento realmente é observado na população.

Não encontrei nenhum banco de dados com informações coligidas e curadas sobre as taxas de CPD nos países em diferentes anos. Busquei então no Google Scholar trabalhos com a expressão "cephalopelvic disproportion". O levantamento está disponível aqui.

Na Fig. 1 estão dispostos os dados sobre a frequência de CPD em diferentes países ao longo do tempo. Parece haver alguma base para a suposição de que há uma tendência de aumento da desproporção.

Figura 1. Tendência temporal de CPD (desproporção cefalopélvica) em diferentes países.

Mas será que isso mostra que a conclusão Mitteroecker e cols. de que a fraca seleção a favor de neonatos grandes é o suficiente para explicar a taxa de CPD?

Na Fig. 2 é mostrada a relação entre a variação temporal da taxa de cesarianas nos países e a variação no mesmo período da CPD.

Figura 2. Relação entre variação da taxa de cesarianas (CS) e de CPD.

A variação na taxa de cesariana (portanto aumento ou relaxamento do regime seletivo contra fetos grandes) é capaz de explicar pouco mais de 30% da variância da CPD nos países ao longo do tempo. Então, embora o aumento da proporção de partos abdominais tenha alguma correlação com o aumento da frequência de fetos desproporcionalmente maiores, essa correlação não é particularmente alta: outros fatores - tais como os mencionados acima: aumento da obesidade e da diabetes - precisam ser considerados (e, no conjunto, com peso maior do que apenas a seleção para fetos maiores). (Claro que se deve levar em conta que essa correlação baseia-se em dados de apenas 10 países, havendo grande diversidade de valores das taxas de cesariana e das condições de sua prescrição por fatores como se se trata de hospitais públicos, privados ou samaritanos, de acordo com a região do país, idade, peso e estatura da parturiente, etc.)

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